Vila Galé abandona projeto que ameaçava reserva indígena no Brasil

Marcelo Camargo / Agência Brasil

O Vila Galé anunciou que vai abandonar o projeto para a instalação de um resort na região da Bahia, que tem estado debaixo de críticas por estar previsto para um local de potencial reserva indígena.

Em comunicado, o Vila Galé critica os “‘ataques’ por alguns que abraçam causas mediáticas, só aparentemente justas, e usam de falsidades, sem sequer procurarem minimamente obter a verdade dos factos”.

A empresa hoteleira lembra que, em abril de 2017, “foi convidada pelo Governo da Bahia e Prefeitura de Una para realizar um investimento num mega resort para ajudar ao desenvolvimento da região de Una, tendo sido estabelecida uma parceria com a empresa proprietária dos terrenos”.

A empresa garante que realizou todos os estudos e projetos, que foram aprovados pelas autoridades competentes e que, “ao longo de todo esse tempo, não surgiu qualquer reclamação ou reivindicação, apesar de ser pública e notória em toda a região a notícia do projeto”, lê-se na mesma nota.

Segundo o grupo, não há sinais de ocupação ou utilização indígena num raio de muitos quilómetros e “não existe qualquer reserva indígena decretada para esta área, nem previsão de a vir a ser”.

“Passaram três mandatos governamentais anteriores, com vários ministros da Justiça e nenhum deles aprovou a demarcação das terras indígenas”, garante a empresa portuguesa.

“Entretanto, tratando-se de um tema delicado que suscita estados emocionais por parte de alguns setores, fomos acusados de falsidades inconsistentes e graves“, critica o grupo.

O Vila Galé revela que vai ser forçada a “abandonar este projeto”, isto, ressalva o grupo, “apesar de os projetos estarem aprovados e terem o apoio explícito da Prefeitura de Una, do Governo Estadual da Bahia e dos órgãos de Turismo do Governo Federal, por se tratar de uma obra de maior relevância económica e social”, acusando ainda “alguns poucos sem razão de prejudicarem toda uma população que se vê privada da oportunidade de ter emprego num projeto de prestígio”.

“Não é do nosso interesse que um hotel resort Vila Galé nasça com a iminência de um clima de ‘guerra’, ainda que injusta e sem fundamento, como são exemplo as ameaças proferidas na embaixada de Portugal em Brasília e algumas declarações falsas, dramáticas e catastróficas que deveriam envergonhar quem as profere”, critica o grupo.

A 29 de outubro, numa nota enviada às redações, o grupo reagiu a uma notícia do portal de jornalismo de investigação brasileiro The Intercept, garantindo que “não existem indígenas” na zona onde pretendia instalar o Vila Galé Costa do Cacau.

“Não existe no local qualquer tipo de ocupação de pessoas e bens ou sequer vestígio da mesma num horizonte temporal muito alargado”, lê-se num comunicado divulgado nessa altura, no qual o grupo justificava a legitimidade do hotel, que tinha abertura prevista para 2021.

De acordo com o The Intercept, a Fundação Nacional do Índio (Funai) recebeu, em julho, um pedido do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur) — órgão vinculado ao Ministério do Turismo do Brasil — para encerrar o processo de demarcação de uma reserva indígena no sul da Bahia, para a construção do hotel de luxo.

A área em causa, que corresponde a 470 quilómetros quadrados, pertence ao povo Tupinambá de Olivença, que luta pela demarcação daquelas terras há pelo menos 15 anos, e cuja primeira fase do processo foi concluída em 2009.

“Esta é a primeira vez, pelo menos desde a Constituição de 1988, que um órgão federal faz lobby sobre outro — e o regista num documento oficial do Governo — para entregar à iniciativa privada uma área indígena, também ela registada num documento oficial do executivo”, escreveu o The Intercept, depois de falar com vários especialistas, que declararam a ação inédita e ilegal.

O empreendimento estimava criar mais de 500 empregos diretos e cerca de 1.500 indiretos, segundo o Vila Galé, que mantém a intenção de investir na zona de Una, “no mais curto prazo”, de acordo com a nota de hoje.

O Vila Galé é um dos principais grupos hoteleiros portugueses e é, atualmente, responsável pela gestão de 34 unidades hoteleiras: 25 em Portugal e nove no Brasil.

// Lusa

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