Xi Jinping visita Portugal com os olhos postos numa “parceria virada para o futuro”

Luong Thai Linh / EPA

O presidente da China, Xi Jinping

O Presidente chinês Xi Jinping está esta terça e quarta-feira em Lisboa para uma visita de Estado a Portugal. Para Marcelo Rebelo de Sousa, a visita do seu seu homólogo é um espelho da “capacidade de diálogo e de entendimento” entre os dois países, cujas relações diplomáticas têm vindo a ser reforçadas.

A visita de Xi Jinping vem antecipar o arranque do ano da China em Portugal e preparar a comemoração de 40 anos de relações diplomáticas entre os dois países. Está é a terceira vez que um chefe de Estado chinês se desloca a Portugal, depois de Jiang Zemin, em 1999, e de Hu Jintao, em 2010.

A visita foi anunciada em junho por Marcelo Rebelo de Sousa, que classificou o encontro como “muito importante” e um espelho da “capacidade de diálogo e de entendimento” entre os dois países. Portugal e China vêm reforçando relações desde finais dos anos 70.

Xi Jinping, no poder desde 2013, vai reunir-se com o homólogo português, Marcelo Rebelo de Sousa, e com o primeiro-ministro, António Costa. O Bloco de Esquerda, pela voz da sua coordenadora, rejeitou o convite para o jantar oficial com o Presidente chinês, que será oferecido na terça-feira pelo chefe de Estado português.

“As posições do BE mantêm-se, nada mudou desde 2010, continua o desrespeito pelos direitos humanos e a repressão e, por isso, o Bloco não estará presente” nas iniciativas para que foi convidado, disse à agência Lusa fonte oficial dos bloquistas.

Num artigo de opinião publicado no passado domingo no Diário de Notícias e no Jornal de Notícias, o Presidente chinês disse pretender reforçar a cooperação pragmática entre China e Portugal, que considera que tem dado resultados frutíferos para os dois lados.

“A parte chinesa está disposta a fazer esforços conjuntos com a parte portuguesa para continuar a aprofundar o conhecimento e a confiança mútuos, e aumentar intrinsecamente a profundidade e a amplitude da cooperação pragmática, com fim de enriquecer ainda mais o conteúdo da Parceria Estratégica Global China-Portugal, criando em conjunto um futuro promissor para as relações dos dois países”, declarou Xi Jinping.

Xi Jinping lembrou o estabelecimento das relações diplomáticas entre os países em fevereiro de 1979. “A amizade e a cooperação sino-portuguesas já estão numa via expressa do desenvolvimento. Nestes 40 anos, os dois lados persistem em realizar a cooperação pragmática com base nos princípios de igualdade, benefício mútuo e ganhos compartilhados”, disse.

Para o Presidente chinês, “nestas quatro décadas, o relacionamento China-Portugal tem-se desenvolvido de forma estável e rápida, e tem percorrido uma trajetória invulgar”.

Sob o título “Uma amizade que transcende o tempo e o espaço, uma parceria voltada para o futuro”, Xi Jinping lança o desafio de aprofundar as relações, afirmando na publicação que Portugal e China vão “construir em conjunto Uma Faixa e Uma Rota e ser parceiros de desenvolvimento comum”.

Portugal é um ponto importante de ligação entre a Rota da Seda Terrestre e a Rota da Seda Marítima, por isso, a cooperação sino-portuguesa no âmbito de Uma Faixa e Uma Rota é dotada de vantagens naturais”, considerou.

Durante a estadia, Xi Jinping irá também assinar 19 acordos de cooperação entre Portugal e China “em áreas que vão da cultura à ciência e da agroindústria ao comércio”.

A influência do capital chinês na economia portuguesa cresceu nos últimos anos e, exemplo disso é a China deter 8,8% da bolsa portuguesa, tal como nota o semanário Expresso. Portugal e China parecem não querer travar esta tendência e esta visita de Estado vai ao encontro disso mesmo.

