Galp fecha refinaria de Matosinhos e concentra-se em Sines. Pelo menos 300 pessoas podem ser despedidas

José Sena Goulão / Lusa

A Galp vai concentrar as suas operações de refinação e desenvolvimentos futuros no complexo de Sines e descontinuar a refinação em Matosinhos a partir do próximo ano, anunciou esta segunda-feira a empresa.

Num comunicado enviado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), a Galp refere que “continuará a abastecer o mercado regional mantendo a operação das principais instalações de importação, armazenamento e expedição de produtos existentes em Matosinhos”, e que está a “desenvolver soluções adequadas para a necessária redução da força laboral e a avaliar alternativas de utilização para o complexo”.

A empresa diz que as “alterações estruturais dos padrões de consumo de produtos petrolíferos motivados pelo contexto regulatório e pelo contexto covid-19 originaram um impacto significativo nas atividades industriais de downstreaming da Galp”, e afirma que “o aprovisionamento e a distribuição de combustíveis no país não serão impactados por esta decisão”.

Esta reconfiguração “permitirá uma redução de mais de €90m por ano em custo fixos e investimentos e c.900kt das emissões de CO2 e (scope 1 e 2) associadas ao sistema atual”, refere a nota.

“O valor contabilístico das atividades a ser descontinuadas é de c.€200m”, acrescenta.

A Galp diz ainda que se vai focar “no aumento da resiliência e competitividade do complexo industrial de Sines, com uma capacidade de processamento de crude de 200kbpd e equipado com unidades de maior conversão, estando em análise iniciativas com vista ao aumento da sua eficiência processual e energética, bem como a integração da produção de biocombustíveis avançados e de outros produtos com baixo teor de carbono e maior valor acrescentado”.

“Os investimentos potenciais associados a estas iniciativas poderão ser suportados pelas poupanças da reestruturação em curso e pelos mecanismos de apoio à transição energética”, acrescenta a empresa.

No passado dia 11, o Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Transformadoras, Energia e Atividades do Ambiente (Site-Norte) tinha alertado para a “incerteza” quanto ao futuro da refinaria de Matosinhos, onde a produção de combustíveis está suspensa “indeterminadamente” e a monobóia desativada.

“O momento atual no complexo industrial é de enorme incerteza e vulnerabilidade no que diz respeito à sua continuidade como um dos maiores polos industriais existentes no norte do país”, referia o sindicato, num comunicado distribuído aos trabalhadores da Petrogal, em Matosinhos.

“A suspensão da produção de combustíveis indeterminadamente, parando equipamentos que, recordamos, foram considerados na altura como o garante do futuro e competitividade da refinaria é sem dúvida revelador do momento delicado que atravessamos”, sustentava a estrutura sindical, exigindo a “retoma plena da atividade da fábrica de combustíveis” e alegando que “os avultados investimentos que aí foram realizados são o garante do emprego, da criação de riqueza e do desenvolvimento da economia regional e do país”.

Decisão pode levar ao despedimento de 300 pessoas

A TSF adianta que a decisão da Galp pode levar ao despedimento de 300 trabalhadores.

Em declarações à rádio, Telmo Silva, do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Transformadores do Norte, disse que a notícia é uma “bomba”, porque implicará uma “redução drástica”. Além disso, trabalhadores de outsourcing e de prestação de serviços” poderão aumentar o número de dispensas para “600 ou 700 pessoas”.

Telmo Silva disse ainda que a decisão despoletará um “impacto económico e social, não só na refinaria, como em milhares de postos de trabalho na envolvência da refinaria”.

O representante sindical fala ainda do “desaparecimento de um dos maiores polos industriais do Norte do país, de uma forma muito apressada”. “Isto é a destruição da Petrogal”, defendeu.

A administração da GALP vai reunir-se esta manhã com Luísa Salgueiro, presidente da Câmara Municipal de Matosinhos.

Governo quer reunir com a Galp

O ECO adianta esta segunda-feira que o Governo quer reunir com a Galp na sequência da decisão da empresa em descontinuar a atividade em Matosinhos.

Segundo o jornal, que cita um comunicado do Ministério do Ambiente, o Governo está preocupado com o futuro dos trabalhadores da refinaria de Leça da Palmeira.

“O Ministério do Ambiente e da Ação Climática manifesta desde já a disponibilidade para, em nome do Governo, reunir com a Galp e com as estruturas representativas dos trabalhadores, exigindo da empresa todo o empenho e sensibilidade social para procurar soluções para o futuro próximo”, lê-se no comunicado do ministério liderado por João Pedro Matos Fernandes.

O Governo sublinha que “o encerramento das operações de refinação em Leça da Palmeira (Matosinhos), contudo, levanta preocupações, sobretudo no que respeita ao destino dos trabalhadores afetos àquela unidade industrial”.

O gabinete de Matos Fernandes recorda ainda que o Fundo para a Transição Justa mobiliza verbas destinadas precisamente a apoiar regiões da Europa onde existem empresas como a refinaria de Leça da Palmeira.

“No âmbito do Plano para a Transição Justa, o Governo decidiu, assim, propor a elegibilidade a estes apoios da região onde se encontra a refinaria de Leça da Palmeira. Com este Fundo, com uma verba estimada de 200 milhões de euros para Portugal, será possível proteger os trabalhadores afetados e financiar novos negócios que apoiarão a transição para uma economia neutra em carbono, como os associados à energia renovável, à eficiência energética e à economia circular”.

Segundo o ECO, uma das opções pode passar pela refinação de lítio, que vai arrancar nos próximos anos no norte do país.

Maria Campos Maria Campos, ZAP // Lusa

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9 COMENTÁRIOS

  1. Assim vai o nosso jornalismo. Para além de ter algumas imprecisões, o texto obriga, a quem o lê, que seja conhecedor de terminologias utilizadas no ramo. O jornalista que escreveu (?) o artigo pensou que todos sabem o significado de kbpd, por exemplo? Muito mal vai o jornalismo.

    • Caro leitor,
      obrigado pelo seu reparo, do qual discordamos.
      O jornalista não presumiu que os nossos leitores sabem todos os termos técnicos do assunto, citou termos contidos num comunicado da Galp.
      Muito mal vai o jornalismo, sim, quando os leitores acham que o pior que ele vai é por ter citado um termo técnico.

  2. Os terrenos onde se encontra instalada a Refinaria têm sido uma tentação constante e já antiga para os especuladores imobiliários, autarcas e até governantes!…Uma das maiores investidas contra a refinaria foi liderada por uma imobiliária, que pertencia ao grupo que atualmente é o maior acionista da “Galp”…
    Agora sentem a fragilidade do governo volta a atacar…
    A Refinaria da Galp do Norte, é muito versátil, e também uma alternativa à refinaria de Sines, que tem maior capacidade….
    Esta refinaria é fundamental para a atividade económica da região, porque não só produz combustíveis, mas também muitas outras matérias primas necessárias para as indústrias instaladas…
    Não tem uma grande capacidade de refinação, mas a suficiente para a região….
    Já várias vezes foi decidido o seu encerramento, e até foram iniciados os preparativos necessários, mas avarias em Sines ou oportunos contratos de exportação implicaram o abandono da ideia dessa desativação…

  3. A refinaria parece me bastante poluente, nota se pelo cheiro que se sente no ar. Falasse também de descargas no mar… O facto de estar ladeada de uma zona habitacional ainda mais grave é….

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