Surto de sarampo leva Samoa a fechar escolas e serviços. Ativista anti-vacinação detido

Com o objetivo de conter o surto de sarampo que já matou 60 pessoas, o governo de Samoa está a pedir à população que coloque uma bandeira vermelha em frente às casas nais as pessoas não foram vacinadas. Um novo relatório da UNICEF mostra que as taxas de vacinação caíram drasticamente no país nos últimos anos.

As autoridades pediram na terça-feira à população que pendurasse bandeiras ou roupas vermelhas em frente às casas onde as pessoas não foram vacinadas, para ajudar as equipas que compõem a campanha de vacinação em massa de porta em porta, noticiou a Science Alert.

O governo planeia vacinar toda a população do país, enquanto encerra os “setores público e privado” – a mais recente medida para combater o surto.

De acordo com um novo relatório da UNICEF, as taxas de vacinação em Samoa caíram drasticamente nos últimos anos. A cobertura “caiu de 58% em 2017 para apenas 31% em 2018, em grande parte devido à desinformação e desconfiança entre os pais”. São necessárias taxas de vacinação de pelo menos 95% para evitar surtos.

A vacinação será gratuita para todos os samoanos que tenham entre seis meses a 60 anos, informou o governo. Contudo, a principal prioridade são as crianças com menos de quatro anos, que correm um maior risco de complicações mortais e têm também as menores taxas de vacinação.

Dos mais de quatro mil casos relatados, 171 foram registados na sexta-feira e, desses, 90 envolveram crianças de quatro ou menos anos. A maioria das mortes são também desse grupo etário.

Na quarta-feira, o primeiro-ministro de Samoa, Tuilaepa Sailele Malielegaoi, prometeu  aumentar a cobertura de vacinação de 55% para 90%, informou a BBC. “As nossas crianças e demais cidadãos nunca se tornarão imunes a uma epidemia futura, a menos que tenhamos quase 100% de cobertura”, disse, numa visita ao hospital.

Para René Najera, epidemiologista da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg e editor do site educacional History of Vaccines, o governo de Samoa tomou as medidas necessárias para combater um surto que terá adoecido mais de 2% da população.

Escolas foram fechadas, clínicas móveis foram enviadas para vacinar a população e houve um aumento do programa de conscientização, que engloba fotografias dos líderes – incluindo o primeiro-ministro -, a serem vacinados.

O governo tem também lutado contra a desconfiança pública, depois que uma vacina incorretamente misturada com um relaxante muscular levou à morte de dois bebés, com duas enfermeiras a serem condenadas por homicídio culposo e com uma queda nas vacinações no ano passado.

Depois deste incidente, grupos anti-vacinação espalharam informações falsas em Samoa, bem como entre as comunidades de samoanos que vivem nos Estados Unidos (EUA) e na Nova Zelândia, referiu René Najera.

Segundo René Najera, são necessárias cerca de 93% de cobertura de vacinação para evitar um surto de sarampo numa comunidade. O governo espera que as bandeiras vermelhas acelerem o empreendimento de porta em porta, enquanto persegue esse objetivo.

“Precisamos de toda a ajuda possível”, disse Ulu Bismarck Crawley, presidente do Comité Consultivo para Desastres, reportou o Samoa Observer.

René Najera nunca tinha ouvido falar da utilização de bandeiras para indicar os locais onde as pessoas precisam de vacinação. A tática de Samoa é uma adaptação da antiga prática usada para designar áreas infetadas, parte de uma estratégia de “quarentena” que os especialistas dizem ter muitas falhas.

Historiadores indicam que esta prática surgiu em meio à peste negra que devastou a Europa na Idade Média, matando cerca de 50 milhões de pessoas. A doença chegou à América em estabelecimentos como tabernas e bordéis, marcados por varíola e visitados por marinheiros infetados, explicou René Najera.

Para combater um surto de febre amarela em 1888, as autoridades da Florida, nos EUA, também ergueram bandeiras amarelas nas casas atingidas, colocando vários guardas em cada uma dessas habitações e isolando as “áreas de infeção” com uma corda.

“Historicamente, as quarentenas não funcionaram”, disse René Najera, atribuindo a propagação contínua de doenças, em parte, ao fato de muitas pessoas não perceberem que têm doenças como sarampo e gripe até já estarem contagiadas há algum tempo.

Julien Harneis / wikimedia

Ativista anti-vacinação detido

Devido ao surto de sarampo, as autoridades samoanas detiveram o ativista anti-vacinação Edwin Tamasese, acusado de não obedecer a uma ordem do governo, revelou a BBC, citada pela NPR. Segundo o governo, os defensores da não vacinação complicaram os seus esforços para controlar a doença.

