Bhopal: 30 anos depois do maior incidente industrial da História 600 mil vítimas ainda esperam justiça

Bhopal Medical Appeal / Flickr

Na fábrica Union Carbide, em Bhopal, na Índia, ocorreu o pior desastre industrial até à data: um vazamento de gás altamente tóxico, que envenenou e matou milhares de pessoas.

A fuga de gás na unidade indiana da multinacional Union Carbide, em dezembro de 1984, terá envenenado e levado à morte milhares de pessoas. Este incidente, o maior do género na História, obrigou a empresa a pagar cerca de 470 milhões de dólares de indemnizações. O governo pede agora uma revisão do acordo para incluir mais 470 mil vítimas até então não contabilizadas.

Até hoje é ainda contestado o número de pessoas afetadas pela exposição na noite de 02 para 03 de dezembro de 1984, na qual 40 toneladas do gás mortal isocianato de metila (MIC) saíram da fábrica de pesticidas da Union Carbide India. Agora, o governo indiano reconhece que 574 mil pessoas foram envenenadas e cerca de 5300 morreram.

A empresa – atualmente detida pela multinacional norte-americana Dow Chemical – “não pagou um único cêntimo a quase 470 mil pessoas que foram afetadas“, informou o governo. Essa situação deve-se ao facto de as mesmas não terem sido incluídas no acordo, assinado em 1989 e supervisionado pela Suprema Corte da Índia, que obrigou ao pagamento de 470 milhões de dólares (cerca de 417 milhões de euros) de indemnizações.

O governo indiano, que acalmou alguns protestos públicos ao pagar uma soma adicional às vítimas e suas famílias, em 2010, com recurso ao dinheiro dos contribuintes, apresentou agora uma “petição curativa” à Suprema Corte, pedindo que reconsidere a sua decisão e obrigue a Union Carbide a pagar o valor devido.

Embora a tragédia tenha ocorrido em 1984, “outro grande erro foi também cometido pelo tribunal, em 1989”, afirmou ao Independent Rachna Dhingra, membro do Grupo Bhopal de Ação Informativa, fundado em 1986. Acredita que valor pago “nunca foi suficiente” e o acordo é “inerentemente injusto”, porque minimizava o número de mortos e feridos.

“As pessoas sentem-se enganadas. Em Bhopal, existem algumas áreas onde a cada cinco casas existe um filho com deficiência. Estas pessoas foram deixadas para se defenderem sozinhos, tendo-lhes sido negado o que consideram ser delas por direito em termos de compensação”, referiu.

Para Rachna Dhingra, mesmo aqueles que foram incluídos no acordo de 1989 receberam apenas uma “ninharia”. Sob os termos originais, a indemnização à família por uma morte era de 100 mil rúpias (à volta de 1248 euros).

Bhopal Medical Appeal / Flickr

Vista exterior da Union Carbide, abandonada há vários anos.

A ativista compara o total de 470 milhões de dólares pagos pela Union Carbide aos 21 mil milhões de dólares (quase 19 mil milhões de euros) em que a BP foi multada pelo derramamento de óleo, em 2010, afirmando que, no primeiro caso, as vítimas foram consideradas “seres humanos dispensáveis”.

“A questão da raça é uma parte muito importante. As pessoas aqui são consideradas seres humanos menores, até hoje”, frisou.

A Suprema Corte indiana já rejeitou uma petição anterior do governo, que pedia à Dow Chemical o pagamento de mais 1,2 mil milhões de dólares (aproximadamente mil milhões de euros). Para os ativistas, tendo em consideração os impactos duradouros e generalizados na saúde dessas centenas de milhares de pessoas, a quantia devia ficar próxima de 8,1 mil milhões de dólares (cerca de 7,2 mil milhões de euros).

A nova petição será examinada em abril e Rachna Dhingra confessou que as ONG’s “estão esperançosas”. Depois de escrever ao governo local todos os meses nos últimos oito anos, esperam que os seus dados sobre o número de feridos sejam, finalmente, considerados.

Um porta-voz da Union Carbide declarou que a empresa pretende “defender-se vigorosamente”, acreditando que a decisão da Suprema Corte sobre o acordo, em 1989, é “justa, equitativa e razoável”, com base no argumento de que “todo e qualquer solicitante recebeu indemnização conforme a lei”.

“A fuga de gás de 1984, em Bhopal, foi uma tragédia terrível que continua a evocar fortes emoções, mais de três décadas depois. Contudo, permitir que essas emoções obscureçam a linha de racionalidade e absorvam o filtro da lógica não é apenas errado, como também envia uma forte mensagem de que o governo indiano não honra o Estado de Direito e seus próprios compromissos”, disse ainda o porta-voz.

Ao Independent, alguns sobreviventes, moradores dos bairros mais pobres de Bhopal, contaram que, quando o gás mortal isocianato de metila (MIC) começou a infiltrar-se nas suas casas de palha e de madeira, saíram das mesmas, a tossir e com os olhos a arder.

Bhopal Medical Appeal / Flickr

No dia 03 de dezembro de 2016, no 32º aniversário do desastre de Bhopal, centenas de sobreviventes marcharam, em protesto contra Union Carbide.

De acordo com o jornal americano, o pânico instalou-se quando “as pessoas começaram a cair mortas nas suas casas e na rua, sufocando no próprios fluídos corporais”. A maioria correu na direção do único hospital de relevo da região, sem saber que a fábrica, que se encontrava na mesma direção, era a fonte do gás.

Um dos exemplos é o de Shehzadi Bee, de 63 anos, que morava com os seus quatro filhos pequenos numa casa improvisada na Colónia da Lua Azul, perto da estrada principal que levava à fábrica de pesticidas.

O seu bairro foi um dos primeiros atingidos pela nuvem de gás que se espalhou pela cidade. A vítima disse que, ao ouvir os gritos de desespero que vinham do exterior, retirou os filhos de casa e teve a sorte de encontrar um camião que estava evacuando as pessoas.

“Assim que embarcamos, deparamo-nos com uma cena horrível. Todos os que iam no camião estavam com problemas respiratórios, com os olhos queimados, a vomitar e a perder fezes. Ninguém sabia o que estava a acontecer”. Aos poucos, “foram ficando inconscientes. Vimos pessoas a morrer dentro do camião, diante de nossos olhos”.

O transporte levou-os até Lal Ghati, uma área próxima ao aeroporto e distante da fuga do gás. O seu marido passou dois meses no hospital. Desde dor torácica crónica até perda de visão, a família sofreu “vários problemas de saúde” nos anos seguintes. Receberam uma compensação de 25 mil rúpias (cerca de 312 euros), fracionada ao longo de cinco anos.

Na altura do incidente, Aziza Sultana tinha 20 anos de idade. Estava grávida e dormia em casa, com os seus outros dois filhos, a apenas um quilómetro da fábrica da Union Carbide, quando acordaram a tossir e a vomitar. Correram até ao hospital mais próximo, que estava abandonado. Acabou por desmaiar, numa pilha de lixo, e, em algum momento “durante o calvário”, sofreu um aborto espontâneo.

“Desde aquela noite, seis membros da minha família sofreram problemas respiratórios a longo prazo e sete ficaram doentes com cancro. Os meus dois filhos também desenvolveram deficiências e, após o aborto espontâneo, o meu marido e eu decidimos nunca ter um terceiro filho”, revelou.

A família de Aziza Sultana recebeu uma compensação de 50 mil rúpias (624 euros), o que não foi o suficiente, estando até hoje a sofrer devidos aos efeitos da tragédia.

Taísa Pagno Taísa Pagno, ZAP //

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