As rugas nos dedos causadas pela água têm benefícios surpreendentes (e dão pistas sobre a nossa saúde)

Nicole Hanusek / Flickr

A pele da ponta dos nossos dedos fica enrugada como uma ameixa seca quando os mergulhamos por alguns minutos na água. Seria uma adaptação evolutiva? E o que isso pode revelar sobre a nossa saúde hoje em dia?

Basta ficar mais que alguns minutos mergulhado numa banheira ou a nadar numa piscina para que os nossos dedos passem por uma transformação dramática. Onde antes havia as delicadas espirais da epiderme levemente ondulada, agora temos dobras inchadas de pele feia e enrugada.

Essa impressionante mudança é familiar, mas também desconcertante. Afinal, apenas a pele dos dedos das mãos e dos pés fica enrugada quando imersa na água, enquanto outras partes do corpo, como os antebraços, o tórax, as pernas e o rosto, permanecem com a mesma aparência de antes de serem submersos.

Esse enrugamento da pele dos dedos causado pela água foi objeto de pesquisa dos cientistas por décadas. A maioria não entendia o que gerava esse fenómeno. Até agora. Recentemente, investigadores encontraram novas respostas sobre a causa e o possível propósito desse processo.

Mas talvez o mais intrigante ainda seja o que os dedos enrugados podem revelar sobre a nossa saúde.

O mecanismo

Leva cerca de 3,5 minutos em água morna — a temperatura considerada ideal é 40 °C — para que as pontas dos nossos dedos comecem a se enrugar. Já em temperaturas mais baixas, de cerca de 20 °C, pode levar até 10 minutos. Mas a maioria dos estudos concluiu que são necessários cerca de 30 minutos na água para atingir o enrugamento máximo.

Costumava-se acreditar que o enrugamento da ponta dos dedos fosse uma reação passiva, na qual as camadas superiores da pele inchavam enquanto a água invadia as células em um processo conhecido como osmose. Nele, as moléculas de água movem-se através de uma membrana para igualizar a concentração das soluções de cada lado.

Mas, em 1935, cientistas suspeitaram que o processo deveria ser mais complexo. Foi quando médicos que estudavam pacientes lesionados que haviam rompido o nervo mediano — um dos principais nervos que correm pelo braço até a mão — descobriram que seus dedos não se enrugavam.

Entre outras funções, o nervo mediano ajuda a controlar as chamadas atividades simpáticas (do sistema nervoso simpático), como o suor e a constrição dos vasos sanguíneos. Essa descoberta sugeriu que o enrugamento das pontas dos dedos induzido pela água, na verdade, é controlado pelo sistema nervoso.

Estudos médicos posteriores nos anos 1970 forneceram mais evidências sobre esse processo e propuseram a imersão das mãos na água como um experiência para determinar lesões nervosas que possam afetar a regulação de processos inconscientes, como o fluxo sanguíneo.

Até que, em 2003, os neurologistas Einar Wilder-Smith e Adeline Chow, que na época trabalhavam no Hospital da Universidade Nacional de Singapura, mediram a circulação sanguínea nas mãos de voluntários enquanto as mergulhavam na água e concluíram que, à medida que a pele das pontas dos dedos dos voluntários começava a enrugar-se, havia uma queda significativa do fluxo sanguíneo nos dedos.

E, ao aplicar um creme anestésico local que causava a constrição temporária dos vasos sanguíneos dos dedos de voluntários saudáveis, os médicos concluíram que este produzia níveis de enrugamento similares à imersão na água.

O padrão das rugas depende da forma em que a camada mais exterior da pele — a epiderme — é fixada às camadas abaixo dela.

Também surgiram indicações de que as camadas externas da pele podem inchar um pouco para aumentar a formação de rugas. Mas, somente por osmose, a nossa pele precisaria de inchar cerca de 20% para atingir as rugas que vemos os nossos dedos.

O que ocorre é que, quando as camadas superiores da pele ficam levemente inchadas e os níveis inferiores se contraem ao mesmo tempo, as rugas ficam pronunciadas com muito mais rapidez, segundo Pablo Saez Viñas, engenheiro de biomecânica da Universidade Técnica da Catalunha, na Espanha, que usou modelos computadorizados para examinar o mecanismo.

“Precisa dos dois fatores para ter níveis normais de enrugamento”, segundo ele. “Se não tiver essa reação neurológica, como acontece em alguns indivíduos, as rugas não aparecem.” Mas, se o enrugamento é controlado pelos nossos nervos, isso significa que o nosso corpo reage ativamente à imersão em água.

“O que quer dizer que isso acontece por alguma razão“, segundo Davis. “E que pode estar a dar-nos alguma vantagem.”

Vantagem

Uma pergunta de um dos seus filhos na hora do banho — por que os dedos ficam enrugados — levou Davis a pesquisar recentemente qual poderia ser essa vantagem.

Com a ajuda de 500 voluntários que visitaram o Museu de Ciências de Londres em 2020, Davis mediu quanta força era necessária para que eles segurassem um objeto de plástico.

Talvez conforme o esperado, aqueles que estavam com as mãos secas e sem rugas precisaram usar menos força que as pessoas com as mãos molhadas – logo, sua aderência sobre o objeto era melhor.

