“Só aumentariam as insuficiências”. Médicos respondem a carta aberta da Ordem que pede uso dos privados

Giuseppe Lami / EPA

Um grupo de médicos respondeu à carta aberta assinada pelo atual bastonário da Ordem dos Médicos e quatro ex-bastonários, que defendem uma maior utilização dos serviços de saúde privados para responder à situação gerada pela pandemia de covid-19.

De acordo com o Observador, o grupo, onde se incluem Ana Jorge, ex-ministra da Saúde, Isabel do Carmo, antiga dirigente da Ordem dos Médicos, e João Goulão, Coordenador Nacional para os Problemas da Droga, não se sente representado pela carta assinada pela Ordem dos Médicos. “Poderá haver médicos concordantes com essa carta, por coincidirem com os seus objetivos. Nós não. Não nos sentimos representados”, afirmam na carta publicada no jornal Público.

O atual e cinco antigos bastonários da Ordem dos Médicos escreveram uma carta aberta sobre a urgente mudança de estratégia do SNS e entrada dos privados na resposta à pandemia e à saúde em geral. A esta, a ministra da Saúde, Marta Temido, respondeu com uma pergunta: “Porque é que nos estão a empurrar?”.

Agora, segundo este grupo de médicos, a proposta expressa pelo bastonário e outros membros e ex-membros da Ordem só aumentaria “as insuficiências que se apontam ao SNS, bem como o que os portugueses teriam de pagar pela sua saúde”.

A carta amplia “em tom alarmista” as dificuldades do SNS, “sobretudo derivadas da pandemia”, para com isso defender a utilização de serviços privados.

Sendo a Ordem dos Médicos “uma entidade de direito público, de inscrição obrigatória”, o grupo lembra que “as posições expressas pelos seus órgãos eleitos têm de corresponder ao máximo denominador comum” e que “não é lícito” que “a natural credibilidade da Ordem dos Médicos seja mobilizada para as posições pessoais de ex-bastonários e do seu bastonário atual. Descrevendo um ambiente de perigo iminente, vaticinando a falência do SNS e amplificando as suas dificuldades, desassossegando e perturbando a saúde mental das famílias e, sobretudo, das pessoas mais idosas e isoladas”, lê-se.

“É bom que se tenha respeito pelas verdadeiras tragédias. É bom que se contribua para a perceção do risco de forma racional e transmitindo a serenidade necessária a quem de facto tem de fazer escolhas todos os dias e tomar as precauções para prevenir o contágio”, escreveram.

Defendendo a “estrutura” e o espírito do SNS, os médicos explicam “a resposta exemplar” durante a primeira vaga que, na sua opinião, não se deveu apenas “à abnegação dos médicos e outros profissionais”.

Estes médicos consideram que recorrer ao privado é “levar o SNS a comprar (ainda mais) serviços aos estabelecimentos privados, aqueles que, no início da crise, praticamente fecharam, logo disseram que não recebiam doentes com covid-19 e enviaram grávidas positivas para os serviços públicos”.

“A concretização da proposta de operacionalização do chamado ‘sistema’ de saúde’, com ‘normalização’ da compra de serviços de saúde a prestadores privados, subverteria o conceito constitucional do Serviço Nacional de Saúde. O sentido da melhoria do SNS é exatamente o contrário: reforço da capacidade interna, para melhor servir a população em todas as necessidades de saúde e não apenas nas que dão lucro”, concluem.

ZAP //

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2 COMENTÁRIOS

  1. Muito bem!!
    Ainda se está para perceber quais os interesses defendidos pelo Bastonário da Ordem dos Médicos e amigos – o SNS e a saúde dos portugueses já percebemos que não são!!

  2. Eu se fosse o bastonário sentir-me-ia muito envergonhado depois de ler esta carta e poria o cargo à disposição de quem melhor o soubesse desempenhar. Então o sr. bastonário vem para a praça pública defender os interesses do sector privado esquecendo os interesses dos mais desfavorecidos, mais atingidos pela pandemia, achando que nada deve ao sector público? E a sua formação? Foram os privados que para ela contribuíram? O SNS da saúde precisa de ajudas e não de despesas extras! É impossível que não haja um jogo de interesses por trás disto tudo! E esta é que é a verdadeira tragédia.

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