O único yazidi em Portugal entrou em greve de fome para reivindicar direitos

Tiago Petinga / Lusa

Saman Ali, o único refugiado yazidi que permanece em Portugal, viu a sua autorização de residência provisória expirar. Contra os atrasos do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), o professor universitário fechou-se em casa recusando comida e água.

O dia 15 de novembro marcaria o início de um período de 5 anos durante o qual Saman Ali estaria protegido pela residência permanente, que lhe garante a proteção internacional por cinco anos. No entanto, esse dia passou sem que a mesma fosse emitida.

Na casa em Guimarães, que habita há oito meses, Saman Ali iniciou uma greve de fome e sede: “As autoridades serão responsáveis pela minha morte“.

Esta não é a primeira vez que Saman protesta. A 5 de maio, dois meses depois da sua chegada a Portugal, escreveu uma carta pública ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, onde revelava que o seu primeiro título de residência terminava nessa semana e o quanto receava perder mais um país. O protesto resultou, com a revalidaçã a chegar pouco depois.

Agora, mais de meio ano depois, um novo prazo termina e deixa Saman Ali em desespero.

Ao Expresso contou: “Um dia antes de acabar fui ao SEF de Braga, já desesperado. Disseram-me que é normal o prazo caducar, que não há problema em ficar ilegal e que  depois me ligam. Como é que podem aceitar que esteja ilegal e que isso não seja um problema?”.

“Não posso ir ao hospital, não posso comprar medicamentos, não posso sequer sair de casa porque não tenho identificação válida e os meus papeis de residência expiraram. É como se estivesse numa prisão. E eu quero voltar a viver“, adianta.

Quando chegou a Portugal, ainda no aeroporto de Lisboa jurou fidelidade, “o meu segundo país para sempre”. E manteve a promessa, mesmo quando os companheiros de viagem começaram a partir. Ficou só ele. O único yazidi que resta em Portugal.

Saman não baixou os braços e escreveu uma segunda carta ao Presidente da República. A este destinatário juntou também o SEF, o Conselho Português para os Refugiados, a Organização Internacional para as Migrações, a Câmara Municipal de Guimarães, o ACNUR e o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.

Comecei hoje de uma greve de fome (e de sede!!!)
Como protesto pelo meu processo de asilo em Portugal!

Chamo-me Saman Ali, nasci em Sinjar, no Iraque. Eu sou um yazidi, sou vítima do ISIS (Daesh(, que matou muitos dos meus familiares, tais como os meus pais, irmãs e irmãos. Perdi-os a todos, sendo eu o único sobrevivente.

No Iraque, era professor universitário, mas fui obrigado a deixar o meu país a 20 Janeiro 2016 por causa da minha religião, das minhas opiniões e das minhas atividades. A minha vida estava em grande perigo.

Nunca mais posso voltar ao Iraque devido ao risco de ser perseguido e morto.

A 10 de Novembro de 2016 a minha recolocação tinha sido aceite pelas autoridades portuguesas, cheguei a Portugal no dia 6 de Março de 2017 pelo programa europeu de recolocação da Grécia, tendo feito a perigosa viagem do Iraque e esperado mais de um ano.

Eu sou o primeiro refugiado yazidi que chegou a Portugal e o último a ficar aqui porque todos eles já saíram, Vamos ter em Portugal um só refugiado yazidi que sou eu, porque nenhum outro quer ficar.

Hoje 27 de novembro 2017 eu comecei a greve de fome e continuarei até receber meus direitos simples que é o meu estatuto de refugiado, residência permanente, 5 anos de
proteção internacional que estou pedindo ou eu estarei morto na minha greve de fome. Agora estou em condições ilegais a partir de 15 de novembro de 2017. Estou em situação psicológica muito ruim e os relatórios do meu médico psiquiatra confirmam que, devido à minha situação em Portugal, preciso de ajuda de emergência para o meu pedido.

