EasyJet em guerra aberta com a desigualdade de género

A companhia aérea está a recrutar através de um programa de identificação de talento que promete suprir o défice de mulheres a trabalhar na empresa, na área da engenharia aeronáutica.

José Lopes, diretor da easyJet em Portugal, traça um cenário de desigualdade de géneros numa indústria onde não faltam apenas mulheres a pilotar aviões, mas também engenheiras aeronáuticas nas bases. “O número total de mulheres, em todo o mundo, qualificadas para pilotar um avião, não chega para encher um Airbus 360”.

Dos 230 engenheiros que integram a equipa da transportadora aérea low cost (de baixo custo) britânica, só 5% são mulheres. Um desequilíbrio na representação de géneros que a empresa quer resolver a curto prazo.

Depois de ter criado um programa de recrutamento para mulheres-piloto, a easyJet tem agora em marcha o Programa de Aprendizes de Engenharia Aeronáutica, que visa atrair para a empresa mais engenheiras da especialidade. Há 14 vagas na primeira edição deste programa de formação, sete serão obrigatoriamente preenchidas por mulheres.

O objetivo é que o número de recrutamentos aumente em edições futuras, ainda que o líder reconheça a dificuldade em atrair mulheres para as carreiras do sector.

Com sede em Luton, no Reino Unido, onde decorrerá a formação, a transportadora aérea procura talentos a nível global. O programa tem candidaturas abertas até 15 de setembro, na plataforma de carreiras da easyJet online.

“O objetivo é que metade das contratações que a empresa venha a realizar no futuro sejam sempre mulheres”, explica José Lopes enfatizando a urgência de se “mudarem mentalidades em relação às carreiras na engenharia”.

O programa terá duração de 26 meses. Dez meses serão de formação teórico-prática na base de Cotswold e 16 serão de componente puramente prática nos aeroportos de Luton e Gatwick. “Os que consigam cumprir com sucesso os 26 meses de formação do programa, têm integração garantida na empresa“, explica o diretor.

Em Portugal, a easyJet integra 350 profissionais. Na sua estrutura global são também vários os portugueses, “alguns até em posição de destaque em estruturas internacionais”, explica. Razão pela qual, José Lopes acredita que Portugal, pela qualidade da formação dos seus engenheiros, pode ser um importante fornecedor de recursos humanos para uma empresa que valoriza a diversidade.

Contudo, reconhece que é fundamental inspirar as mulheres a seguirem carreiras na indústria aeronáutica, uma área onde estão pouco representadas e que segundo o responsável “é muito recompensadora” .

E é exatamente aí que para Palmira Ferreira da Silva, vice-presidente do Instituto Superior Técnico (IST) reside o problema. Em Portugal há apenas dois cursos de engenharia aeronáutica e aeroespacial.

“No IST temos neste curso 90 alunos por ano e só 20% são mulheres”, explica acrescentando que os licenciados nesta áreas “têm claras aspirações a trabalhar para a NASA, para a Agência Espacial Europeia (ESA) ou em startups do sector, muitas vezes resultado de projetos próprios desenvolvidos em âmbito académico. São profissionais rapidamente absorvidos pelo mercado”, explica.

Antes de lançar o programa de captação de engenheiras aeronáuticas, a easyJet tinha já promovido uma iniciativa semelhante para atrair mulheres para a aviação comercial que conta apenas com 3% de mulheres. Como resultado deste programa a easyJet, que tem abertas 500 vagas para pilotos, quer que 20% dos candidatos recrutados sejam mulheres.

A OCDE, num estudo recente, estima que alcançar a paridade de géneros no mercado de trabalho permita incrementar o PIB dos países desenvolvidos em 12%, num horizonte de 20 anos. Mas há áreas onde esta paridade não é fácil de alcançar, por pura escassez de recursos humanos.

A engenharia aeronáutica é um desses casos e insere-se num desafio ainda maior, o de atrair as mulheres para carreiras na área da engenharia em si.

Embora algumas especialidades sejam já uma exceção aos números, a maioria dos cursos das designadas áreas STEM (Ciências, Tecnologias, Engenharias e Matemática) continua sem conseguir atrair mulheres. O impacto desta fraca atratividade é visível no mercado de trabalho.

Um inquérito realizado pela consultora de recrutamento Hays às intenções de contratação das empresas, revela que em Portugal, a Engenharia figura entre o leque de áreas onde o desequilíbrio entre homens e mulheres é maior, com apenas 19% dos profissionais a serem mulheres.

Portugal nem é dos piores casos. “No Reino Unido, só 9% dos profissionais de engenharia são mulheres”, explica o diretor da easyJet acrescentando que esta carência de profissionais que levou a empresa a criar o projeto Amy Johnson – em homenagem à primeira mulher engenheira do Reino Unido e pioneira na indústria da aviação – e com ele o Programa de Aprendizes de Engenharia Aeronáutica.

ZAP //

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2 COMENTÁRIOS

  1. Mais lunaticidade identitária, desta feita em nome da “diversidade”

    E porque não suprir também o deficit de homens nas funções de comissário de bordo?

  2. Da mesma forma que em cursos de secretariado, 80% são mulheres. Como atrair homens para esses cursos?
    Enfim, querem igualdade de género, mas não tem nada a ver com género mas sim vocação.

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