Filhotes de Chernobyl livres de radiação iniciam nova vida na América do Norte

Jorge Franganillo / Flickr

Cão em Chernobyl, Ucrânia

Cão em Chernobyl, Ucrânia

Pela primeira vez, um grupo de filhotes nascidos em Chernobyl, na Ucrânia, foi removido da zona de exclusão em torno da usina nuclear da cidade, cujo reator explodiu em 1986, causando um dos piores desastres nucleares da História.

Segundo relatou o BuzzFeed, alguns dos descendentes de cães que sobreviveram à catástrofe ambiental foram limpos da radiação e retirados de Chernobyl, sendo levados para os Estados Unidos (EUA) e para o Canadá, algo que era ilegal até 2018. Na cidade, é ainda proibido às pessoas permanecerem por mais de três semanas.

Quando as autoridades locais decidiram abrir uma exceção para filhotes, no ano passado, a organização Clean Futures Fund lançou um programa de adoção para encontrar novas casas para esses animais. Mais de 40 filhotes são elegíveis podem ser adotados e muitos já foram levados para os EUA, 14 dos quais para Nova Iorque.

Estes filhotes são os primeiros cães a deixar a área conhecida como zona de exclusão de Chernobyl, disse à CBS Sacramento Christine Anderson, que adotou um das cadelas resgatadas, em dezembro. Segundo contou, a cadela está “feliz e saudável”, apesar de manter alguns hábitos peculiares, que resultam, provavelmente, da tentativa de sobreviver num ambiente hostil.

“Ela gosta muito de se esconder e construir ninhos”, referiu Christine Anderson, acrescentando que a cadela pega em sapatos, roupas e qualquer outro objeto que encontre para criar pequenas barreiras em volta de si mesma. “Acho que isso a faz sentir-se segura”, acrescentou.

Embora algumas vozes se tenham pronunciado, alertando sobre os perigos de tocar nos cães de Chernobyl, o co-fundador da Clean Futures Fund (CFF), Lucas Hixson, afirmou que “é extremamente raro encontrar vestígios de radiação entre os animais”, estando os filhotes totalmente livres de radiação.

De acordo com o BuzzFeed, todos os cães são testados quanto à radiação, sendo coletadas amostras de sangue para análise. Na tentativa de reduzir a população de cães vadios, os animais mais velhos são esterilizados e castrados, enquanto os filhotes são tratados e levados para a cidade vizinha de Slavutych, de forma a receber treinamento.

Depois de tratados, os cães adultos são devolvidos ao local onde foram encontrados e os filhotes ficam em Slavutych, onde também vivem trabalhadores e voluntários.

Segundo Lucas Hixson, os cães da zona não vivem mais de seis anos – não por causa da radiação, mas por falta de comida e abrigo, especialmente no inverno. Ainda assim, alguns moradores adotam os animais errantes ou vão alimentando os filhotes.

Além do programa de adoção de filhotes, a CFF angaria fundos para esterilizar, neutralizar e vacinar os cães vadios de Chernobyl. A organização, que cria campanhas de ‘crowdfunding’ – numa das quais arrecadou 56 mil dólares (cerca de 49 mil euros) -, oferece igualmente assistência médica e outros serviços às pessoas afetadas pelo acidente.

Apesar do trabalho desenvolvido, Lucas Hixson contou que a organização recebe críticas constantes. Ao BuzzFeed, disse que a CFF já recebeu um e-mail onde eram acusada de receber dinheiro de George Soros, o bilionário húngaro que é alvo constante das teorias de conspiração de direita e anti-semita.

Para o co-fundador, isso faz parte do trabalho em Chernobyl – um local “cheio de história, emoção e equívocos”. Apesar dos frequentes comentários negativos, ele e o seu parceiro Erik Kambarian, que criaram a organização em 2016, continuam a trabalhar. “Sentimos que poderíamos fazer mais. Queremos um futuro melhor do que aquele em que vivemos”.

O acidente nuclear em Chernobyl causou 31 mortos, deixando centenas de pessoas doentes. Os primeiros socorristas morreram lentamente, com a pele a descascar, e as pessoas que viviam perto da usina desenvolveram cancro e problemas de saúde incuráveis.

De acordo com o artigo do BuzzFeed, as grávidas abortaram e os hospitais tornaram-se necrotérios, com “os ventos a espalharem a radiação através da União Soviética e depois para a Europa”.

Depois do incidente, soldados soviéticos evacuaram os moradores em autocarros, abandonando tudo, inclusive os animais. Os mesmos soldados acabaram por voltar, alvejando esses animais e enterrando-os em valas comuns, com receio que pudessem tentar seguir os seus donos e espalhar a radioatividade.

Muitos dos filhotes agora elegíveis para adoção descendem de cães que sobreviveram a esses massacres, a longos invernos e a animais selvagens. Outros entraram na zona de exclusão ou foram abandonados pelos donos.

  Taísa Pagno, ZAP //

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