De Salvador Dalí a Robert Montgomery. Mais de 50 artistas salvos do nazismo por Aristides de Sousa Mendes

Carlos Botelho / Flickr

Aristides Sousa Mendes por Carlos Botelho

Mais de meia centena de músicos, atores, escritores, jornalistas foram salvos do Holocausto por Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus em 1940, que emitiu vistos a milhares de pessoas em fuga, revela a investigadora Ana Cristina Luz.

“A Lista de Aristides de Sousa Mendes”, agora publicada em livro, conta a história dos fugitivos que receberam um visto do cônsul para viajarem até Portugal, seguindo depois para países da América do Sul, para os Estados Estados Unidos da América e o Canadá, onde prosseguiram carreiras ligadas às artes e à cultura.

O pintor Salvador Dalí e a mulher Gala, o ator norte-americano Robert Montgomery, o pianista polaco Witold Malcuzynski e a escritora francesa Tereska Torrès são alguns dos casos que constam da lista organizada por Ana Cristina Luz, de Leiria, no âmbito do trabalho de mestrado em Mediação Cultural e Literária, da Universidade do Minho.

“Quis dar a conhecer as pessoas a quem Aristides de Sousa Mendes passou os vistos e que estivessem ligadas à cultura. Ele permitiu-lhes que continuassem as suas vidas e carreiras, interferiu positivamente na vida destas pessoas”, explicou à agência Lusa a investigadora.

No livro “Um Homem Bom”, de 2009, de Rui Afonso, o mesmo autor de “Injustiça: O Caso Sousa Mendes”, são apontados alguns nomes, mas Ana Cristina Luz foi à procura de mais, “entre os cerca de 30 mil vistos que, calcula-se depois do cruzamento de diversas fontes, ele e as pessoas que com ele trabalhavam tenham passado”.

A pesquisa revelou “nomes incríveis”. O mais sonante é Salvador Dalí, mas “há muitos outros”. Por exemplo, Ivan Sors, que viveu na Figueira da Foz e inspirou o livro de Afonso Cruz “O pintor debaixo do lava-loiça”, porque ficou alojado em casa dos avôs do escritor e se escondia sempre que alguém batia à porta”.

Ou Hendrik Marsman, poeta holandês que morreu na viagem de Portugal para Inglaterra, autor do melhor poema do século XX “segundo um grupo de críticos holandeses”, conta Ana Cristina Luz à agência Lusa.

Também há o caso do escultor de origem russa Naoum Aronsom, autor de um baixo-relevo de Beethoven, que está no Conservatório de Lisboa, “um dos poucos que pôde fazer o busto de Rasputine, que posou para ele”.

Ou a mãe de Huey Lewis, da banda Huey Lewis and the News, que recebeu, com os pais, um visto de Aristides de Sousa Mendes, que permitiu que viajassem para os Estados Unidos da América. “É graças a ele que hoje podemos ouvir a música do Huey Lewis”.

Além disso, acrescenta Ana Cristina Luz, muitos destes artistas influenciaram outros.

A pianista Maria João Pires confirmou-lhe a admiração e influência que Malcuzynski teve no seu trabalho, por exemplo. O interesse da investigadora com o caso do cônsul de Portugal em Bordéus, que desobedeceu à ditadura de Oliveira Salazar, começou cerca de 2000 quando, por acaso, encontrou em Cabanas de Viriato, no concelho de Carregal do Sal, distrito de Viseu, uma placa de agradecimento e a casa que pertenceu a Sousa Mendes. “Desde logo fiquei apaixonada pela história”, disse à Lusa.

Desde então tem participado em cerimónias evocativas e falado em escolas da obra humanista do cônsul, a alunos. Em 2012 lançou mesmo um livro para o público infantojuvenil, “Aristides, O Semeador de Estrelas”.

14 anos para “reconhecer o legado”

Ana Cristina Luz lamenta, contudo, que tenham sido precisos 14 anos, depois do 25 de Abril, para “reconhecer o legado de Aristides de Sousa Mendes”.

“Só 14 anos depois o nome dele foi levado à Assembleia da República, no sentido de ser reabilitado”. Em Portugal, critica, as homenagens “vêm sempre um pouco a reboque de homenagens feitas no estrangeiro ou por estrangeiros”.

Mesmo sendo “um facto inegável que Aristides de Sousa Mendes agiu de consciência na tentativa de salvar o máximo de pessoas possível”, ainda hoje há “vozes que tentam denegrir” a sua imagem. A investigadora justifica-o com “o poder da ditadura e do esquecimento” que “é muito forte” e, por isso, “o nome de Aristides de Sousa Mendes desapareceu do nosso dia a dia”.

“Não há na nossa história uma pessoa como ele. Há quem considere um dos maiores atos de salvamento levados a cabo por uma pessoa. Deveria ser um nosso orgulho maior!”.

O lançamento de “A Lista de Aristides de Sousa Mendes” está agendado para 19 de julho, dia do nascimento de Aristides de Sousa Mendes, na sua antiga habitação, a Casa do Passal, em Cabanas de Viriato.

“Aristides de Sousa Mendes, O Cônsul Injustiçado”, documentário de 1992, da jornalista Diana Andringa, com a realizadora Teresa Olga e a produtora Fátima Cavaco, da RTP, e a biografia “Injustiça: O Caso Sousa Mendes”, de Rui Afonso, publicada em 1990, estão entre as primeiras obras surgidas em Portugal a resgatar a memória e a ação do cônsul de Portugal em Bordeús, quando as forças nazis de Hitler ocupavam França e iniciavam a deportação, no território, para os campos de concentração.

  // Lusa

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