As plantas de que os humanos não precisam estão a caminho da extinção

Uma equipa de investigadores classificou mais de 80,000 espécies de plantas em todo o mundo e descobriu que a maioria “perderá” irá perder-se para a humanidade — porque as pessoas não precisam delas.

Segundo os autores do estudo, que foi apresentado num artigo publicado este mês na revista Plants, People, Planet, as comunidades vegetais do futuro serão muito mais homogeneizadas do que as atuais.

O estudo, cujas conclusões pintam um quadro negro da ameaça à biodiversidade, cobre menos de 30% de todas as espécies vegetais conhecidas, sendo um “alerta”, dizem os investigadores, que salientam a necessidade de mais pesquisa neste campo.

“Estamos, na verdade, a começar a quantificar o que vai conseguir passar pelo gargalo do Antropoceno, em termos de números”, diz John Kress, curador de botânica do Museu Nacional de História doa Smithsonian Institution e autor principal do estudo, citado pelo The Guardian.

Não é o futuro, já está a acontecer. O estrangulamento começa a acontecer agora mesmo. E penso que isso faz parte da chamada de atenção que estamos a tentar fazer aqui. É algo que talvez consigamos abrandar um pouco, mas está a acontecer.”

Os investigadores do Smithsonian Institution propuseram-se a categorizar exatamente quais as espécies vegetais mais afetadas pelo homem desde o início do Antropoceno — a época geológica marcada pelo profundo impacto humano na Terra — na qual o homem tem sido responsável pelo aquecimento global, desflorestação, e outros resultados negativos da industrialização.

Para o efeito, analisaram dados de 86,592 espécies de plantas vasculares, e recolheram informações de bases de dados internacionais sobre as diferentes utilizações destas plantas.

Entre outros tipos de usos, foram analisadas culturas que são economicamente importantes para os seres humanos, espécies vegetais invasoras de ervas daninhas, espécies ameaças que precisam de ser protegidas e espécies raras que estão envolvidas em comércio ilegal.

A partir desta informação, foi criada uma categorização da forma como as plantas estão a ser exploradas e se irão desenvolver no futuro, descrevendo oito categorias distintas, e concluindo que muitas mais espécies de plantas serão empurradas para a extinção pela atividade humana na Terra, em vez de serem ajudadas.

Há 6,749 espécies de plantas que vão sair “vencedoras”, por serem úteis para os humanos, tais como milho, arroz, trigo e outras culturas, que cobrem 40% da superfície do planeta, e plantas que se extinguiram em estado selvagem mas sobrevivem nas cidades, tais como a árvore ginkgo.

Há ainda 164 plantas “sobreviventes” apesar de não serem úteis para os humanos, principalmente espécies invasoras, como o Kudzu.

Cerca de 20.290 espécies de plantas foram classificadas como “perdedoras”, principalmente porque não são úteis para os seres humanos, e já são reconhecidas como espécies em perigo — como a magnólia do Haiti, que é usada como lenha e não cresce em mais nenhum local.

As linhagens mais pequenas de espécies vegetais – como as cicadáceas, a família dos ciprestes, as madeiras vermelhas e o zimbro, e uma antiga família de coníferas chamada araucárias — têm maior probabilidade de desaparecer completamente.

Os cientistas classificaram ainda 26.002 espécies como potenciais perdedoras, e 18.664 espécies como potenciais vencedores. 571 espécies de plantas já se encontram extintas.

Os resultados sugerem que, no futuro, haverá muito menos biodiversidade, o que por sua vez conduzirá a uma perda de diversidade animal, e tornará os ecossistemas ainda mais vulneráveis face a condições meteorológicas extremas, mudanças no clima, ou mais degradação devido ao impacto humano.

Segundo Richard Corlett, professor no Jardim Botânico Tropical de Xishuangbanna, que não esteve envolvido no estudo, com esforço suficiente, qualquer espécie de planta pode ser salva da extinção — por exemplo, em coleções vivas, em bancos de sementes ou por armazenamento de tecido criogénico.

Por isso, diz Corlett, deveria haver um apelo à extinção zero de plantas, e conclusões como as deste estudo deveriam fazer soar o alarme e estimular a ação. “Quantas pessoas conseguem dizer o nome de uma planta ameaçada?” pergunta.

“A conservação de plantas não é como a conservação de animais, onde continuamos a perder espécies, apesar dos esforços para as salvar. Na conservação de plantas, não há casos desesperados, pelo menos no que diz respeito à extinção” — assegura o investigador.

  Inês Costa Macedo, ZAP //

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