O capitão chegou. Bolsonaro promete que a bandeira do Brasil nunca será vermelha

Joedson Alves / EPA

Michel Temer cedo o lugar ao novo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro

Recebido por centenas de apoiantes com gritos de “mito” e “o capitão chegou” em frente ao Palácio do Planalto, em Brasília, o novo presidente Jair Bolsonaro pronunciou um discurso com referências a Deus, à família e ao “direito à propriedade”.

O recém-eleito presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, tomou posse esta terça-feira, 1 de janeiro, numa cerimónia marcada pelo mal-estar com os jornalistas, muitos dos quais estrangeiros, que chegaram a deixar a sala de imprensa pelas “más condições” de trabalho reservadas à imprensa.

Quebrando o protocolo habitual, a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, fez um discurso antes do marido, o presidente recém-empossado, usando linguagem gestual. A nova primeira-dama do Brasil é defensora da causa dos surdos e mudos, sendo ela própria intérprete da língua.

Durante o discurso, Michelle Bolsonaro agradeceu a oportunidade de “trabalhar pelos mais necessitados” e fez um agradecimento especial ao seu “enteado Carlos Bolsonaro”, pelos “23 dias passados no hospital”, após o episódio do ataque à facada ao então candidato Jair Bolsonaro, durante a campanha eleitoral, em Juiz de Fora.

Marcelo Camargo / Agência Brasil

A primeira-dama Michelle Bolsonaro discursa em linguagem gestual

Após receber a faixa presidencial do presidente cessante, Michel Temer, Jair Bolsonaro pronunciou um discurso ultraconservador, cheio de frases de forte efeito e com alvos bem-definidos.

Num dos pontos marcantes do seu discurso, o novo presidente do Brasil citou um “momento que não tem preço”. “Deus preservou a minha vida e vocês acreditaram em mim. Este é o dia em que o povo começou libertar-se do socialismo, do politicamente correto e do gigantismo estatal”, declarou Bolsonaro.

O novo chefe de Estado afirmou que “a voz das ruas e das urnas foi muito clara. Esta foi a campanha mais barata da história. Juntamente convosco, vamos acabar com ideologias nefastas que destroem a família, alicerce de nossa sociedade”, disse.

Jair Bolsonaro apostou ainda na retórica anti-corrupção que marcou a sua campanha e defendeu os “interesses brasileiros em primeiro lugar”, numa possível versão brasileira do “America First” de Donald Trump. O discurso não deixou de lado a habitual referência à meritocracia, e combateu o que chama de “ideologização das nossas crianças“.

Discursou ainda contra a “ideologia que defende bandidos e criminaliza policiais” e defendeu a “garantia de direito da propriedade e da legítima defesa“. O novo presidente deu também o tom da nova orientação diplomacia brasileira, acerca da qual disse querer “retirar o viés ideológico das nossas relações internacionais”.

No fim do discurso, brandindo uma bandeira brasileira, declarou, em tom dramático, que “esta é a nossa bandeira, que jamais será vermelha, só será vermelha se for do nosso sangue derramado para a manter verde e amarela”.

Mal-estar com a imprensa

Pela primeira vez numa posse presidencial no Brasil, os jornalistas não puderam transitar livremente pela Esplanada dos Ministérios e não puderam realizar entrevistas junto à população. Com acesso restrito a uma sala, de onde não puderam sair, alguns repórteres decidiram abandonar a posse de Bolsonaro, entre os quais três jornalistas do canal de TV francês France24 e um profissional da agência de notícias chinesa Xinhua.

Na sua coluna no jornal Folha de S. Paulo, a jornalista Mónica Bergamo referiu-se à posse como “um dia de cão” e contou que os fotógrafos foram aconselhados a não erguer suas máquinas. “Qualquer movimento suspeito pode levar um sniper a abater o alvo”, conta Bergamo, citando instruções do gabinete de comunicação de Bolsonaro.

Marcelo Sayao / EPA

“Esta é a nossa bandeira, que jamais será vermelha”. Tomada de posse do novo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro

De acordo com Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília, “não foi fácil a cobertura para a imprensa”. Segundo conta a repórter, os jornalistas passaram por detectores de metais e tiveram de se desfazer de frutas, que só era permitido levar fatiadas. Em nenhum local era possível entrar com garrafas de água.

