FIFA: 24 anos de corrupção e 150 milhões em subornos

Marcello Casal Jr. / ABr

Presidente da FIFA, Joseph Sepp Blatter

Presidente da FIFA, Joseph Blatter

Uma investigação revelada esta quarta-feira pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos indiciou nove dirigentes ou ex-dirigentes e cinco parceiros da FIFA com acusações de conspiração e corrupção nos últimos 24 anos, num caso em que estarão em causa subornos no valor de 151 milhões de dólares (quase 140 milhões de euros).

Entre os acusados estão dois vice-presidentes da FIFA, o uruguaio Eugenio Figueredo e Jeffrey Webb, das Ilhas Caimão, que é também presidente da CONCACAF (Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caraíbas), assim como o paraguaio Nicolás Leoz, ex-presidente da Confederação da América do Sul (Conmebol).

Dos restantes dirigentes indiciados fazem parte o brasileiro José María Marín, membro do comité da FIFA para os Jogos Olímpicos Rio 2016, o costarriquenho Eduardo Li, Jack Warner, de Trinidad e Tobago, o nicaraguense Júlio Rocha, o venezuelano Rafael Esquivel e Costas Takkas, das Ilhas Caimão.

A FIFA suspendeu provisoriamente 11 pessoas de toda a atividade ligada ao futebol: os nove dirigentes ou ex-dirigentes indiciados e ainda Daryll Warner, filho de Jack Warner, e Chuck Blazer, antigo homem forte do futebol dos Estados Unidos, ex-membro do Comité Executivo da FIFA e alegado informador da procuradoria norte-americana, que já esteve suspenso por fraude.

A acusação surge depois de o Ministério da Justiça e a polícia da Suíça terem detido Webb, Li, Rocha, Takkas, Figueredo, Esquivel e Marin na quarta-feira, num hotel de Zurique, a dois dias das eleições para a presidência da FIFA, à qual concorrem o atual presidente, o suíço Joseph Blatter, e Ali bin Al-Hussein, da Jordânia.

Simultaneamente, as autoridades suíças abriram uma investigação à atribuição dos Mundiais de 2018 e 2022 à Rússia e ao Qatar.

Ministério Público da Suíça não prevê ouvir, para já, Blatter

O Ministério Público da Suíça informou esta quinta-feira que não está, neste momento, a planear ouvir o presidente da FIFA, Joseph Blatter, no âmbito de uma investigação que levou a detenção de dirigentes ou ex-dirigentes do organismo por corrupção.

“Neste momento, não há nenhum plano para interrogar o presidente da FIFA“, disse Andre Marty, porta-voz do Ministério Público suíço, à France Presse.

Contudo, o jornalista Andrew Jennings, que há anos investiga a corrupção na FIFA, escreveu no Twitter que entregou ao FBI “documentos cruciais que levaram às detenções de ontem. Vêm aí mais. Blatter é um alvo”.

Os senadores dos EUA Robert Menendez e John McCain pediram ao congresso da FIFA para reconsiderar o seu apoio ao presidente Joseph Blatter devido ao seu apoio ao Mundial de futebol de 2018 na Rússia.

“Há muito tempo que estou preocupado com a escolha da Rússia pela FIFA e as notícias de hoje apenas sublinham a necessidade de eleger um presidente que não somente apoie os valores da FIFA, mas que assegure que a FIFA não recompense países que não apoiam esses valores”, disse o senador Menendez, do estado de Nova Jérsia, numa nota enviada à agência Lusa.

Na carta enviada ao congresso do organismo máximo do futebol ao nível mundial, que é também assinada pelo ex-candidato presidencial John McCain, Menendez critica a escolha da Rússia, “apesar das constantes violações da integridade territorial da Ucrânia e as outras ameaças a arquitetura de segurança do pós II Guerra Mundial.”

Entretanto, o presidente russo, Vladimir Putin, criticou as detenções de dirigentes e ex-dirigentes da FIFA, considerando que se trata de uma manobra dos Estados Unidos para tirar o suíço Joseph Blatter da presidência do organismo.

“É uma clara tentativa de bloquear a reeleição de Blatter como presidente da FIFA e uma muito séria transgressão dos princípios de como funcionam as organizações internacionais”, disse o governante russo.

Putin acusou ainda os Estados Unidos de tentarem “impor a sua jurisdição em outros países”.

“Se calhar algum deles violou alguma lei, não sei, mas os Estados Unidos não tem nada a ver com isso. Estes dirigentes não são cidadãos norte-americanos. E se algo aconteceu, não aconteceu em território dos Estados Unidos”, concretizou.

