Arouca precisa de 430 mil euros para alimentação animal

Nuno André Ferreira / Lusa

Bombeiros tentam combater o fogo na Serra da Arada, em São Pedro do Sul, Viseu

O presidente da Câmara de Arouca apelou esta quinta-feira a uma “distribuição rápida” dos fundos do Estado para proprietários de animais que perderam o pasto nos recentes incêndios, já que antecipa gastos superiores a 430 mil euros em alimentação substituta.

“O Ministério da Administração Interna tem um fundo de emergência que vai ser aplicado na sobrevivência dos animais e é preciso que a distribuição seja rápida porque os criadores não conseguem suportar a despesa com a alimentação que vão ter que comprar para substituir o pasto que ardeu”, declarou à Lusa José Artur Neves.

“A Cooperativa Agrícola de Arouca vai criar uma conta corrente em débito para ajudar esses proprietários, mas esta despesa terá que ser paga por alguém e esperamos que seja pela Administração Central, já que o Governo nos disse que tudo seria canalizado através das autarquias e nós queremos agilizar o processo para tudo regressar à normalidade o quanto antes”, realçou o autarca.

Nos incêndios da última semana em Arouca arderam 170 quilómetros quadrados de terreno florestal e agrícola, o que destruiu 98% da área de pastoreio disponível nas zonas de serra do concelho.

Esses estragos afetaram 57 proprietários pecuários, que ficaram assim sem alimentação natural para 349 cabeças de gado de raça arouquesa e ainda 836 pequenos ruminantes de raça ovina e caprina.

Na falta desse pasto natural, a Câmara Municipal e a Cooperativa Agrícola de Arouca estimam que os referidos proprietários venham a ter que despender em alimentação substituta 1,20 euros por dia por cada pequeno ruminante e pelo menos 3 euros diários por cada animal de grande porte.

A uma média de 30 dias por mês até ao despontar de nova vegetação rasteira nos terrenos ardidos, o que os serviços da autarquia preveem para março de 2017, é de esperar que a despesa global com aquisição de alimento para esses animais ultrapasse assim os 430 mil euros.

Fátima Eiras é uma das proprietárias afetadas pela destruição do pasto serrano, tendo a seu cuidado 52 cabras que costumavam alimentar-se da vegetação disponível em terras de Regouge e Covelo de Paivó, onde permaneciam em liberdade desde a manhã até ao pôr-do-sol.

Dada a atual ausência de urze, os animais são agora reunidos num curral, que há que abastecer regularmente de comida ao longo do dia.

“Tudo o que havia à nossa volta ficou completamente preto e não há carqueja que não tenha ficado queimada”, conta a pastora.

“Agora ainda solto as cabras um bocado para elas procurarem água, porque no curral não bebem, mas elas não arranjam nada para comer e tenho que ser eu a ir procurar umas videiras e umas milhas para lhes dar”, revela.

Essa dieta é, contudo, provisória, porque “já quase se estão a acabar as videiras” e, uma vez esgotados esses e outros recursos, a opção será comprar alimento seco.

“Nessa altura não sei o que vou fazer à minha vida”, desabafa.

“A 1,20 euros por dia por animal – e isto só em alimentação, sem contar com a gasolina para andar para trás e para a frente até à vila – não me chegam dois mil euros por mês só para alimentar as cabras todas”, realça.

Tendo perdido também os pinhais de que retirava madeira para vender como lenha, a pastora admite que dispensar os animais seria uma opção, mas confessa: “Até me dá uma coisa só de pensar em vendê-los! Ia ser um prejuízo tremendo, ter que os despachar agora à pressa, com as pessoas a aproveitarem-se da nossa desgraça para baixarem o preço”.

Fátima Eiras mostra-se pouco convicta quanto aos apoios prometidos pelo Estado como compensação pelas perdas no pastoreio, mas afirma que irá “esperar para ver se chega alguma ajuda”, embora não o possa fazer por muito tempo.

“Com as ervas que tenho arranjado, devo conseguir aguentar-me aí um mês, mas não será mais do que isso. Depois vai ser o desespero“, conclui.

O incêndio que deflagrou em Arouca a 8 de agosto em Janarde chegou a ser combatido por mais de 900 bombeiros, com o apoio de nove meios aéreos.

Dos 328 quilómetros quadrados que constituem o concelho, arderam 170 quilómetros quadrados, o que arruinou 58% da floresta do município.

A autarquia estima os prejuízos globais para a economia local em 120 milhões de euros.

/Lusa

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