Água salgada está a substituir água doce em rios e campos agrícolas

Tim J Keegan / Flickr

Na região mediterrânea houve nos últimos 55 anos uma redução da precipitação de 40 milímetros por década

A seca está a provocar a diminuição dos caudais dos rios e a substituição da água doce por água salgada, que afecta terrenos agrícolas e mesmo aquíferos, alertam especialistas ouvidos pela Lusa.

Em 2004/2005 a maré alta no rio Tejo chegou a Valada do Ribatejo, concelho do Cartaxo, e em Vila Franca apanhavam-se corvinas e robalos (peixes de água salgada que toleram água de baixa salinidade), recordou à Lusa Eugénio Sequeira, ambientalista e antigo presidente da Liga de Protecção da Natureza. E agora, acrescenta, está a acontecer de novo, “em qualquer rio, em Aveiro, em Coimbra, na foz do Guadiana...”.

Mas além da entrada da água do mar rios dentro, a especialista em recursos hídricos Carla Graça, da associação ambientalista Zero, aponta “a introdução salina nos aquíferos” (reservas de água subterrâneas) como outra consequência da seca.

Na página da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), dados de julho indicam que parte das massas subterrâneas observadas “se apresentam na generalidade inferiores às médias mensais” e que em 25 delas os níveis de água são “significativamente inferiores” aos valores médios mensais.

Também questionado pela Lusa, o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV) admitiu que diminuindo o caudal dos rios “há uma maior intrusão de sais vindos do mar, que podem originar mais sais na água de rega e, consequentemente, provocar a sua acumulação no solo”.

No entanto, acrescenta, se no inverno seguinte à seca chover normalmente os sais acumulados são lixiviados e a água dos rios também volta à sua salinidade normal. “Só um ano de seca não irá tornar os terrenos improdutivos”, conclui o INIAV.

Eugénio Sequeira entende no entanto que “a rega, a longo prazo, vai ser um problema complicadíssimo”. E fala da seca mas também dos fogos e das cinzas depositadas nas albufeiras. “Que água vamos beber quando começar a chover?”, questiona.

O especialista fala de outro problema que os solos vão enfrentar, a alta concentração de sódio. O Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas diz, em informação disponível ‘online’ que a sodização é a maior ameaça da salinização e que o sódio tem um efeito negativo no crescimento das plantas.

A solução é “lavar” os terrenos e para isso é preciso mais água, que não há, diz Eugénio Sequeira. “Quanto mais seca mais água é necessária. Estamos a caminhar a passos largos para a catástrofe”, por causa da seca, das alterações climáticas, do desordenamento e da incapacidade dos portugueses de trabalharem em conjunto, resume Eugénio Sequeira.

Filipe Duarte Santos, investigador e professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável, resume assim os problemas: já estamos a sofrer as consequências das mudanças climáticas.

Em toda a região mediterrânea houve nos últimos 55 anos uma redução da precipitação de 40 milímetros por década, e “isto afecta muito tudo o que depende dos recursos hídricos, a disponibilidade de água, a qualidade, a agricultura, a intrusão salina”, diz o professor.

Em resumo também, diz Filipe Duarte Santos: “a situação é grave”. E em Portugal, se não chover nas próximas semanas a água que vem dos rios que nascem em Espanha será menos e com menos qualidade.

A seca, as ondas de calor, é algo a que temos “de nos adaptar”, afirma, admitindo que o futuro possa passar pela dessalinização da água do mar.

Até lá “estamos a brincar com coisas sérias”, afirma Eugénio Sequeira, assumidamente irritado com o que vê, ou que não vê, que cita estudos que admitem que o deserto do Saara vai chegar ao rio Tejo, que alerta para as cinzas dos incêndios que são hidrófobas (impedem a infiltração da água).

“A prioridade é reter as águas nas encostas, é o que se deveria fazer onde houve fogos. É preciso fazer charcos onde a água se infiltrasse. E isso não está a ser feito em lado nenhum”, avisa. “Não há ordenamento, medidas de fundo”, conclui.

// Lusa

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4 COMENTÁRIOS

  1. Filipe Duarte Santos afirma “Em toda a região mediterrânea houve nos últimos 55 anos uma redução da precipitação de 40 milímetros por década,”. Fiquei com dúvidas e fiz uma busca rápida pelo Sul de Espanha, encontrei para Almería -5,5 mm/Dec, Marbella +27 mm/Dec, e a descida maior -47 mm/Dec em Gaucín. Dados de ~50 anos em “Precipitation dynamics in southern Spain: trends and cycles” http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/joc.2235/full.
    Não quis perder muito tempo a fazer análises, mas a máxima descida corresponde a 4% por década e a maior subida de 4% por década. Pelo menos no Sul de Espanha os valores não são os indicados! Se olharmos então para os gráficos da percipitação anual (podem chegar a variações de 500% em anos consecutivos) vemos facilmente os ciclos solares de ~11 anos, mas já não se veem os de 22 anos e clano nada dos ciclos mais longos conhecidos!
    Como cientista Filipe Duarte Santos deveria indicar números compreensíveis! 40 mm por década (4 mm por ano) é muitissimo no Sahara e muito pouco no Gerês!
    Um cientísta tem que falar claro para o público e não “mandar bocas para o ar”! Presta muito mau serviço a quem tenta seriamente evitar os imensos danos que estamos a causar!

  2. “A prioridade é reter as águas nas encostas, é o que se deveria fazer onde houve fogos. É preciso fazer charcos onde a água se infiltrasse. E isso não está a ser feito em lado nenhum”

    Há gente no Alentejo a fazer socalcos, terraços e lagos para reter a água nas encostas e a apanhar água da chuva. O que o cientista propõe é um pilar da permacultura com várias décadas.

    Mas isto tudo são sintomas de um problema maior: a acção ilimitada da lógica monetária nos recursos finitos do planeta. Em Portugal, relativamente à água, não se ignore a tragédia da monocultura de Eucaliptos – autênticas bombas sugadoras dos lençóis freáticos, milhões e milhões delas, instaladas em encostas e vales a esgotar poços e ribeiras, e não só, a eliminar vida e diversidade animal e vegetal. Basta viajar pelo país, pedir testemunhos a quem vive ao lado destas realidades. A seca só acentua o que os anos de alguma chuva vão adiando. Um futuro triste vendido por dinheiro fácil e estupidez tacanha.

  3. … aos anos que me ando a queixar dos robalos que tem invadido Vinhais. Perguntem ao Sr. Vara se ele não os viu? Aqui não foi “intrusão salina” foi “intrusão politica”

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