Divulgação de gravação com ministro foi gota de água. Governo quer afastar Casimiro da Groundforce

Nuno Fox / Lusa

O Governo quer evitar, a todo o custo, a nacionalização da Groundforce e está a contar com o Montepio para afastar o empresário Alfredo Casimiro da empresa. A gravação de uma conversa privada entre este e o ministro Pedro Nuno Santos foi a gota de água nas negociações.

“Reencaminhada demasiadas vezes”. Era este o alerta que surgia ao lado da gravação da conversa privada entre Pedro Nuno Santos e Alfredo Casimiro que foi divulgada pelo WhatsApp.

Uma fonte oficial do gabinete do ministro das Infraestruturas aponta que “é claro que a gravação foi feita do lado do empresário, sendo possível ouvir a sua voz com clareza”, enquanto as palavras de Pedro Nuno Santos “são ouvidas através de videoconferência”, como reporta o Jornal Económico (JE).



O ministro já avançou com uma queixa-crime.

Numa altura em que os trabalhadores da empresa que presta assistência ao transporte aéreo nos aeroportos portugueses estão com salários em atraso, o Governo procura uma solução para o futuro da empresa.

Alfredo Casimiro detém 50,1% da Groundforce através da Pasogal. O grupo TAP detém 49,9%, sendo que a companhia de aviação é propriedade do Estado português em 72%.

O que se disse na conversa gravada

A conversa entre Casimiro e Pedro Nuno Santos, que foi gravada no passado dia 3 de Março, segundo o JE, centrou-se precisamente na busca de uma solução para a situação.

Apenas a parte final do diálogo terá sido registada, como reporta o Económico que teve acesso à gravação. A dada altura, Casimiro pergunta ao ministro se “o accionista privado da TAP está a colocar dinheiro na mesma proporção que o Estado está a colocar dinheiro na TAP?”

Uma referência do empresário aos 1,2 mil milhões de euros de fundos públicos que foram injectados na companhia de aviação.

Na resposta, conforme é citado pelo JE, Pedro Nuno Santos atesta que o Governo está “a negociar com Bruxelas, no quadro da reestruturação da TAP, o que vai exigir a conversão de parte, senão da totalidade, em capital”.

“O que vai acontecer com a participação de Humberto Pedrosa é que vai evaporar, vai-se transformar em pó, não sei se chega a 1% [actualmente detém 27,5%]. Eles não vão acompanhar, vai-se diluir até uma participação residual. Só ainda não aconteceu agora, porque ainda não sabemos quanto a Comissão Europeia vai exigir que seja convertido em capital”, revela ainda o ministro.

Casimiro lamenta, então, que não se tenha “chegado a uma conclusão” e que não tenha nada para apresentar aos trabalhadores na reunião agendada para o dia seguinte.

Não vejo mais solução nenhuma. Tentei encontrar aqui as soluções possíveis e imaginárias para eu também ter algumas garantias […] e nada foi conseguido”, desabafa ainda Casimiro, concluindo que há “um problema sério para resolver”.

Salvação pode vir do Montepio

Após a divulgação da gravação, Pedro Nuno Santos disse em conferência de imprensa que a TAP não podia avançar com verbas para ajudar a Groundforce, alegando que Casimiro não pretendia entregar como garantia as suas acções da empresa.

“Não podemos expor a TAP sem garantias”, vincou o ministro no passado dia 4 de Março.

Mas já nesta semana, fonte do ministério avançou ao JE que “não foi possível chegar a acordo porque Alfredo Casimiro disse que não tem as acções para dar como penhor“. As acções terão sido dadas como garantias noutros empréstimos bancários.

A SIC Notícias revelou que parte das acções terão sido entregues ao Novo Banco como garantia no âmbito de dívidas da ordem dos 44,2 milhões de euros do grupo Urbanos, uma empresa detida por Alfredo Casimiro que está em Processo Especial de Revitalização.

O Expresso noticiou também que algumas acções terão sido dadas como penhor ao Montepio.

Entretanto, o Correio da Manhã (CM) avança que a “salvação da Groundforce está nas mãos do Montepio”. O jornal nota que o Governo e a TAP estão à espera da “execução da penhora das acções para afastar Alfredo Casimiro e procurar um investidor“.

Para que isto aconteça, é preciso que o empresário entre em incumprimento no âmbito do empréstimo que tem no Montepio. Nesse caso, o Banco assumiria a posição temporária de accionista da Groundforce enquanto o Governo não encontra um investidor privado que fique com ela.

Certo é que o Governo quer evitar a todo o custo a nacionalização, pois Bruxelas não deve aprovar esse processo.

Os trabalhadores da Groundforce têm pedido a nacionalização da empresa e também a líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, defendeu esse cenário.

À espera de um empréstimo de 30 milhões de euros

Outra alternativa possível para o futuro da empresa passa pela insolvência e pela abertura de uma nova empresa de assistência ao transporte aéreo, mas também aqui será necessário encontrar um investidor privado, como atesta o CM.

Já o JE nota que o impasse “poderá ser resolvido pela venda da totalidade da empresa a um ‘player’ do sector ou um ‘management buyout’ da participação do accionista privado”.

Enquanto não se acha uma solução viável, a empresa espera pela aprovação de um empréstimo de 30 milhões de euros no Banco de Fomento, como revela o CEO da empresa, Paulo Neto Leite, ao Económico.

Paulo Neto Leite já tinha revelado ao jornal Eco que tinha mantido reuniões com a Caixa Geral de Depósitos e com o Banco de Fomento para conseguir crédito. O CEO também disse que não podia garantir que os salários de Março serão pagos.

Além dos ordenados dos trabalhadores, estão também em causa os pagamentos de impostos e aos fornecedores.

Susana Valente Susana Valente, ZAP //

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