Wall Street não sai do vermelho. Vamos voltar a 2008?

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A bolsa de Wall Street voltou a abrir com perdas acentuadas, esta sexta-feira, aumentando o impacto nos mercados da entrada em vigor das tarifas sobre importações impostas pelo presidente dos Estados Unidos Donald Trump.

Pelas 17h00 desta sexta-feira em Lisboa, Dow Jones, Nasdaq e S&P 500 apresentavam perdas próximas dos 4%.

Mas não é só Wall Street que está a afundar. Pelas 15h00, também as bolsas europeias agravavam as suas perdas, com Milão a perder 5,91%, Madrid 5,22%, Paris e Londres 3,96% e Frankfurt 3,94%.

Lisboa acompanhou o naufrágio das bolsas mundiais, tendo registado a maior queda desde 18 de março de 2020 – quando a covid-19 chegou a Portugal.

Como descreve o Negócios, Lisboa foi engolida nesta “sexta-feira negra”.

Na quinta-feira, as bolsas europeias já tinham fechado em baixa, a descer cerca de 3%. Ainda assim, a queda foi muito maior em Wall Street, onde os principais indicadores terminaram o pior dia desde março de 2020, com fortes perdas, que variaram entre 4% e 6%.

9.600.000.000.000 dólares perdidos

O mercado continua a ser condicionado pelo anúncio de tarifas recíprocas por parte de Donald Trump, esta quarta-feira. Desde que o o atual Presidente dos EUA tomou posse, em janeiro, a bolsa de Wall Street perdeu 9,6 biliões de dólares (8,72 biliões de euros).

O cálculo foi feito pelo MarketWatch, que aponta que as maiores quedas ocorreram nas últimas 48 horas.

As tarifas anunciadas por Trump que afetaram quase todas as economias no mundo e estimularam uma guerra comercial e que resultaram, desde então, na perda de cinco biliões de dólares (4,54 biliões de euros).

Ao contrário de outras ocasiões, em que um dia de grandes perdas é seguido por um dia em que os investidores aproveitam os preços mais baixos para comprar ações, também o dia de hoje está a ser marcado por reduções dos títulos.

quais bolsas? EUA ou todas?

Trump pede redução das taxas de juro

Entretanto, num pedido insólito, esta sexta-feira, Trump pediu ao governador da Reserva Federal [FED] (banco central dos EUA) para reduzir as taxas de juro.

“Este seria o momento PERFEITO para o presidente da FED, Jerome Powell, cortar as taxas de juro”, escreveu o presidente republicano, numa mensagem na rede Truth Social.

O Presidente dos EUA aproveitou para atacar Powell, repetindo críticas de que não responde com a rapidez necessária aos problemas do país.

“Tem estado sempre atrasado. Mas agora pode mudar a imagem”, escreveu Trump.

E está aberto a “ofertas”

Trump já manifestou também disponibilidade para negociar se as ofertas forem “fenomenais”.

Numa outra mensagem na Truth Social, Trump esclareceu que teve uma “discussão muito produtiva” sobre as taxas alfandegárias com To Lam, principal líder do Vietname – país sobre o qual foi aplicada uma taxa de 46%.

“O Vietname quer reduzir as taxas alfandegárias a zero, se conseguir chegar a um acordo com os Estados Unidos. Agradeci em nome do meu país e disse que espero encontrá-lo num futuro próximo”, escreveu o Presidente norte-americano na Truth Social.

Na quarta-feira, num dia que apelidou de “dia da libertação”, Trump impôs uma tarifa de 10% sobre as importações de 184 países e territórios, incluindo a UE.

No caso da China, anunciou uma tarifa de 34%, somando-se aos 20% já em vigor, elevando o total para 54%.

A tarifa de base de 10% entra em vigor no sábado, enquanto as tarifas adicionais específicas por país vão entrar em vigor na próxima quarta-feira.

FED faz sérios avisos

Jerome Powell afirmou, esta sexta-feira, que as novas tarifas do governo Trump deverão acelerar a inflação e abrandar o crescimento económico, sendo que o foco da FED) será manter os aumentos de preços temporários.

“A nossa obrigação é […] garantir que um aumento único no nível de preços não se torne um problema contínuo de inflação”, disse Powell em comentários feitos em Arlington, Virgínia.

Powell afirmou que as tarifas e os seus impactos na economia e na inflação são “significativamente maiores do que o esperado”.

O foco de Powell na inflação sugere que – ao contrário do que Trump pretende – a FED poderá manter a taxa de juro inalterada em cerca de 4,3% nos próximos meses.

Após o pedido de Trump, Powell declarou que era “muito cedo” para ajustar a política monetária da instituição porque não foi possível avaliar as consequências da onda de novos impostos sobre os produtos importados para os EUA.

Os economistas preveem que as tarifas enfraquecerão a economia, possivelmente ameaçarão as contratações e aumentarão os preços; e alertam: o crescimento da economia mundial pode atingir o nível mais baixo desde 2008.

“Não está claro como será o cenário final das tarifas, mas o custo da incerteza é alto”, sinalizam os economistas da Allianz Trade, numa nota de análise, citada pela Lusa, estimando que o “crescimento do PIB global cairá para apenas 1,9%, o menor nível desde 2008”.

De volta a 2008?

Johanna Kyrklund, diretora de Investimentos do Grupo Schroders, ouvida pela Lusa, nota que “a ronda inicial de Trump aponta para tarifas mais altas do que o esperado, e as previsões económicas [do grupo] estão a ser revistas em baixa, com uma expectativa de crescimento do PIB dos EUA em torno de 1% para 2025“.

Paolo Zanghieri, economista sénior da Generali Investments, salienta numa nota de análise que se espera que os direitos aduaneiros impactem mais os EUA, reduzindo o seu PIB em 1,5%. Neste cenário, a incerteza persiste, afetando o dólar e os mercados acionistas a curto prazo, nota.

Henrique Valente, analista da ActivTrades, também destaca, num comentário, que as tarifas “surpreenderam os mercados pela sua escala e abrangência”, sendo que “os investidores enfrentam agora uma reavaliação profunda dos riscos económicos imediatos e da possível reconfiguração do comércio global nos próximos anos”.

O analista antecipa que “a incerteza sobre retaliações dos parceiros comerciais dos EUA continuará a pesar sobre os mercados durante as próximas semanas, alimentando a aversão ao risco e mantendo a volatilidade elevada”, tendo em conta que a China já retaliou com tarifas de 34% sobre bens americanos e a UE prepara-se para anunciar a 9 de abril a sua resposta.

Paul Diggle, economista chefe na Aberdeen, estima que “o aumento total nas tarifas dos EUA ontem e nas últimas semanas pode adicionar 2% ao nível de preços e empurrar o PIB [dos EUA] para baixo em 1-2%“.

ZAP // Lusa

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