Amigos, amigos, contas à parte. Catarina Martins e António Costa aqueceram o debate

Nuno Fox / Lusa

O primeiro-ministro e líder do PS e a coordenadora do BE confrontaram ideias, esta sexta-feira, num debate televisivo na RTP. As “contas certas” foram o principal tema deste frente-a-frente.

António Costa e Catarina Martins foram os protagonistas do debate televisivo desta sexta-feira à noite, transmitido na RTP, e, embora o frente-a-frente tenha começado cordial, com o decorrer da conversa, as coisas ficaram mais tensas.

Na primeira pergunta, o moderador António José Teixeira questionou a coordenadora do Bloco de Esquerda sobre quais serão as condições do partido para formar Governo com o PS, tal como fez há quatro anos.

“Vamos deixar as pessoas votarem. O BE nunca faltou à estabilidade da vida das pessoas. Estamos em condições diferentes de há quatro anos e ainda bem”, afirmou Catarina Martins, destacando que, embora tenha havido coisas positivas — como os passes sociais, a atualização do salário mínimo ou o IRS — também há “fracassos” que ficam desta legislatura, como os professores, os precários do Estado, o Novo Banco e o BANIF.

Sobre a mesma questão, o secretário-geral do PS considerou que o Governo conseguiu cumprir “todos os compromissos com os portugueses, com os partidos parceiros e com a União Europeia”, mas lembrou que “nada voltará a ser como dantes”.

“O diálogo político deve ser alargado, envolvendo nomeadamente PCP e BE. Aprendemos a trabalhar em conjunto e a ter respeito mútuo. A democracia assenta em alternativas, independentemente do grau de maioria, o diálogo estará presente. Não abri um diálogo para ser eu a fechar essa porta“.

“O programa do PS não tem contas”

Relativamente a uma eventual maioria absoluta do PS nas legislativas de 6 de outubro, Catarina Martins considera que isso poderá vir a ser “perigoso”, uma vez que “este programa socialista é pouco concreto, não tem contas e não diz o que pretende fazer”.

“Ouvi Mário Centeno dizer que queria aumentar os trabalhadores da Função Pública segundo a inflação, mas o PS não apresenta contas e o que lá está não chega. O que está no Programa de Estabilidade não chega para aumentar os funcionários públicos”.

Foi então que Costa contrapôs: “Nunca nos batemos pelo enfraquecimento de ninguém, o Bloco é que tem como objetivo que o PS não se fortaleça o suficiente. Temos um programa com contas feitas, que é realista, não propõe um aumento de 30 mil milhões de euros anual em despesa. Um programa não pode ser uma lista de prendas de Natal. São 15% do PIB, é absolutamente irrealizável. Um programa de Governo tem de fazer escolhas”, critica o primeiro-ministro, referindo-se ao programa bloquista.

“Caricatura” das nacionalizações

O debate começou a ficar animado, sobretudo quando Costa confrontou Catarina por causa de eventuais nacionalizações de empresas como a Galp, ANA, CTT e a REN. “Há coisas que não consigo perceber. O Bloco tem um programa que prevê 27 mil milhões de dívida para nacionalizar ANA, CTT, REN, Galp. Quando precisamos de melhor escola pública e SNS. Dez mil milhões para nacionalizar a Galp é o que se gasta com o SNS. Eu não quero nacionalizar a Galp, quando os dez mil milhões do SNS são insuficientes. Não vou gastar esse dinheiro dos portugueses”.

E Catarina respondeu: “Há questões que podemos caricaturar mas é preciso ter cuidado quando o fazemos. As nacionalizações são um consenso à esquerda, entre PCP e BE, e acho que o PS percebe essa necessidade. O que o Bloco propõe é bastante razoável. O PS sabe que não precisou de comprar o capital todo da TAP para ter controlo da TAP”.

“O que o Bloco propõe é uma prioridade de renacionalização dos CTT, que foi vendido por 920 milhões de euros, já vale metade e está a ser destruído, por isso, o PS sabe tão bem como o BE que vai ter de agir”.

“Por exemplo, fazer também a nacionalização, não de toda a REN, mas do sistema global de gestão da energia da REN. Na verdade, não me parece que a questão sejam as nacionalizações. Nacionalizada a REN já está, mas é uma nacionalização chinesa porque é o Governo chinês que controla a energia em Portugal”.

“Com toda a amizade, vamos falar de trabalho?”

“É pena que o PS não apresente contas no programa eleitoral ao contrário do que faz o Bloco, remete-as para o Programa de Estabilidade. E essas contas são um pouco estranhas. Não há verbas para aumentar funcionários públicos e estão previstos cortes nas carreiras especiais da Função Pública, sem se explicar como”, critica a candidata do BE pelo Porto.