Ainda esta terça-feira, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo emitiu uma nota sobre as condições impostas a jornalistas que cobriram a posse presidencial. O texto do documento criticou as condições de trabalho reservadas aos jornalistas.

“Confinados desde as 7h, alguns com acesso limitado a água e a instalações sanitárias, os jornalistas não puderam interagir com autoridades e fontes – algo vulgar em todas as cerimónias de início de governo desde a redemocratização do país”, diz a nota.

“A Abraji protesta contra este tratamento desrespeitoso para com os profissionais que estavam no local a fazer o registo deste momento histórico“, completa o comunicado.

ZAP // RFI

PARTILHAR

2 COMENTÁRIOS

  1. Capitão?
    Este artista é politico profissional há 30 anos !!
    Deus não tem ajudado a fazer grande coisa pelo Brasil, vamos lá ver o que vai fazer com este “enviado”!…

Responder a Luis Cancelar resposta

Surtos em lar e infantário fazem 38 infetados nas Caldas da Rainha

Dois surtos de covid-19 foram detetados num lar e num infantário nas Caldas da Rainha, com um total de 38 pessoas infetadas, cinco das quais crianças, confirmou este domingo à agência Lusa o presidente da …

Mais seis mortes e 232 novos casos de covid-19 em Portugal

Portugal regista, nesta segunda-feira, mais seis mortes por covid-19 e mais 232 novos casos, dos quais 195 na região de Lisboa e Vale do Tejo. O boletim epidemiológico desta segunda-feira, divulgado pela Direção-Geral da Saúde (DGS), …

Quebras no turismo triplicam desemprego no Algarve

O desemprego no Algarve aumentou mais de 200% em maio para quase 28 mil desempregados, atingindo sobretudo o setor da hotelaria, que desespera pela chegada de turistas para atenuar o "golpe" de quase três meses …

Marques Mendes elogia "voz independente" de Medina (e diz que a TAP pode ser um crematório político)

Luís Marques Mendes elogiou neste domingo as críticas que o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, fez ao combate à pandemia, considerando ainda que a resolução da TAP, que culminou na saída de David …

O “Grenadier” já não vai ser português. Fabricante automóvel Ineos desiste de fábrica em Estarreja

A INEOS Automotive, empresa do ramo automóvel, transmitiu à Câmara de Estarreja que vai suspender o investimento de 300 milhões de euros numa fábrica no concelho, revelou este domingo fonte municipal. "A empresa transmitiu à Câmara …

Grécia e Austrália recuam na abertura de fronteiras. Marrocos isola cidade após recorde de casos

Grécia e Austrália anunciaram neste fim-de-semana um recuo na abertura das suas fronteiras, enquanto que Marrocos isolou uma cidade após um número recorde de novas infeções de covid-19 registadas em 24 horas. A Grécia anunciou …

Dinheiro dos pobres usado para "vida de luxo". Presidente, mulher e filha da Mão Amiga acusados

O presidente da Associação Mão Amiga, em Gulpilhares, Vila Nova de Gaia, a mulher e a filha foram acusados pelo Ministério Público (MP) de usarem o dinheiro da instituição para pagarem uma "vida de luxo". …

Fisco tem por cobrar 15 mil milhões de euros em impostos

O Jornal Económico escreve esta segunda-feira que a Autoridade Tributária e Aduaneira (AT) tem por cobrar 14.919 milhões de euros em impostos. De acordo com o diário de economia, mais de metade da dívida dos contribuintes está …

"Armada espanhola" assegura 70% do mercado das obras públicas em Portugal

As empresas espanholas estão a assegurar 70% do mercado das obras públicas em Portugal, escreve esta segunda-feira o jornal Público, citando uma análise ao Portal Base, às obras públicas acima de sete milhões de euros No …

"Oitavos" da Liga dos Campeões não vão ser jogados em Portugal

A UEFA cedeu à pressão dos clubes e decidiu que os encontros da segunda mão dos oitavos-de-final vão ser disputadas nos respetivos estádios dos clubes. Os encontros por jogar relativos aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões …