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Os EUA estão a enfrentar uma enorme onda de demissões. A solução? Recorrer ao trabalho infantil

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Stephanie Lecocq / EPA

Para colmatar a falta de trabalhadores, várias empresas querem contratar adolescentes. Alguns estados estão a flexibilizar as leis laborais, o que têm suscitado críticas.

Já há vários meses que se falam em demissões em massa e falta de trabalhadores nos Estados Unidos. Para colmatar este problema, as empresas norte-americanas estão a recorrer à contratação de adolescentes.

O caso do restaurante da cadeia McDonald’s no Oregon que começou a apelar a que jovens de 14 e 15 anos se candidatem-se postos de trabalho esteve nas notícias, mas está longe de ser o único. Vários restaurantes na Pensilvânia, um Burger King no Ohio ou um Pumpkin Patch no Missouri também já se mostraram abertos a acomodar adolescentes e um no Arkansas até afirmou que pagaria uma hora de trabalho para os jovens fazerem os trabalhos de casa antes do seu turno.

Nos EUA, a contratação de adolescentes já era uma práctica comum para empregos sazonais em parques de diversões ou restaurantes, mas a tendência tem subido imenso durante a pandemia. A taxa de emprego de adolescente chegou aos 32% no Verão de 2021, o nível mais alto desde 2008 e, pela primeira vez na história, a taxa de desemprego de jovens entre 16 e 19 anos era mais baixa do que a dos jovens entre 20 e 24 anos.

Agora, até o poder político está a flexibilizar as leis laborais infantis em vários estados para legalizar estas prácticas, especialmente do lado Republicano. O Senado do estado do Wisconsin, dominado pelos Republicanos, aprovou recentemente uma lei que aumenta as horas de trabalho que menores de 16 anos podem fazer.

Até agora, o estado segue a mesma lei que estava estipulada a nível federal, que permitia que jovens com 14 e 15 anos só podiam trabalhar entre as 7h e 21h entre os dias 1 de Junho e a primeira segunda-feira de Setembro, quando se assinala um feriado do Dia do Trabalho.

Com a nova lei, que tem ainda de ser aprovada pela assembleia estadual, os jovens poderiam trabalhar das 6h até às 21h30 nas vésperas de dias em que têm aulas e das 6h até às 23h nas vésperas de dias em que não têm de ir à escola. A Associação de Restaurantes do Wisconsin e outros grupos que apoiam a lei argumentam que a mudança na legislação pode ajudar pequenos negócios que estão a sofre com a falta de trabalhadores.

A verdade é que no caso do Wisconsin esta lei já tinha sido introduzida em Abril, ainda antes da falta de mão-de-obra se fazer sentir. Nos últimos anos, a liderança Republicana estadual também tem progressivamente aprovado leis que reduzem os limites impostos nos casos de trabalho infantil — chegando até em 2017 a trocar todas as referências a “trabalho infantil” nos estatutos do trabalho com o termo mais eufemístico “emprego de menores“.

Em 2011, o estado também já tinha eliminado os limites de horas e dias que menores com 16 e 17 anos pudessem trabalhar e os vistos de trabalho para estes mesmos jovens.

Para Stephanie Bloomingdale, presidente da filiação do Wisconsin da Federação Americana do Trabalho e Congresso de Organizações Industriais (AFL-CIO), a aprovação da nova lei pode acabar por levar a que aos poucos se “eliminem as protecções ao trabalho infantil no Wisconsin e nos Estados Unidos no geral”.

“Os jovens adolescentes têm de ter boas experiências laborais que os ajudem a aprender a ética de trabalho e capacidades importantes, mas ao mesmo tempo, reconhecendo que eles também são crianças que precisam de tempo para estudar, dormir e preparar as suas mentes para o seu futuro”, contrapõe.

Já no Senado do Ohio, três Republicanos e um Democrata introduziram recentemente uma lei semelhante para a expansão dos horários que os menores de 16 anos podem trabalhar durante o ano lectivo, desde que tenham a autorização dos pais ou responsáveis legais. O limite passaria das 19h para as 21h.

A tendência de recurso ao trabalho de adolescentes está a crescer entre as gigantes corporações norte-americanas. Uma cadeira franchisada da gigante de fast-food Wendy’s que detém 76 restaurantes já revelou que empregou 500 jovens com 14 e 15 anos desde o Verão.

Um sinal de um restaurante do Burger King também se tornou viral no Twitter por apelar aos pais que os contactem no caso dos filhos menores precisarem de trabalho.

Depois do recurso ao trabalho de prisioneiros ainda presos e de outros recém-libertados, as mudanças nas leis do trabalho infantil estão também a ser criticadas por mostrarem o quão longe os patrões e políticos estão dispostos a ir para evitar aumentar os salários para atrair trabalhadores, assim como garantir as condições de segurança durante a pandemia. O fim antecipado dos subsídios de desemprego também não levou a um regresso em massa dos americanos ao trabalho.

Há também muitas preocupações sobre o impacto que conciliar o trabalho com os estudos pode ter, depois de estudos já terem mostrado o impacto negativo que o emprego tem no desempenho escolar dos jovens.

“O que estas leis fazem, acho, é encorajarem jovens adolescentes a entrarem na força de trabalho”, explica a psicóloga Kathryn C. Monahan, que já estudou os efeitos do trabalho nos adolescentes, ao The Guardian, apontando a falta de investigações científicas sobre como o trabalho afecta adolescentes tão jovens como 14 anos e alertando as possíveis consequências que um salário numa idade tão jovem pode ter a nível do abandono escolar e o consumo de substâncias.

Os horários para dormir também são uma preocupação a ter em conta. “Posso imaginar o jovem a chegar a casa mais tarde numa noite véspera de escola, numa altura que costuma usar para fazer trabalhos de casa, conviver com amigos, e por isso vamos ter um adiamento ainda maior em termos do sono, enquanto que a escola vai ficar constante relativamente aos horários”, remata.

  Adriana Peixoto, ZAP //

5 Comments

  1. Passaram completamente ao lado do mais importante: porque há muitas demissões? Desde restauração, pessoal hospitalar, das companhias aéreas, polícias, bombeiros, e demais trabalhadores. Eu explico, pois parece que o assunto é tabu: por causa da tentativa a nível federal e de alguns Estados, anti-constitucional e ditatorial (diga-se de passagem), de forçar e coagir as pessoas a “vacinar-se”. Dezenas de milhares de enfermeiros e médicos simplesmente demitiram-se, pois estão fartos de ver entradas no hospital resultado da “cura milagrosa”, que já se percebeu que não o é. É só mais uma dose, e depois mais outra, e outra, e outra. Sapo na panela. O B-A-B do jornalismos é “onde”, “quando”, “como”, … e falta aqui o “porquê”. E porquê?

  2. Na verdade a principal causa dessas demissões em massa nos EUA tem a ver com o facto de os patrões/empresas sobretudo de fast-food se recusarem a dar sequer os salários mínimos e manterem os funcionários a trabalhar num regime de quase escravatura, com horários excessivos sem compensação, sem direito a faltas, dias de baixa por doença ou férias e com salários abaixo do mínimo que não chegam para viver, e sujeitos a despedimento até por terem um acidente e estarem no hospital (com valores astronómicos que têm de pagar deixando as famílias com grandes dívidas, e sem direito a subsídio de baixa). É uma forma de protesto para tentarem obter uma lei que lhes garanta um mínimo de direitos e salário mínimo obrigatório tal como existe na Europa e em tantos outros países.

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