“O nosso luto foi invadido. É desumano”: PSP recolhe corpos de vítimas de legionella durante o velório

António Cotrim / Lusa

Fachada do hospital de S. Francisco Xavier, Lisboa

Os corpos das vítimas mortais do surto de ‘legionella’ no Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa, foram recolhidos pela PSP enquanto decorria o velório, por ordem do DIAP, disse à Lusa fonte policial.

Fonte do Comando Metropolitano da PSP de Lisboa confirmou à Lusa que a recolha dos dois corpos foi feita quando já decorria o velório. “Confirmo essa situação. O Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa ordenou a recolha do corpo para autopsia no Instituto de Medicina Legal”, afirmou. Segundo a mesma fonte, a situação “foi desconfortável”, mas teve que ser cumprida.

Dizer que é uma situação muito sensível é pouco e foi difícil de gerir. Foi desconfortável, mas teve de se cumprir. As pessoas estavam desagradadas com a situação, o que é natural, mas não houve problemas de maior”, disse a PSP.

Fonte do Comando Nacional da PSP também confirmou à Lusa que o corpo foi recolhido durante o velório, explicando que se tratou de cumprir um “procedimento obrigatório“.

O Ministério Público ordenou também a autópsia ao corpo da outra vítima mortal, o que originou que a data das cerimónias fúnebres tivesse de ser alterada e o corpo recolhido quando também já decorria o velório, disse à Lusa fonte da família.

A decisão do MP está relacionada com o facto de ter sido aberto um inquérito às mortes provocada pelo surto de legionela no Hospital São Francisco Xavier identificado a 31 de outubro.

Em comunicado, o MP anunciou que ordenou as autópsias das duas vítimas mortais – que considera “essenciais para a investigação em curso” – por não ter “recebido qualquer comunicação de óbito relacionada com esta matéria, legionella”.

Por isso, teve “necessidade de recolher elementos que permitissem identificar as vítimas, bem como as circunstâncias que rodearam as mortes, designadamente o local onde ocorreram”.

A família agora pede a “devolução” dos corpos: “Quando é que o ministério nos vai dar o corpo da minha avó? O nosso luto foi invadido. Estávamos na nossa dor, a despedir-nos. Queremos ter o nosso tempo de luto”, disse ao Diário de Notícias a neta de uma das vítimas.

Joana Araújo, neta de Maria da Graça Ribeiro, que faleceu no Hospital São Francisco de Xavier, vítima de legionella, disse não contestar as ordens, “mas é desumano. Queriam levar o corpo num saco, como se fosse lixo”. As autoridades acabaram por usar a carrinha funerária, perante a indignação da família.

Já a outra vítima, o jurista de 77 anos, o corpo acabou por ser transportado no saco de plástico, com o consentimento da família.

As autoridades de saúde indicaram que o surto de legionella no Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa, entrou numa fase descendente, havendo indícios de que as medidas corretivas já estão a surtir efeito.

Em conferência de imprensa, a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, estimou que o surto, que já provocou duas vítimas mortais, esteja a entrar numa fase com menos casos por dia.

Até ao momento, há 38 pessoas infetadas, cinco deles internadas em unidades de cuidados intensivos. Graça Freitas indicou também que os resultados preliminares de análises colhidas após as medidas corretivas aplicadas no sistema de refrigeração indiciam um efeito positivo dessas medidas.

Torre de refrigeração que esteve sem funcionar pode estar na origem do surto

De acordo com o Público, a Direção-Geral de Saúde (DGS) está a investigar se o surto de legionella teve origem numa das torres de refrigeração do Hospital S. Francisco Xavier que esteve sem funcionar e recentemente terá sido reativada.

O ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, afirma apenas que “o que aconteceu aqui foi, seguramente, uma falha técnica”. O Ministério Público, que já estava a recolher elementos, abriu formalmente um inquérito.

A diretora-geral de Saúde, Graça Freitas, confirmou na terça-feira que a ativação de uma das torres de refrigeração do hospital, nos dias que antecederam o início do surto, é uma das linhas de investigação que está a ser seguida no inquérito interno aberto ao caso.

Só quando tivermos os resultados das culturas que estão a ser feitas e for identificado o genoma das bactérias é que teremos a convicção sobre a origem do surto”, acrescentou Graça Freitas.

Resta a dúvida sobre o número de torres de refrigeração existentes no hospital. A presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar Lisboa Ocidental, a diretora-geral da Saúde e o presidente dos Serviços de Utilização Comum dos Hospitais dão respostas díspares, entre duas e quatro torres.

Além do inquérito interno, o surto, na sequência do qual morreram duas pessoas e 38 estão infetadas, está a ser investigado pela Inspeção-Geral das Atividades em Saúde, a pedido do Ministério da Saúde, e pelo Ministério Público.

// Lusa

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1 COMENTÁRIO

  1. Que se passa com as instituições públicas???
    Estão pejadas de incompetentes a todos os níveis?
    De uma vez por todas, material sensível deve ter um tratamento diferenciado dos assuntos corriqueiros!!!
    Eu não quero, eu exijo responsabilidades.
    Todas as semanas aparecem noticias ou boatos de incompetência parola, que mais uma vez prova que quem lá está, não está por mérito e por ter perfil.
    É um de salve-se quem puder e garantir o meu que é por direito (não porque eu mereci, mas porque bem ou mal tenho direito, repito, direito).

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