Separados pelo fosso. Do “vale tudo” de António Costa às “aventuras” de Assunção Cristas

Rodrigo Antunes, José Sena Goulão / Lusa

António Costa (PS) vs Assunção Cristas (CDS)

Apesar de ter sido menos tenso do que muitos debates no Parlamento, o frente-a-frente entre António Costa e Assunção Cristas foi o mais crispado desta pré-campanha. O líder do PS diz que as reduções de impostos propostas pelos centristas são um “perigo”, enquanto que a líder do CDS alerta para o risco de um país com dois terços de deputados à esquerda.

Esta sexta-feira, António Costa e Assunção Cristas sentaram-se frente-a-frente, nas cadeiras do estúdio da TVI, para evidenciar o “enorme fosso” que separa ambos os líderes e partidos.

Jogando ao ataque desde o primeiro até ao último minuto de debate, a líder do CDS afastou qualquer hipótese de entendimento com o PS, um partido que “podia ter apoiado as forças políticas que saíram vencedoras das últimas eleições e optou por aliar-se à esquerda, deixando o país entre parênteses durante quatro anos“.

Costa acompanhou Cristas neste regresso ao passado, respondendo que, em 2015, Portugal precisava de “uma alternativa para virar a página da austeridade, devolver rendimentos e conseguir o défice mais baixo da democracia”. Logo de seguida, de arma em punho, o atual primeiro-ministro vincou o “enorme fosso” que os separa e apontou como exemplo três propostas do programa centrista.

A possibilidade de “comprar vagas” nos cursos superiores para alunos que ficam abaixo da média de entrada; a colocação do direito à propriedade no centro da política de habitação e a recuperação do quociente familiar que permite que “uma criança de uma família rica deduza mais” no IRS foram os trunfos de António Costa.

E a investida do socialista funcionou. Crispada, Assunção Cristas devolveu a jogada, criticando a forma como o PS “prometeu virar a página da austeridade e criou uma carga fiscal nunca vista em Portugal”, em que a devolução de rendimentos no IRS terá sido muito mais do que compensada para os cofres do Estado pelo “saque fiscal” em impostos indiretos, nomeadamente no imposto sobre os produtos petrolíferos (ISP).

Costa negou ter aumentado impostos e admitiu que a carga fiscal aumentou, mas não sem responder em tom de ataque: “sendo ainda menor do que aquela que teríamos se o Governo de que Assunção Cristas fez parte tivesse continuado a governar”. “A grande mudança foram as receitas das contribuições para a Segurança Social e isso deve-se aos 350 mil postos de trabalho criados e ao aumento médio de 9,2% no rendimento das famílias”, explicou o líder socialista.

Ainda com trunfos na manga, António Costa apelidou Assunção Cristas como “a autora de uma Lei das Rendas que liberalizou o mercado de arrendamento e que criou uma onda de despejos e de especulação imobiliária”.

Cristas desmentiu o primeiro-ministro, dizendo que apenas 1,3% dos contratos tiveram despejos e que 90% desses despejos se deveram a falta de pagamento aos senhorios, declarando ter “orgulho numa lei equilibrada que permitiu renovar as cidades de Lisboa e do Porto”.

Cristas e a “aventura da redução fiscal”

A centrista apontou o dedo ao englobamento dos rendimentos de capital e prediais, garantindo que a opção dos PS é “diminuir impostos sobre o trabalho”, aumentando o número de escalões de IRS com incidência na classe média e beneficiando quem tiver mais filhos.

Não vai haver aumento de impostos nos próximos quatro anos“, garantiu o primeiro-ministro, para logo de seguida criticar as propostas de IRS e IRC que constam no programa eleitoral do CDS: “conduziriam a um enorme desequilíbrio das finanças públicas”, uma vez que agravariam as contas públicas em 5,2 mil milhões de euros, argumentou. É uma “aventura”, “uma promessa aritmeticamente impossível de cumprir”.

O CDS propõe pagar a redução do IRS com 60% do excedente orçamental. António Costa diz que o excedente previsto é de 0,7% em 2023, o que corresponde a 1600 milhões de euros. Esses 60% do excedente, garante, correspondem apenas a “961 milhões de euros, o que não cobre nem um quinto da redução fiscal que propõe”, nem “paga sequer metade do que diz que baixariam o IRS, 2253 milhões, muito menos os 3 mil milhões de euros da redução do IRC.”

À defesa, a líder centrista não apresentou contas, mas disse que as contas do CDS seguiram apenas o cenário macroeconómico traçado pelo Governo e que está tudo “clarinho como água” no programa eleitoral.

Mas o argumento do “aritmeticamente impossível de cumprir” permitiu a António Costa defender a imagem de líder do partido das contas certas que não entra “em aventuras que se traduzam ou num enorme desequilíbrio das contas ou num enorme aumento de impostos”.

Perto do apito final, questionada sobre a sua permanência na liderança do CDS se o partido eleger menos do que os atuais 18 deputados, Assunção Cristas não respondeu, preferindo deixar um recado muito direto ao seu eleitorado.

“Para as pessoas do centro-direita que acreditam que o jogo está feito, que não vale a pena ir votar, podem acordar no dia 7 de outubro com o Parlamento com dois terços à esquerda”, alertou. “O voto no CDS é seguro. Não acredito num país governado com maiorias absolutas e nisso concorda comigo”, afirmou, pondo fim ao contacto direto com a câmara e dirigindo-se a António Costa.

No mesmo minuto final, o secretário-geral do PS preferiu deixar uma mensagem de continuidade do trabalho feito, lembrando o fundador do partido, Mário Soares. Costa quis ainda tranquilizar o eleitorado porque não quer “entrar em aventuras”, mas sublinhou a necessidade de um “PS suficientemente forte”.

Esta teria sido a pergunta de encerramento, uma vez que coube a António Costa a última palavra. No entanto, ainda se ouviu Assunção Cristas dizer que “sabemos que António Costa sacrifica tudo à sua permanência no poder“.

LM, ZAP //

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