“Não seja tolo!”. Trump enviou carta a Erdogan para resolver conflito com os curdos

David Maxwell / EPA

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump

No dia 9 de outubro, Donald Trump enviou uma carta ao presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, a avisá-lo sobre a incursão da Turquia na Síria. “Não seja um tipo difícil. Não seja tolo!”, escreveu o presidente norte-americano.

Na carta enviada a Erdogan, Trump tenta persuadir o presidente turco a não avançar com a sua invasão à Síria. O conteúdo da carta foi divulgado pela Casa Branca esta quarta-feira.

“Vamos trabalhar num bom negócio! Não quer ser responsável pelo homicídio de milhares de pessoas, e eu não quero ser responsável por destruir a economia turca – e serei. Eu já dei um pequeno exemplo a respeito do Pastor Brunson”, começou por escrever Donald Trump.

Inicialmente, Trump decidiu retirar as tropas norte-americanas do território sírio ocupado pelos curdos, dando espaço para uma invasão turca, a pedido de Erdogan. A decisão do presidente foi muito criticada, dentro e fora dos Estados Unidos, e até pelos seus mais próximos apoiantes no Partido Republicano, com acusações de ter traído os seus aliados, que se viram obrigados a pedir ajuda ao Governo da Síria e da Rússia.

Erdogan ignorou as ameaças dos Estados Unidos e avançou com os ataques. É deste panorama que agora surge a carta de Trump ao presidente turco, cujo conteúdo surpreendeu tudo e todos.

“Trabalhei intensamente para resolver alguns dos seus problemas. Não desiluda o mundo, consegue fazer um ótimo acordo. O general Mazloum está disposto a negociar consigo e disponível para fazer concessões que nunca antes fez. Em anexo segue uma carta confidencial da carta que ele me enviou, acabei de a receber”, lê-se na carta, citada pela Reuters.

A carta termina com um apelo do líder americano, com um tom ameaçador. “A história olhará para si de forma favorável se fizer isto pela via certa e humana. Olhará para si para sempre como o diabo se coisas boas não acontecerem. Não seja um tipo difícil. Não seja tolo! Ligo-lhe mais tarde”.

Curdos “não são uns santos”

Donald Trump disse esta quarta-feira que os curdos na Síria “não são uns santos”, justificando o abandono das tropas norte-americanas da região.

Em declarações aos jornalistas, na Casa Branca, Donald Trump defendeu-se dizendo que “os curdos estão muito bem protegidos” e acrescentou que “não são uns santos”, demitindo-se de responsabilidades na salvaguarda dos seus interesses e rechaçando as acusações de não ficar ao lado de quem ajudou os Estados Unidos.

Poucos dias depois de ter anunciado a retirada das tropas da Síria, Trump tinha dado uma justificação semelhante, para abandonar os curdos, dizendo que eles não tinham ajudado os aliados na luta contra o regime nazi, na II Guerra Mundial, durante o Dia D.

Trump aproveitou ainda para anunciar que as tropas norte-americanas estão “praticamente fora” do nordeste da Síria, onde se verificam os ataques turcos, mas sem esclarecer a posição exata do contingente de cerca de 50 soldados dos EUA que ainda permanece na Síria, com relatos de média norte-americanos de que poderão estar a sul da zona de combate.

“Se a Síria quer lugar para recuperar as suas terras, isso depende deles e da Turquia”, disse Trump, acrescentando que “há muita areia com a qual podem brincar”, referindo-se à região disputada entre os curdos e o Governo de Ancara, no nordeste da Síria.

A Turquia tem atacado posições curdas no nordeste da Síria, desde a passada quarta-feira, para tentar criar uma zona livre das milícias e anunciou hoje que não desistirá da ofensiva, apesar dos apelos da comunidade internacional e da ajuda do Governo sírio que já se instalou na região.

Erdogan, Pence e Pompeo reunidos

O Presidente da Turquia recebe hoje em Ancara o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, e o secretário de Estado, Mike Pompeo, encontro que surge por iniciativa norte-americana para pressionar a suspensão da ofensiva turca na Síria.

Pence e Pompeo estão na capital turca para exigir a suspensão da ofensiva turca no nordeste da Síria e para tentar negociar um cessar-fogo entre as forças turcas e curdas naquela região.

Na quarta-feira de manhã, a realização deste encontro parecia estar comprometida, com Recep Tayyip Erdogan a afirmar, em declarações ao canal Sky News, que não ia reunir-se com Mike Pence e Mike Pompeo e que só falaria com o seu homólogo norte-americano, Donald Trump, “se ele viesse” a Ancara.

Durante quarta-feira à tarde, o diretor de comunicação da Presidência turca, Fahrettin Altun, veio esclarecer, através da rede social Twitter, que Erdogan iria receber a delegação dos Estados Unidos liderada pelo vice-presidente norte-americano.

Na capital turca estão também o conselheiro de segurança nacional, Robert O’Brien, e o enviado especial dos Estados Unidos para a Síria, James Jeffrey.

Apesar do encontro com Pence e Pompeo e da pressão ocidental para a suspensão da ofensiva turca no norte da Síria, Erdogan tem vindo a excluir qualquer negociação com as forças curdas e exigiu que estas deponham as armas e se retirem da fronteira turca.

A ofensiva de Ancara abre uma nova frente na guerra da Síria que já causou mais de 370.000 mortos e milhões de deslocados e refugiados desde que foi desencadeada em 2011.

ZAP // Lusa

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1 COMENTÁRIO

  1. Mais que tolo foi o Trampa em ter ido na conversa do ditador turco – e que deu no que se vê!…
    Primeiro abriu caminho à invasão retirando os militares americanos e agora toma uma posição oposta!…
    Enfim… mesmo a Trump!…
    Mas, mais vale tarde, do que nunca!

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