“Sangue nas nossas mãos”. Cidade associada à paz vai investir 35 milhões em base para empresa de armas

Saffron Walden, em Essex, é uma cidade mercantil medieval que, devido à sua herança quaker, é há muito tempo associada à paz e ao pacifismo. Agora, a cidade planeia investir 35 milhões de libras de dinheiro público no desenvolvimento de uma nova base de manufatura para uma empresa global de armas.

De acordo com o jornal britânico The Independent, o conselho distrital de Uttlesford vai investir 35 milhões de libras dos contribuintes numa instalação de 56 mil quilómetros quadrados, como parte de um novo portfólio de propriedades com o objetivo de gerar receitas futuras.

A autoridade de Essex vai financiar a construção do complexo, localizado em Tewkesbury, Gloucestershire, e alugá-lo-á durante mais de 35 anos a uma empresa de defesa, que se recusou a identificar publicamente.

Os opositores do projeto apontam que a empresa será a fabricante norte-americana Moog, que recentemente aclamou a sua nova base de Tewkesbury “de última geração”, com inauguração prevista para 2023.

Moradores de Uttlesford expressaram horror sobre o acordo que efetivamente levará o seu imposto municipal a financiar uma empresa que vende armas de guerra em todo o mundo e que, no seu site, se orgulha de desenvolver tecnologia de “um tiro, uma morte”.

Segundo o jornal britânico, há quem aponte que a Moog, especializada em mísseis e caças, já vendeu produtos para países como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos – duas autocracias do Médio Oriente acusadas de massacrar civis na guerra no Iémen.

O projeto, chamado de “Oportunidade de Investimento 12”, fará com que a autoridade use o seu estatuto de classificação soberana para emprestar 35 milhões de libras a taxas extremamente baixas oferecidas apenas a órgãos públicos.

Em seguida, fará uma parceria com a Barberry Industrial e investirá esse dinheiro no desenvolvimento das instalações de Tewkesbury. Depois de concluído, Moog mudar-se-á para o local e pagará o aluguer ao município sob um contrato de arrendamento de 35 anos.

A nova instalação – descrita como “uma fábrica aeroespacial de última geração e instalação de design” – já tem permissão de planeamento do Tewkesbury Borough Council. A construção está prevista para começar nos próximos meses.

Os opositores lançaram uma petição, exigindo que o conselho – administrado pelo grupo local Residents For Uttlesford – cancele estes planos.

“Há tantas propriedades e negócios em que poderíamos investir, de modo que formar uma parceria eficaz com uma empresa de armas que lida com alguns dos regimes mais abomináveis ​​do mundo é nada menos do que escandaloso”, disse Daniel Brett, conselheiro paroquial e responsável pela petição.

“O conselho tem feito o possível para manter isto em sigilo, porque sabe muito bem que as pessoas ficariam enojadas se o dinheiro estivesse a ser usado dessa forma. Como um distrito, isso colocaria sangue nas nossas mãos – é tão simples quanto isso”, disse.

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Num lugar com ligações tão específicas aos movimentos quakers – grupos religiosos conhecidos pela defesa do pacifismo e da simplicidade -, a mudança “era especialmente insensível”, acrescentou Brett.

Paul Fairhurst, líder do Partido Verde no Conselho Distrital de Uttlesford, está entre os que pedem que a decisão seja reconsiderada.

“É totalmente inapropriado”, disse. “Órgãos públicos que lidam com o dinheiro das pessoas precisam de obedecer a um padrão ético muito alto e não acho que alguém possa argumentar que investir neste tipo de indústria faz isso.”

Os Verdes e o partido Lib Dem local já tinham apresentado uma moção para o conselho implementar imediatamente uma nova política de investimento ético.

A empresa é descrita pela Campanha Contra o Comércio de Armas como a “93.ª maior empresa de armas e serviços militares fora da China”.

Em resposta aos planos do conselho, a Campanha Contra o Comércio de Armas disse estar preocupada. “O CAAT acredita que a pressão financeira, incluindo o desinvestimento, pode ser uma ferramenta valiosa para se opor às atividades prejudiciais da indústria de armas”, disse um porta-voz.

“Instamos qualquer autoridade local que decidir a sua política de investimento a considerar o impacto prejudicial do comércio de armas, do qual a Moog participa, sobre a paz global e os direitos humanos, e evitar investir nisso e desfazer-se de participações existentes na indústria de armas”, concluiu.

  Maria Campos, ZAP //

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