Alentejanos divididos quanto a trabalho escravo: “Entram cedo e saem cedo. Não vejo escravidão”

Alguns alentejanos falam na presença de máfias estrangeiras, embora alguns recusem em falar de escravatura na região.

Pelo menos 40 pessoas foram detidas esta quarta-feira por suspeita de tráfico de seres humanos, associação criminosa e branqueamento de capitais. Em causa está a exploração de trabalhadores estrangeiros, que se encontravam sob condições sub-humanas em território alentejano.

As vítimas seriam atraídas com a promessa de uma vida melhor, tendo direito a casa, trabalho e salário garantidos. Mas tratava-se de uma armadilha de uma rede organizada que operava a partir do distrito de Beja e contava com membros do Leste da Europa, tal como da Índia, Paquistão ou Timor.

As vítimas ficavam logo em dívida com a rede na chegada ao território português, após a cobrança pelas viagens, logística e alojamento, que totalizava milhares de euros.

“As várias dezenas de vítimas de nacionalidades romena, moldava, marroquina, paquistanesa e senegalesa eram contratadas para explorações agrícolas em Beja, Cuba e Ferreira do Alentejo entre outros locais”, disse fonte policial à agência Lusa.

O jornal i falou com moradores e comerciantes da zona, que parecem dividir-se quanto à situação destes trabalhadores. Alguns alentejanos suspeitam da presença de máfias estrangeiras, enquanto outros recusam falar em escravatura.

O proprietário de um café, em Cuba, Alentejo, conta que os imigrantes costumam juntar-se na rua, em frente à porta, e há quem tenha medo de por ali passar. O comerciante acredita que já são 200 a 300 imigrantes em Cuba, de várias nacionalidades. “Às tantas até fico com medo de andar na rua”, confessa.

Uma moradora da mesma rua sublinha que estes imigrantes “não têm uma vida boa”, mas fala em episódios de violência entre eles.

“Já tenho chamado a Guarda. Eles passam-se, batem uns nos outros, cortam-se… Mas sempre uns contra os outros. Chateiam-se por qualquer coisa. Claro, já estão cheios de bebida… É esse o resultado. Eles não têm dinheiro para comer, mas os trocos que têm vão para tabaco e bebida”, disse a alentejana ao jornal i.

A mesma habitante disse que falou com um destes trabalhadores, que seria romeno ou moldavo, e que lhe disse que lhe pagavam 100 euros por mês.

Um morador da Vidigueira fala em “movimentações estranhíssimas nas barbas de toda a gente”, vendo-se nas ruas “inúmeros carros caríssimos com matrículas romenas”. O local diz saber de fonte segura que se trata da máfia.

Embora reconheça a “extrema gravidade” da situação, questiona se o que está em causa é trabalho escravo.

“Há aqui empresas de estrangeiros que eu conheço, que são gente de bem, mas que são empresas de subcontratação completamente legais. Não vejo ali escravidão. Saem cedo de casa, mas chegam cedo também. Agora, com contratos, sem contratos… Isso não sei”, sublinhou o alentejano ao jornal i.

“Estas pessoas não são pagas, estão a ser escravizadas, mas vão ao supermercado comprar comida? Não percebo nada disso”, acrescentou.

  ZAP //

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