“Vamos trabalhar juntos para convencer aqueles que não acreditam que as vacinas são a única resposta para a epidemia. Não nos distraiamos com a promessa de curas alternativas”, disse o primeiro-ministro Tuilaepa Sailele Malielegaoi, na passada semana.

O movimento anti-vacinação “infelizmente está a atrasar-nos”, referiu ao 1 News Now o ministro da Comunicação de Samoa, Afamasaga Lepuiai Rico Tupai. “Descobrimos que é a mensagem do anti-vaxx que chega a essas famílias. O que lhes dizemos é: ‘Não fique no caminho do governo. Não contribua para o número crescente de mortes’“.

Enquanto estava a ser detido, Edwin Tamasese escreveu no Facebook uma publicação contra a vacinação, alegando falsamente que uma combinação de vitamina C e ascorbato de sódio pode curar a doença. “Isso vai salvar os seus filhos”, publicou, antes de as autoridades confiscarem o seu telemóvel.

As autoridades informaram que o ativista ignorou os avisos anteriores para interromper a sua campanha contra a vacinação e que a sua fiança foi negada. Edwin Tamasese vai passar o tempo restante da campanha de vacinação detido, aguardando a próxima data de julgamento disponível, e pode enfrentar até dois anos de prisão, caso seja condenado.

O ativista é gerente de um coletivo de plantadores de coqueiros em Samoa e defensor da não vacinação, tendo conquistado seguidores internacionais, revelou a Ars Technica. Embora não tenha formação médica ou científica, questiona a segurança de vacinas e afirma ser um “Samoan Taulasea” [curandeiro tradicional].

Just before my phone gets taken 1000mg vit C sodium ascorbate taken dissolved in 1/4 cup water every 3 hours. This will…

Publicado por Edwin Tamasese em Quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Porém, um “Samoan Taulasea” explicou ao Stuff que usa recursos naturais da região para tratar doenças tropicais. “Com doenças como o sarampo, deve-se ir ao hospital. Não temos plantas que possam curar isso”, notou, acrescentando que, nesses casos, os curandeiros trabalham “de mãos dadas com medicamentos ocidentais”.

Em entrevistas, Edwin Tamasese contou ter tratado até 70 pessoas e incentivou inúmeras outras a evitar vacinas e hospitais.

Segundo um porta-voz do governo, esse conselho é uma das “principais razões” para o crescente número de mortes decorrentes do surto. “Muitas pessoas mantêm os filhos em casa até que não haja mais nada e só vão ao hospital em último recurso. Algumas chegam ao hospital e nada pode ser feito, então a lei está a ser quebrada”, afirmou.

A coordenadora da Organização das Nações Unidas (ONU) na região, Simona Marinescu, declarou quinta-feira que o surto atual é “um dos maiores desafios que o país experimentou na sua história recente”. Na semana passada, o governo samoano pediu ajuda à ONU para controlar a epidemia.

Ainda na quinta-feira, o diretor regional do UNICEF, disse à AFP que os gigantes das redes sociais, como o Facebook e o Twitter, são “incrivelmente irresponsáveis” por permitirem que informações erradas se espalhem nas suas plataformas, lê-se no Raw Story.

O sarampo é uma doença extremamente contagiosa, o que dificulta a luta contra um surto. O vírus pode permancer até quatro horas numa sala onde um doente tenha estado, levando a que qualquer pessoa que passe pela mesma durante esse período tenha grandes probabilidades de contrair a doença.

A crise de sarampo em Samoa ocorre durante um ressurgimento global da doença evitável. A Organização Mundial da Saúde estima quase 10 milhões de casos de sarampo no ano passado e 140 mil mortes.

Taísa Pagno ZAP //

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2 COMENTÁRIOS

  1. O sarampo tal como a febre são processos naturais há milhões de anos. Já tive disso e passou naturalmente. Nada de mais. Não é preciso histerismo.

    • Pois é TJ… O histerismo e propaganda do medo vem das farmacêuticas, que estão a perder MILHÕES, pois muita gente já percebeu o embuste.
      Já reparou que é sempre o Sarampo o mau da fita?…
      As vacinas podiam ser muito melhor do que são actualmente, se não adicionassem venenos nocivos, que vão provocar outras doenças e que ninguém associa à vacinação, porque estão todos formatados para pensar que são inócuas. Não podia estar mais longe da verdade.

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