Na opinião do presidente da Rússia, as eleições de sexta-feira devem manter-se e Blatter, que concorre a um quinto mandato, tem todas as possibilidades de ser reeleito.

“Também sabemos que lhe foram feitas pressões para proibir a realização do Mundial 2018 na Rússia“, acrescentou Vladimir Putin.

África do Sul nega subornos para ganhar corrida ao Mundial de 2010

O governo da África do Sul negou hoje qualquer irregularidade na candidatura do país ao Mundial2010 de futebol, como foi alegado por uma investigação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

“Quando concluímos o Mundial aqui na África do Sul tivemos uma auditoria limpa. Nunca houve qualquer sugestão de que alguma coisa ilegal aconteceu na África do Sul”, disse o ministro da Presidência do país, Jeff Radebe.

A investigação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos revelou que, alegadamente, o governo sul-africano prometeu 10 milhões de euros a Jack Warner, na altura vice-presidente da FIFA, e a outros altos dirigentes do organismo.

A Federação Sul-africana de Futebol (SAFA) também negou que as autoridades do país tenham feito subornos para conseguir que a organização do Mundial2010 fosse atribuída à África do Sul.

“Reafirmamos que levámos a cabo todo o processo com integridade. Vai demonstrar-se que as acusações são falsas”, disse o porta-voz da SAFA, Dominic Chimhavi, em declarações à EFE.

O porta-voz da SAFA garantiu também a integridade da candidatura ao Mundial2006, que a África do Sul perdeu para a Alemanha, acrescentando que foi o prestígio de personalidades como o ex-presidente Nelson Mandela e o bispo Desmond Tutu que ajudou a levar a prova para a África do Sul.

“Pôr sob suspeita pessoas com tanta integridade é muito dececionante”, disse Chimhavi.

A África do Sul impôs-se em 2004 a Marrocos por 14 votos a 10 na votação final para a eleição do país organizador do Mundial2010 e, de acordo com a investigação, os 10 milhões pagos a Warner e a outros dirigentes foi decisivo.

Ex-presidente da Associação de Futebol da Argentina cobrou 13 ME em subornos

A Justiça norte-americana assegura que Julio Grondona, falecido ex-presidente da Associação de Futebol Argentino (AFA), recebeu subornos no valor de 15 milhões de dólares (13 milhões de euros).

O relatório apresentado na quarta-feira pela Procuradora-Geral dos Estados Unidos, Loretta Lynch, sobre a sua investigação por corrupção à FIFA, afirma que “o presidente da Conmebol e os presidentes das federações do Brasil e Argentina” receberam subornos de 15 milhões de dólares.

Estes subornos foram pagos pela empresa Datisa – dos empresários argentinos Alejandro Burzaco e Hugo e Mariano Jinkis – em troca de um contrato para realizar a Copa América 2015 (Chile), a Copa América do Centenário 2016 (Estados Unidos) e mais duas edições desta competição, em 2019 e 2023.

Segundo o relatório norte-americano, os subornos alcançaram, em conjunto, os 100 milhões de dólares (cerca de 91 milhões de euros).

Os Estados Unidos pediram na quarta-feira a detenção, com fins de extradição, destes três empresários argentinos.

FBI pede informações a Federação Australiana sobre roubo de fundos

A Federação de Futebol Australiana (FFA) foi instada a informar o FBI norte-americano sobre o alegado roubo de 462.000 dólares (422.300 euros) dos fundos do organismo por parte do ex-dirigente da FIFA Jack Warner.

A petição foi realizada pelo senador independente Nick Xenophon e pela ex-dirigente da FFA Bonita Mersiades, que também pediram a demissão do presidente da FIFA, o suíço Joseph Blatter, após a detenção de sete dirigentes da instituição por corrupção.

Jack Warner, ex-vice-presidente da FIFA, entregou-se na quarta-feira às autoridades de Trinidad e Tobago após ter sido acusado pelos Estados Unidos, juntamente com outros 13 dirigentes ou ex-dirigentes da instituição desportiva de cobrar subornos que atingiriam os 150 milhões de dólares (137 milhões de euros).

O dinheiro australiano alegadamente roubado por Jack Warner não está incluído na acusação das autoridades norte-americanas, mas foi calculado por estas nas investigações.

Segundo o diário Sydney Morning Herald, Jack Warner pediu dinheiro para as obras de remodelação de um estádio Trinidad e Tobago em 2010, ano em que a FIFA procurava o apoio do dirigente daquele país para a sua campanha para ser a sede do mundial.

ZAP / Lusa

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