Um debate, cinco candidatos e uma disputa renhida pelo campeonato da manipulação

Miguel A. Lopes

O último debate televisivo antes das eleições europeias, que se realizam no próximo domingo, foi marcado pela mais recente sondagem que dá uma vitória expressiva aos socialistas com 33% das intenções dos votos. Pedro Rangel (PSD) e Pedro Marques (PS) aproveitaram ainda para trocar acusações sobre informações falsas, tendo como mote fact checks do Polígrafo.

O debate de quase duas horas, moderado por Maria Flor Pedroso e transmitido na RTP em direto a partir do Teatro Thalia, em Lisboa, opôs os candidatos de cinco partidos com representação no Parlamento Europeu: Pedro Marques (PS), Paulo Rangel (PSD), João Ferreira (PCP) e Marisa Matias (BE).

A sondagem do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica Portuguesa – CESOP/UCP para o Público e a RTP foi um dos temas abordados antes do intervalo. A candidata bloquista, Marisa Matias, disse não desvalorizar os resultados, mas observou que os números finais serão os de domingo.

“Os votos são mesmo das pessoas. Fizemos o nosso trabalho e o resto cabe às pessoas”, afirmou, dizendo ainda que gostava de ver a representação do seu partido a aumentar. De acordo com a sondagem, o Bloco assume-se como a terceira força política com 9% do votos, elegendo dois eurodeputados.

Nuno Melo, cabeça de lista centrista, disse que o “CDS é a prova viva de que as sondagens se enganam (…) É evidente que é melhor ter boas sondagens do que más”, sustentou, afirmando que o CDS é “o único voto possível para quem é de direita em Portugal”.

Por sua vez, João Ferreira (CDU) – que de acordo com a sondagem terá 8% dos votos, tal como o CDS – disse estar confiante na campanha realizada. “Não somos espetadores, somos construtores de uma realidade que se constrói a partir do dia 26″, afirmou, dando conta que o importante é eleger os 21 deputados. “Há cinco anos tivemos três deputados e nenhuma sondagem nos dava, por esta altura, três deputados”, recordou.

Instado a comentar os resultados da pesquisa da opinião, Pedro Marques pouco ou nada mencionou sobre as intenções de voto, preferindo antes trocar acusações com Paulo Rangel sobre o Polígrafo, acusando-o de ser “recordista das manipulações”, referindo-se ao caso dos perfis falsos nas redes sociais que envolveu um consultor do PSD que entretanto se demitiu e foi mencionado num dos programas do Polígrafo transmitidos na SIC.

O socialista lamentou que Rangel tenha trazido o assunto para o debate e criticou ainda que o social-democrata tenha mencionado a existência de um “voto fútil”, referindo-se a uma afirmação do eurodeputado na qual disse ser fútil um voto fora do PSD.

Rangel garantiu que sente “uma confiança grande no terreno” e disse esperar um resultado “claramente bastante acima” da sondagem hoje divulgada. A postura do PSD foi de sempre “relativizar as sondagens (…) quer quando são boas, quer quando não são”.

Comentada a sondagem, Rangel atirou-se ao candidato socialista: “Pedro Marques é o campeão da manipulação das notícias”, frisou. Pouco antes, Rangel tinha já dito que “há um problema de credibilidade” no discurso de Pedro Marques e acusou o candidato do PS de ter sido “desmentido seis vezes pelo Polígrafo nas últimas semanas”.

“Há um Portugal antes e depois da União Europeia”

Ainda na primeira parte do debate, os candidatos foram questionados sobre os 30 anos de União Europeia, sendo convidados a apontar aspetos positivos e negativos da integração.

“Há um Portugal antes e depois da União Europeia”, disse Paulo Rangel, depois de considerar que “a experiência europeia é uma experiência positiva”, dando como exemplo a questão das acessibilidades. No que toca aos aspetos negativos, o social-democrata lamentou as perdas que ainda não foram recuperadas no sector do mar e das pescas e apontou algumas falhas à moeda única.

João Ferreira estava inclinado a fazer um balanço negativo sobre a integração de Portugal na União Europeia, mas acabou por mencionar a livre circulação de pessoas como um aspeto benéfico. Aspeto este que foi tirado a ferros pela moderadora Maria Flor Pedroso. Quanto aos aspetos negativos, a lista foi mais longa: o negativo da União Europeia foi “fundamentalmente o impacto que a integração teve nos setores produtivos nacionais”, causando uma “dependência económica” e “subordinação política”.

O candidato centrista apontou o mesmo argumento de João Ferreira, acrescentando os bens e o capital. No entender de Nuno Melo, os pontos negativos estão relacionados com os “os extremismos que ascendem”  na Europa e o “terrorismo”, por exemplo.

Pedro Marques apresentou uma vasta lista de benefícios, incluindo direitos da mulheres, acessibilidades. Nos aspetos negativos, mencionou a forma como a União Europeia regia à crise, sobretudo no sul da Europa.  “Acentuou as desigualdades dentro dos próprios países”, disse, acrescentado que Portugal precisa de “retomar o processo de convergência.

Marisa Matias apontou o fator ambiental como grande benefício da UE. Em sentido oposto, o facto deste organismo estar ao dispor das “elites financeiras” e o facto de o euro ter criado desigualdades entre os países são os aspetos negativos de maior relevo. Além disso, apontou a tragédia dos refugiados que está ainda sem uma resposta condigna.

Apelo aos jovens votantes

Por fim, os candidatos foram instados a apresentar um único argumento para convencer os jovens votantes. As eleições europeias, recorde-se, tem aumentado de eleição. Em 2014, a abstenção escalou para um recorde de 66,2%.

“Creio que os jovens sabem perfeitamente quem é que esteve a defender aquela que foi agenda deles e que foi recusada pelas maiorias: seja nas alterações climáticas, seja na censura digital. O Bloco foi o único partido que esteve sempre ao lado dos jovens”, apelou Marisa Matias.

Nuno Melo voltou a insistir que o CDS é a única alternativa para quem é de direita em Portugal. “Nós somos o lado direito da moderação, e assumimos essa circunstância. Há muito eleitorado que se sente dessa direita e não tem votos (…) PSD é hoje um partido de centro, e Rui Rio é um líder que se assume de centro-esquerda (…) E podem ter a certeza que nenhum voto no CDS servirá alguma vez para validar um governo de António Costa”.

Também Rangel recorreu ao argumento António Costa para cativar o eleitorado jovem. O PSD” é o único partido em condições de vencer o PS, vencer António Costa”, pois é “um voto verdadeiramente útil” que pode “mudar a política em Portugal”, defendeu.

Do lado dos socialistas, Pedro Marques apelou ao voto provocando o PSD, dizendo que o seu grupo político “não cala a voz dos jovens”, aludindo ao caso da ativista sueca Greta Thunberg de 15 anos, que tem defendido políticas para o clima.

O candidato da CDU convidou os jovens a fazerem “algo que fazem todos os dias”: a irem à Internet consultarem o trabalho de todos os eurodeputados no site do Parlamento Europeu. “Está lá tudo”, afirmou João Ferreira.

As eleições europeias decorrem de 23 a 26 de maio. Portugal vai às urnas no próximo domingo (26), elegendo 21 deputados ao Parlamento Europeu.

ZAP //

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