Durante a sua visita, que está a ser preparada há meses, o presidente da China vai ficar hospedado durante dois dias no hotel Ritz, em Lisboa, onde pagou dois milhões de euros para ter a histórica unidade hoteleira por sua conta, revela o jornal i. Esta é a primeira vez que o hotel aceita a tal pedido: o antigo presidente norte-americano Bill Clinton tentou o mesmo feito no passado, mas sem sucesso.

Desde que assumiu a liderança da China Xi Jinping tornou-se o centro da política chinesa e é atualmente considerado um dos líderes mais fortes na história da República Popular, comparável ao seu fundador, Mao Zedong.

Em março passado, numa única sessão do legislativo chinês, Xi conseguiu abolir o limite de mandatos para o seu cargo, criar um organismo com poder equivalente ao do executivo, para supervisionar a aplicação das suas políticas, e promover aliados a posições chave do regime. “É enorme; é histórico“, afirma à agência Lusa Xie Yanmei, analista de política chinesa do centro de investigação Gavekal, com sede em Hong Kong.

“Requer grande margem de manobra e muito capital político”, notou a especialista.

Desconfiança cresce no Ocidente

Xi Jinping visita Lisboa numa altura de crescente suspeição no Ocidente face aos interesses geoestratégicos de Pequim, que motivou já uma guerra comercial com Washington e alertas por parte de Bruxelas.

Desde a ascensão ao poder de Xi Jinping a China adotou uma política externa mais assertiva, que se materializa no gigantesco plano de infraestruturas ‘um cinturão, uma rota’, que visa conectar o sudeste Asiático, Ásia Central, África e Europa.

A iniciativa é vista como uma versão chinesa do Plano Marshall, lançado pelos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial, e que permitiu a Washington criar a fundação de alianças que perduram até aos dias de hoje. Ilustrando esta nova vocação internacionalista, o país acolheu, no espaço de um ano, as cimeiras do G20 e do bloco de economias emergentes BRICS [Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul].

Trata-se do início de uma “nova era” em que “a China se aproximará do palco principal na governação de assuntos globais”, como descreveu o próprio líder chinês, no discurso inaugural do XIX Congresso do Partido Comunista (PCC), em novembro de 2017, abdicando assim do “perfil discreto” na política externa de Pequim, que vigorou durante décadas.

Mas os avanços da China têm suscitado divergências com as potências ocidentais, que veem uma nova ordem mundial ser moldada por um rival estratégico, com um sistema político e de valores profundamente diferente.

Nos Estados Unidos, a ascensão ao poder de Donald Trump ditou o acordar de disputas comerciais, com os dois países a aumentarem as taxas alfandegárias sobre centenas de milhões de dólares de produtos de cada um. A liderança norte-americana teme perder o domínio industrial global, à medida que Pequim tenta transformar as firmas estatais do país em importantes atores em setores de alto valor agregado, como inteligência artificial, energia renovável, robótica e carros elétricos.

A marinha norte-americana reforçou também as patrulhas no Mar do Sul da China, reclamado quase na totalidade por Pequim, apesar dos protestos dos países vizinhos. No mês passado, navios dos dois países quase colidiram naquele território.

Mas se referências a uma nova guerra fria são agora comuns em Pequim e Washington, a Europa tem assegurado o seu compromisso em dialogar com a China, apesar de estar também a colocar entraves aos avanços do país.

Os investimentos chineses em setores estratégicos do continente, após a crise financeira global de 2008, levaram a Comissão Europeia a estabelecer já um novo mecanismo de controlo sobre o investimento externo.

Nos últimos dez anos, enquanto algumas economias estagnaram, a China manteve altas taxas de crescimento económico, aumentando a quota no Produto Interno Bruto global de 6% para quase 16%. O país tornou-se, no mesmo período, um dos principais investidores em Portugal, ao comprar participações em grandes empresas das áreas da energia, seguros, saúde e banca, enquanto centenas de particulares chineses compraram casa em Portugal à boleia dos vistos gold.

ZAP // Lusa

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