A líder do Bloco voltou à questão das contas, obrigando o chefe do Executivo a dar um exemplo do programa “irrealista” dos bloquistas. “Se quer falar de contas, deixe-me dar-lhe um exemplo: vocês propõem a construção de 100 mil prédios. Mas fazem cálculos a 60 mil euros o fogo. O valor é absolutamente desconforme com a realidade. Em Almada lançámos 3500 fogos, o valor de referência são 114 mil euros”.

“O PS diz que quer erradicar as carências de habitação até 2024. A diferença dos números é que não estamos a falar de construção, falamos de reabilitação de casas do Estado. Com toda a amizade, vamos falar de trabalho?”, sugeriu Catarina.

“Uma em cada cinco pessoas tem um contrato precário e nos jovens são dois em cada três. Temos um enorme problema com a legislação laboral e o PS parece acreditar que está tudo bem. Fazermos de conta que está tudo bem parece-nos perigoso”.

Costa, por sua vez, diz que a legislação contraria a precariedade. “A legislação que entrará em vigor em outubro cria melhores condições de empregabilidade, que penaliza as empresas que abusam da precariedade e vai melhorar a vida de muitas pessoas”.

Catarina Martins não concorda. “Os patrões gostaram, claro que gostaram. Um dia, à noite, tivemos uma reunião em que combinámos os contratos a prazo e no outro dia fomos confrontados com uma medida nova que era o período experimental e ninguém nos tinha dito nada. Depois o Governo pediu desculpa, tinha-se esquecido”.

A Cultura foi o último tema a ser debatido. O Bloco de Esquerda propõe 1% do PIB para este setor, Costa promete “duplicar” esse número, mas no Orçamento de Estado.

E a quem é que os dois líderes vão ligar depois de conhecidos os resultados das Legislativas? Catarina Martins foi a primeira a responder: “O BE estará sempre disponível para soluções que permitam estabilidade no salário, na pensão e nos serviços públicos. Ninguém traz cheques em branco“, avisa porém.

“Se for Rui Rio a ganhar, ligarei. Não vou ligar a mim próprio”, ironizou Costa. Então vai ligar aos parceiros de esquerda? “Não há tabus sobre esta matéria. Independentemente de qual for o resultado, a porta que abri não vou fechar. O muro que derrubei há quatro anos, a porta de diálogo que abri há quatro anos não vou fechá-la agora“, concluiu.

Filipa Mesquita FM, ZAP //

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1 COMENTÁRIO

  1. Pois é verdade Costa esconde as contas, que estão na merd… mas mantém para eleições aumentarem vencimentos na Funçã Pública!!!!
    Sabendo que está um caos: Saúde, Educação, Segurança, Justiça, Atendimento ao Público e muito mais…
    Costa deveria era ter a Maioria Absoluta só para ver o que faz, porque Portugal em Breve vem a TROICA, e o país está com a divida a 600% passa a estar muito pior…e assim como sempre atira as culpas para os outros e assim ele terá que se responsabilizar e não culpar, porque as contas estão um desastre.
    Tanta corrupção, roubo ao povo, interesses familiares e amigos do PS descriminação pelos portuguêses.
    Falsidade do Governo PS que tudo faz como Sócrates fez e nos levou á Banca Rôta…a merd.. é a mesma…
    Mal do Governo que tem de Governar o País nos próximos 4 anos, tanto roubaram e assim Costa irá comer no prato que deixou…E assim é o fim do PS…
    Mas houve 3.000.000€ (Três milhões de euros) para a construção da Mesquita na Mouraria e a EDP deu 1.000.000€ (Um milhão de euros)…
    E nos com familias na miséria e fome e os sem abrigo e ainda Ordenado minimo, baixo e vencimentos precários, por causa do criador dos contratos a prazo Mário Soares e nos levou á Banca Rôta e assim continuamos a ser um país pela Miserdicórdia de outros.
    PORTUGAL, já não é nosso é sim dos credores….
    O que fez o 25 de Abril de 1974, nos levou para o abismo, um pais a crescer a 12% hoje estamos na merd…
    Muita boa gente roubou e se aproveitou-se e passou haver os Corruptos e ladões do povo…
    PORTUGAL ESTÁ A SE GOVERNADO POR AS MAÇONARIAS E ASSIM OS MAÇONS ESTÃO EM TODO LADO…EM TODOS MINISTÉRIOS E EMPRESAS PÚBLICAS ETC… É A VERDADE…

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