Mas, quando eles mergulharam suas mãos na água por alguns minutos para que suas mãos ficassem enrugadas, a força de preensão necessária caiu entre os dois grupos, mesmo se as suas mãos ainda estivessem molhadas.

“O resultado foi surpreendentemente claro”, explica Davis. “As rugas aumentaram a fricção entre os dedos e o objeto. O que foi particularmente interessante é que os nossos dedos são sensíveis a essa mudança da fricção superficial e nós usamos essa informação para aplicar menos força para segurar um objeto com segurança.”

“Se não precisa de pressionar um objeto com tanta força para o segurar, os músculos das suas mãos ficam menos cansados e pode segurá-lo por mais tempo”, explica.

As suas descobertas coincidem com as de outros investigadores que descobriram que o enrugamento das pontas dos nossos dedos facilita o manuseio de objetos molhados.

Em 2013, uma equipa de neurocientistas da Universidade de Newcastle, no Reino Unido, pediu aos voluntários que transferissem berlindes de diversos tamanhos e pesos de um recipiente para outro. Num dos casos, os objetos estavam secos e, no outro, eles estavam no fundo de um recipiente cheio de água.

Os participantes levaram 17% mais tempo para transferir os objetos submersos com dedos sem rugas que os objetos secos. Mas, quando os seus dedos ficaram enrugados, conseguiram transferir as bolinhas e os pesos submersos 12% mais rápido que com seus dedos molhados e não enrugados. Não houve diferença na transferência dos objetos secos com dedos enrugados ou sem rugas.

Isto indica que os seres humanos podem ter evoluído para enrugar os dedos das mãos e dos pés para nos ajudar a segurar objetos e andar sobre superfícies húmidas. As rugas podem ter dado aos nossos antepassados uma vantagem fundamental para andar sobre pedras molhadas ou segurar-se em galhos, por exemplo. Ou podem ter ajudado a apanhar alimentos como mariscos.

“No segundo caso, isso indicaria que é algo exclusivo dos seres humanos, mas, no primeiro caso, esperaríamos que isso acontecesse também em outros primatas“, afirma Tom Smulders, neurocientista evolutivo que liderou o estudo de 2013.

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Ainda não foi observado enrugamento dos dedos nos nossos parentes primatas mais próximos, como os chimpanzés, mas já se verificou que os dedos dos macacos-japoneses — conhecidos por ficarem por longos períodos na água quente — também ficam enrugados depois de submersos na água.

Mas a falta de evidências noutros primatas não significa que o enrugamento não acontece. Pode ser simplesmente que ninguém ainda tenha observado o suficiente, segundo Smulders. Na verdade, “nós ainda não sabemos a resposta a essa pergunta.”

Existem outras indicações interessantes sobre quando essa adaptação pode ter aparecido na nossa espécie. O enrugamento da ponta dos dedos é menos pronunciado na água salgada e leva mais tempo para aparecer que na água doce.

Isso provavelmente acontece porque a variação do nível de sal entre a pele e o ambiente ao seu redor é menor na água salgada, de forma que o desequilíbrio de sal que aciona as fibras nervosas é menos acentuado. Por isso, essa adaptação pode ter ajudado nossos ancestrais a viver em ambientes de água doce e não no litoral.

Um teste à saúde

Existem ainda outros mistérios em torno do enrugamento dos dedos. As mulheres levam mais tempo para desenvolver rugas nos dedos que os homens, por exemplo. E qual o motivo exato que leva nossa pele a voltar ao seu estado normal depois de 10-20 minutos, se ter pontas dos dedos enrugadas não traz nenhuma desvantagem clara para a aderência dos dedos sobre objetos secos?

Um motivo pode ser a mudança de sensação causada pelo enrugamento. As pontas dos nossos dedos possuem muitas terminações nervosas e o enrugamento da pele altera a forma como sentimos os objetos que tocamos (embora um estudo tenha demonstrado que isso não afeta nossa capacidade de diferenciar objetos pelo toque).

Mas o mais surpreendente é que o enrugamento dos dedos das mãos e dos pés na água pode também revelar informações fundamentais sobre a nossa saúde.

As rugas levam mais tempo para formar-se em pessoas com condições da pele como psoríase e vitiligo, por exemplo. Já pacientes com fibrose cística sofrem enrugamento excessivo das palmas da mãos e dos dedos, o que já chegou a ser observado em portadores genéticos da doença.

Pacientes que sofrem de diabetes tipo 2, às vezes, também demonstram níveis sensivelmente reduzidos de enrugamento da pele quando as suas mãos são colocadas na água. Reduções similares do enrugamento foram observadas em pessoas que sofreram paragens cardíacas, talvez devido a alguma interrupção no controle do seu sistema cardiovascular.

O enrugamento assimétrico dos dedos — uma das mãos enruga-se menos que a outra no mesmo tempo de imersão — já foi até indicado como sinal precoce do mal de Parkinson, por indicar que o sistema nervoso simpático não está funcionando corretamente em um dos lados do corpo.

Tudo isso mostra que a questão sobre o motivo do enrugamento dos dedos na água permanece sem resposta, mas nossos dedos enrugados estão sendo úteis para os médicos em outras formas igualmente inusitadas.

  ZAP // BBC

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