Falha geológica ameaça provocar grande terramoto e tsunami nos EUA

sworldguy / Flickr

Seattle está entre as grandes cidades norte-americanas que podem ser afetadas por um terremoto gerado na falha de Cascadia

Seattle está entre as grandes cidades norte-americanas que podem ser afetadas por um terremoto gerado na falha de Cascadia

A falha geológica de San Andreas, que corta de norte a sul o Estado americano da Califórnia, é uma das mais estudadas do planeta e também a mais temida dos Estados Unidos. Mas não é a mais preocupante falha geológica da região.

O que muitas pessoas não sabem é que, pouco mais a norte, em frente à costa noroeste do país, existe outra falha geológica que, segundo os cientistas, num futuro próximo, poderá provocar um terramoto maior do que o que teve origem na falha de San Andreas em 1906 e devastou a cidade de San Francisco.

É a falha submarina de Cascadia que, com mais de 1.100 quilómetros, vai desde a província canadense da Columbia Britânica até o norte da Califórnia.

A Cascadia está na zona de subducção da placa de Juan de Fuca e a placa da América do Norte e, até metade da década de 1980, os cientistas não tinham total consciência do perigo que representava.

Esta falha submarina é capaz de provocar tremores de magnitude acima dos 9 graus, acompanhados de tsunamis semelhantes ao que arrasou a costa norte do Japão em 2011.

O desconhecimento sobre o perigo que representa a falha de Cascadia foi demonstrado há poucos dias, depois da publicação de um artigo sobre o tema na revista The New Yorker.

No artigo, vários investigadores informavam que, nas próximas décadas, esperam que a rutura da falha de Cascadia provoque nos Estados de Washington e Oregon o que poderá ser a maior catástrofe natural da história dos Estados Unidos.

O terramoto de 1700

O pouco que se sabe desta falha é que a última vez que deu origem a um grande terramoto foi no ano de 1700, quando a costa noroeste dos Estados Unidos era habitada por tribos indígenas que não deixaram registos deste evento. Este terramoto causou um tsunami que chegou à costa do Japão.

Agora, graças aos estudos dos sedimentos costeiros, os cientistas determinaram que a falha de Cascadia já causou mais de 40 tremores de terra nos últimos dez mil anos, provocando terramotos superiores aos nove graus com um intervalo de cerca de 500 anos, apesar de também poder causar terramotos com intervalos de apenas 200 anos.

O último tremor causado por esta falha geológica ocorreu há mais de 300 anos e calcula-se que tenha tido uma magnitude entre 8,7 e 9,2 graus. Os especialistas alertam que o noroeste dos Estados Unidos não está preparado para uma catástrofe deste tipo.

Arg / Wikimedia

A falha submarina de Cascadia, ao largo de Seattle

A falha submarina de Cascadia, ao largo de Seattle

Segundo os cálculos da Agência Federal para a Gestão de Emergências dos Estados Unidos (FEMA, na sigla em inglês) se houver uma rutura total da falha, o terramoto e o tsunami subsequente poderão provocar a morte de mais de 13 mil pessoas, afetando gravemente cidades como Seattle, Olimpia, Portland e Salem.

Além das mortes, mais de um milhão de pessoas deverão abandonar suas casas e as infraestruturas básicas serão muito afetadas, tais como pontes e estradas. O fornecimento de energia elétrica e de água será interrompido durante semanas ou até meses em algumas áreas.

Os cientistas afirmam que a maior parte da destruição será provocada pelo tsunami, que alcançará a costa em apenas 20 minutos, afetando uma área em que vivem mais de 70 mil pessoas – uma área onde não existem abrigos verticais para proteger a população das ondas que, segundo os especialistas, devem chegar a vários metros de altura.

Outro fator preocupante para os especialistas é que a maior parte dos edifícios da região, com uma população de cerca de sete milhões de pessoas, não foram construídos aguentar um tremor como o que pode ser provocado pela falha Cascadia, e isto inclui muitos prédios onde estão hospitais, escolas, esquadras da polícia e bombeiros.

Problemas de infraestrutura

“Surpreende-me a atenção que recebeu o artigo do The New Yorker, já que a informação que traz não é nova. A jornalista fez um bom trabalho ao resumir o que pode acontecer na costa noroeste do país, apesar do tom um pouco alarmista”, disse à BBC William Steele, porta-voz da Rede Sísmica do Noroeste do Pacífico, com sede em Seattle.

“A população sabe que vivemos numa zona de terramotos, mas não acredito que estejam preparados para um tremor como o que pode ser provocado pela falha de Cascadia, do tipo de que não se tem memória recente.”

Steele garante que “nas áreas costeiras suscetíveis a serem inundadas por um tsunami, é preciso construir mais áreas de evacuação verticais” para abrigar aqueles não tenham tempo de fugir.

Além disso, o especialista acredita que é preciso colocar mais dinheiro à disposição das comunidades locais para que se preparem, pois afirma que “não faz sentido que o dinheiro chegue depois de o terramoto e o tsunami já terem acontecido“.

“É preciso começar a pensar como combinar estes recursos estatais e federais para preparar as comunidades que serão atingidas.”

“Outro tema que considero importante é que as infraestruturas essenciais, como escolas e hospitais, seja construída fora das zonas inundáveis”, disse Steele, lembrando que o Estado de Oregon aprovou a construção de instalações deste tipo em áreas que prevê que sejam atingidas por um tsunami.

Simulação e treino

Timothy Walsh, especialista do Serviço Geológico do Estado de Washington, afirma que o cálculo dos intervalos entre os terramotos causados pelas falhas geológicas não é uma ciência exata, e que o terramoto de Cascadia “poderia ocorrer ainda hoje ou só daqui a vários séculos”.

Em entrevista à BBC, Walsh explica que as tribos que vivem na costa de Washington têm na sua tradição oral histórias sobre este tipo de eventos. O especialista afirma que as autoridades locais estão cada vez mais conscientes do perigo que a região enfrenta.

É assim que, em 2016, os governos da região vão organizar uma grande simulação de terramoto e tsunami que vai envolver os serviços de emergência de Washington, Oregon e da Columbia Britânica.

Além disso, Walsh garante que, quando a terra voltar a tremer no noroeste dos Estados Unidos, já estará em funcionamento um sistema de alerta semelhante ao que existe no Japão há anos mas que, hoje, ainda está em fase de testes.

// BBC

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2 COMENTÁRIOS

  1. Olá, acho muito bem que continuem a treinar, embora a realidade seja vista de outra maneira, se não fossem os treinos, como poderiam dezenas de bombeiros e forças humanitárias socorrerem os outros?, um atleta tem treinos, um jogador o mesmo, no entanto nenhum deles sabe o que vai enfrentar, este caso assemelha-se ao mesmo, estarem preparados e conscientes de que um dia a nação precisará deles é um incentivo de louvar e quantos mais melhor embora saibamos que nestas situações vai morrer muita gente, demos graças por estarmos num cantinho e a desgraça ainda não nos ter batido à porta, eu estou com eles.

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