Saman tem acompanhamento psiquiátrico no departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital de Guimarães desde abril e no último relatório, redigido a 16 de novembro, um dia após o término do prazo de residência em Portugal, o especialista refere que “os trâmites burocráticos associados ao processo de obtenção de estatuto de refugiado são, neste momento, o principal fator de stress e da sintomatologia do foro depressivo-ansioso apresentada”.

Os primeiros sintomas depressivos surgiram ainda na Grécia associadas às vivências traumáticas no Iraque.

Ao Notícias ao Minuto, o Ministério da Administração Interna garantiu que o título já foi renovado. “O cidadão foi titular de uma autorização de residência provisória até 15-11-2017, tendo este documento já sido renovado“.

O Ministério da Administração Interna afirma ainda que o “respetivo processo de asilo está em fase de conclusão e prestes a ser tomada a decisão final quanto à concessão do estatuto de proteção internacional”, sendo que com a “autorização de residência provisória, o cidadão tem acesso ao mercado de trabalho, à formação profissional, acesso à saúde e a um outro conjunto de direitos que a lei prevê”.

ZAP //

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6 COMENTÁRIOS

  1. Nós Portugueses também queremos muita coisa, mas é o país que temos. Este chegou á 6duzia de dias e já reclama como se não houvesse amanhã. Nós os Portugueses que pagamos impostos = quem trabalha não temos nem metade das regalias que tu tens. Continua a reclamar é que Portugal (governos) são melhores padrastos que pais, e pode se que tenhas mais sorte do que os “escravos” que sempre foram Portugueses… mas uma coisa te digo perante a situação que estives-te até hoje estás no paraíso. És pobre e mal agradecido …

    • Bem, muito bem.
      Eu fui perseguido pelo estado português, espoliado, roubado, enganado. Fiquei sem trabalho em 2009, sem casa em 2011, nunca recebi sub desemprego, vivo de biscates, e não fiz greve da fome. Trabalho não consigo arranjar e emprego não ando à procura……. Mas valha-me isso, deixei de pagar impostos.

  2. Se trabalha-se teria um contrato de trabalho e com isso seriam-lhe dados os papeis para a legalizacao.

    Mas como estes refugiados economicos so andam a procura do belo do subsidio, agora reclamam, pq se tiverem e ficar por ca vao ter de trabalhar!!!!!

  3. Isso faz greve, e desaparece se é isso que queres. Nessas condicoes nao farás, cá e em qualquer lugar, falta nenhuma.
    Agora chegares cá e arrogantemente teres a atitude que estás a tomar, o que dizes e como o dizes, é duma ingratidao e pobreza mental do tamanho da tua burrice asnice e irracionalidade.
    Mas sabendo-te islamo-fascista, não esperaria mais nada de ti! Sois todos iguais.

  4. Em regra, não sou favorável á entrada dos sarracenos na Europa, principalmente as RESMAS que entram e de países que não estão em guerra sequer. A julgar pelos comentários que aqui vejo, a maioria do pessoal também não.
    De facto ele não pode estar a reclamar de nada, dado que aqui nós também nos “cozemos” se ficarmos sem nada e não podemos pedir estatuto de refugiados, aliás, se eu tivesse (ou tiver) a infelicidade de ser um sem-abrigo em Portugal metia-me num barco a remos e ia para o mar á espera que a marinha me resgatasse e depois falava meia dúzia de parvoíces em Árabe e pedia asilo, e aí davam-me o tecto, a comida e o emprego que havia perdido… Tal é a parvoeira a que isto chegou…

    Todavia peço a vossa atenção para um pormenor que escapou aos menos atentos… Ele é Yazidi. Os Yazidi, sendo muçulmanos, são de uma seita á parte e acreditam em divindades diferentes dos muçulmanos tradicionais. Consequentemente foram escravizados e mortos ás centenas ou milhares pelo ISIS.
    No Iraque, eles e os Cristãos são, de facto, os ÚNICOS refugiados dignos desse nome.

    Por isso, neste caso particular, e no dos Cristãos Iraquianos ou Sírios acho que devemos ajudar. Se calhar devíamos era ter mais atenção aos outros que de refugiados nada têm…

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