“O canário na mina de carvão”. Espanha já enfrenta segunda vaga e pode “contaminar” o resto da Europa

Party of European Socialists / Flickr

Pedro Sánchez, primeiro-ministro espanhol

A propagação do coronavírus está a acelerar em Espanha mais depressa do que em qualquer outro país da Europa. Os números dos últimos dias deixam Governo e especialistas preocupados, fruto de um crescimento rápido que sinaliza uma segunda vaga que chegou mais cedo e que pode contaminar o resto do continente.

Espanha teve, no fim-de-semana passado, o maior número de novos casos da Europa, com 53 mil infectados detectados.

O El País avança que Agosto terminou com “174.336 casos diagnosticados”, dos quais 23.572 desde sexta-feira passada, o que dá uma média de 5.623 novos casos diários. “É quase cinco vezes mais do que em Julho”, aponta o jornal espanhol.

Estes números indiciam que o vírus está a espalhar-se mais depressa em Espanha do que nos EUA, sendo que a propagação ocorre duas vezes mais rápido do que em França e oito vezes mais depressa do que em Itália e no Reino Unido, de acordo com dados divulgados pelo The New York Times.

No total, Espanha soma mais de 440 mil infectados e mais de 29 mil mortes associadas à covid-19.

No país vizinho, acredita-se que a famigerada segunda vaga da pandemia já começou, um pouco mais cedo do que se esperava – acreditava-se que chegaria apenas em Outubro.

Madrid é, de novo, o principal foco da epidemia, com um aumento de 70% nos pacientes internados com covid-19 durante o mês de Agosto, ainda segundo o El País.

A par da situação em Espanha, verificam-se também crescimentos nos novos casos em França, Alemanha, Grécia, Itália e Bélgica e noutras partes da Europa oriental.

Sánchez culpa cidadãos e comunidades autónomas

O líder do Governo espanhol, Pedro Sánchez, acredita que os motivos para este aumento rápido dos números são “claros”, apontando “a mobilidade” e “o ócio nocturno” como as principais causas numa entrevista à Cadena SER.

Houve um relaxamento da cidadania“, refere também Sánchez, culpando ainda algumas comunidades autónomas “na parte administrativa” e considerando que têm de “melhorar os níveis de rastreio”.

Sánchez refere-se especificamente à situação em Madrid, considerando que “a evolução é preocupante“.

“O aumento é maior do que gostaríamos, mas é expectável”, diz, por seu turno, o director do Centro de Coordenação de Alertas e Emergências Sanitárias (CCAES), Fernando Simón, em declarações divulgadas pelo El País.

O responsável pela resposta de saúde de Espanha à pandemia nota que estão a ser detectados “quase tantos casos como nos picos de Março e Abril”, também graças a um aumento no número de testes realizados, constata.

“A população não tem que se angustiar, mas sim preocupar-se”, alerta Simón.

O professor Ildefonso Hernández da Sociedade Espanhola de Saúde Pública (Sespas) também diz ao El País que a evolução da pandemia é “muito preocupante”.

Na óptica de Hernández, os números provam que “não se levou a sério a vigilância epidemiológica, a detecção rápida e o rastreio de casos” e resultam, em parte, da “pressa” para retomar algumas actividades.

Férias e vida nocturna

A reabertura da vida nocturna, com menos restrições do que noutros países, é apontada como um dos factores para o aumento acelerado de casos. As discotecas e clubes nocturnos chegaram a poder abrir até às 5 da manhã nalgumas localidades muito dependentes economicamente do turismo e da diversão nocturna.

As férias, com a mobilidade de pessoas dentro do território espanhol, pode também ter contribuído para antecipar a segunda vaga de contágios, com os encontros familiares mais alargados e o regresso dos turistas ao país depois do fim do confinamento nacional obrigatório.

As questões culturais relacionadas com o facto de os espanhóis gostarem da proximidade, do toque e dos contactos sociais, bem como a resistência ao uso de máscaras são outros factores que podem ajudar a explicar a aceleração dos contágios.

“Talvez, Espanha seja o canário na mina de carvão”, constata no The New York Times o epidemiologista Antoni Trilla do Instituto de Barcelona para a Saúde Global que se dedica à investigação. A expressão significa que há um sinal de que vem aí um qualquer perigo.

Muitos países podem seguir-nos – mas, felizmente, não à mesma velocidade ou com o mesmo número de casos que estamos a enfrentar”, prevê Antoni Trilla.

ZAP //

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7 COMENTÁRIOS

  1. A Hungria e a Ucrânia fecharam hoje as fronteiras. Parece-me que também teremos que fazer o mesmo mais uma vez, infelizmente. Os espanhóis são muito sociáveis, o que não dá jeito nenhum nesta pandemia. Agora sim, pode-se dizer que “Madrid me mata!”

  2. … o encerramento das fronteiras é perfeitamente compreensível por ambas as partes.
    Pelo menos a limitação de passagem apenas para tráfego comercial.
    Estamos a falar num potencial brutal de infecção: 53 mil casos de infecção num fim de semana?!!!
    Só para termo de comparação, é aproximadamente o mesmo numero TOTAL de casos detectados em Portugal, com 5 vezes menos população, desde o início da pandemia! (segundo a DGS 58 mil casos).
    É muito laxismo, e se apesar de tanta parvoeira que ainda se vê por cá, estamos a ser mais responsáveis, não temos de arcar com as consequências da irresponsabilidade espanhola por muita consideração que exista pelo povo vizinho.

  3. Infelizmente os homens só aprendem com os erros mas, parece que desta vez nem a errar aprendem. Para muita gente a diversão e a economia é mais importante que a saúde e a vida
    A tolerância só é admissível quando a desgraça cai na casa dos outros, quando cai dos próprios à que del rei, cai o carmo e a trindade, aponta-se logo baterias a toda gente e instituições, exigindo-se responsabilidades e indemnizações quando na verdade nem sequer a suas casas e suas vidas souberam gerir.

    15/05/2012 “ Se num mundo infestado de doença fosse possível comprar a cura, só existiam os ricos e os jovens, o que seria então deles, ou seja, quem produzia nesse mundo só de ricos?? “

  4. Fechar fronteiras outra vez?? HAHAHAHA
    Mas sua excelencia vive em que mundo? já não haverá mais quarentenas nem fecho de fronteiras nem tretas

  5. Os espanholitos que continuem a usar máscaras 24 horas por dia que vão ter um rico outono.
    Desde que os pobres coitados foram obrigafos a usar máscara na rua, desde os finais de Julho foi sempre a aumentar!
    De qualquer maneira mesmo com 50 mil casos novos não morreu quase ninguém.
    É um viŕus irrelevante epidemiologicamente falando.

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