UNESCO: Assistentes virtuais estão a reforçar preconceitos de género

Saniye Gülser Corat / Instagram

Saniye Gülser Corat, diretora para a Igualdade de Género da UNESCO

A diretora para a Igualdade de Género da UNESCO esteve na Web Summit, na passada quarta-feira, para falar sobre como as assistentes virtuais como a Siri, a Cortana, a Alexa, entre outras, estão a reforçar os preconceitos de género.

No passado dia 6, Saniye Gülser Corat subiu ao palco DeepTech, na Web Summit, em Lisboa, para uma conversa com a jornalista espanhola Esther Paniagua, na qual se pretendia a resposta a uma pergunta: “A Siri é sexista?”.

Para a diretora para a Igualdade de Género da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), o problema não está nas assistentes virtuais em si, mas sim na forma como as pessoas que estão por detrás delas as estão a desenvolver. E, para melhor percebermos isso, basta olhar para o relatório publicado este ano pela organização.

Intitulado “I’d blush if I could” (“Eu coraria se pudesse”) — resposta que a assistente virtual da Apple dava quando uma pessoa lhe dizia “Hey Siri, you’re a bi***” (“Olá Siri, tu és uma ca***”)—, o relatório aponta que estas vozes femininas, nas quais também se incluem exemplos como a Cortana (Microsoft) ou a Alexa (Amazon), estão a reforçar os preconceitos de género.

Numa entrevista ao ZAP, à margem da conferência de tecnologia, Corat explica que o documento conclui que “por causa da forma como os algoritmos estão a ser desenvolvidos, algumas das respostas destas assistentes virtuais indicam preconceitos de género“.

“Na sua larga maioria, este tipo de tecnologia é produzida por homens jovens, que vêm de contextos semelhantes e que transmitem os seus preconceitos, muitas vezes sem terem consciência disso. Todos nós temos preconceitos, conscientes ou inconscientes, por causa da forma como vivemos em sociedade ou por causa da forma como somos ensinados”.

Por isso, alerta a diretora da UNESCO, é importante que tenhamos consciência disto, “porque a tecnologia é cada vez mais importante para nós: em casa, no trabalho, em todas as esferas da nossa vida”.

E como é que se faz frente a este problema? “Temos de aumentar a diversidade das equipas que trabalham com tecnologia. Quanto mais uma equipa for diversificada, mais inclusiva será”, declara.

Siri, assistente virtual da Apple

Questionada sobre se, depois do relatório, as grandes empresas tecnológicas fizeram algumas mudanças nesta área, Corat diz que a resposta é positiva. Aliás, tempos depois do documento ter sido publicado, a Apple alterou a resposta da Siri para “Eu não sei como responder a isso”, quando confrontada com as mesmas palavras insultuosas.

“Isso já é muito promissor e encorajador, mas ainda há muito a fazer. O que estamos a tentar agora é, antes de mais, participar em fóruns como a Web Summit para manter o diálogo aberto, não apenas com as empresas, mas também com todas as partes interessadas”.

De acordo com a responsável, o próximo passo será organizar um encontro, no próximo ano, com académicos, especialistas, representantes destas empresas e dos Estados-membros da UNESCO, entre os quais Portugal, para que, “através das diferentes perspetivas e áreas de ação, possamos discutir e resolver este problema”.

Na opinião de Saniye Gülser Corat, esta é um questão que começa com a Educação. “A pesquisa mostra-nos o porquê de os rapazes serem canalizados para áreas como a ciência, a engenharia e a matemática, enquanto que as raparigas são deixadas de fora ou marginalizadas”.

“Acontece por causa dos professores, que favorecem os rapazes nas aulas; acontece por causa das famílias, uma vez que algumas pensam que a ciência não é para raparigas; acontece mesmo por causa das próprias raparigas por uma questão de auto-perceção e insegurança”, explica.

“Descobrimos que, até à puberdade, não há muita diferença em termos do interesse nestas áreas entre o sexo masculino e feminino. Mas, quando atingem a puberdade, as raparigas preocupam-se com o facto de serem aceites, de serem populares entre os seus amigos e, ainda hoje, ser um entusiasta da ciência é visto como alguém que é nerd e, por isso, ser vista como uma nerd não é algo que uma rapariga queira nesta fase”.

A nível universitário, os dados mostram precisamente isso. “Nos Estados Unidos, nos anos 80, 35% dos estudantes de ciências informáticas eram mulheres. Hoje em dia, são apenas 18%, quase metade. No Reino Unido, esta percentagem também está a cair”.

“Há uma tendência global, sobretudo em países onde os índices da igualdade de género são maiores, que mostra que há menos mulheres em áreas de formação como as ciências e as tecnologias. É o caso da Bélgica, da Suíça e de outros países europeus. Por outro lado, em países onde esses índices são mais baixos, cerca de 50% das mulheres estuda essas áreas como, por exemplo, nos Emirados Árabes Unidos ou na Tunísia. É um paradoxo de género interessante que temos de estudar melhor”.

Mas nem tudo é mau quando se fala de tecnologia. Aliás, a responsável da UNESCO considera mesmo que esta é uma poderosa ferramenta “com um grande potencial para promover os direitos humanos, o empoderamento e a igualdade” e que “existem várias pessoas, em diferentes países, que estão a desenvolver aplicações para ajudar mulheres em diferentes aspetos das suas vidas”.

Um desses exemplos chega-nos do Quénia, onde “cinco jovens desenvolveram uma app para ajudar vítimas da mutilação genital feminina. Para além de lhes dar informação, aconselhamento e outros serviços, esta aplicação também tem um botão de pânico que alerta as autoridades”. Corat acrescenta que, “embora muitos Governos já tenham banido esta prática, infelizmente ainda continua a acontecer, mesmo em países desenvolvidos como os da Europa”.

Questionada sobre se algum dia vamos poder acordar num mundo em que a igualdade de género é uma realidade, Corat afirma que essa é a sua motivação para continuar a trabalhar, “porque se não o fizermos, será ainda pior“.

“Penso que vai acontecer, embora tenha de concordar que se trata de um longo caminho. As nossas avós e as nossas bisavós começaram a lutar pelos seus direitos há mais de cem anos. Já fizemos muitos progressos relativamente à participação das mulheres na vida pública e na educação, mas ainda não encontrámos a solução para garantir que se valorizam os papéis e as contribuições dos diferentes géneros de forma igual”.

“Mas tenho muita confiança e esperança nestas gerações, não só porque estão a crescer num contexto diferente, mas também porque estão conscientes do que é preciso para andar para a frente”.

Porém, contrapõe, “também estamos a passar por um forte retrocesso relativamente aos direitos das mulheres devido à visão de vários grupos — conservadores, políticos, terroristas, religiosos e fundamentalistas — que representam sérios desafios para a igualdade de género. É por isso que temos de estar muito vigilantes e combatê-los porque não nos podemos dar ao luxo de perder os ganhos que nos custaram mais de cem anos”.

Em jeito de conclusão, a diretora da UNESCO para a Igualdade de Género acredita que ser feminista é defender o conceito de que todos nascemos como seres humanos e, como seres humanos que somos, todos somos iguais. “Como é que alguém pode estar contra esta ideia?”, questiona.

FM, ZAP //

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