Rio abre o jogo sobre o futuro do PSD. Não se recandidata se fizer “igual, pior ou muito pouquinho melhor”

ppdpsd / Flickr

O presidente do PSD, Rui Rio

Líder social-democrata deu a conhecer o que é, para o próprio, um bom resultado nas próximas autárquicas, recusou-se a falar sobre as movimentações internas no PSD, expôs o papel do partido na votação do OE para 2022 e antecipou as legislativas de 2023 frente a António Costa — caso ainda se mantenha no cargo.

Rui Rio abriu o jogo e deu a conhecer aos seus críticos, possíveis adversários e ao público em geral os seus planos enquanto líder do PSD após 26 de setembro, data das eleições autárquicas. Em entrevista à Rádio Renascença, Rio colocou de parte a hipótese de se demitir, independentemente do resultando, admitindo, porém, a possibilidade de não se recandidatar a presidente do PSD, justificando a postura com a coerência que tem apelado para si e para os outros.

“Estamos no ponto zero e no domingo ou na segunda estamos no ponto 1. Se a diferença entre o ponto zero e o 1 for praticamente nenhuma, se o resultado de 2021 for idêntico ao de 2012 que eu disse que foi mau, o que é que eu vou fazer? Dada a importância que atribuo às eleições autárquicas de 2021 para a implementação do partido e para uma nova dinâmica no que concerne à oposição nacional, tenho de exigir a mim mesmo ser coerente. E ser coerente é dizer que se 2017 foi mau, se fizer igual, fiz mal.”

Os cenários em que isto acontecerá será caso o PSD consiga um resultado “igual, pior ou muito pouquinho melhor” — os sociais democratas parte para o ato eleitoral do próximo domingo com 98 autarquias, ao passo que o PS tem 159. Na opinião de Rio, nem todas as câmaras têm o mesmo “peso político” pelo que é difícil traduzir o que seria um bom resultado eleitoral para o PSD por número de câmaras conquistadas. O objetivo passa, ainda assim, por “encurtar fortemente” a distância para o PS, a qual se cifra em 63 câmaras após duas eleições autárquicas pouco conseguidas.

Mudar de ideias no que concerne a este plano face a cenários hipotéticos não é algo que lhe passe pela cabeça, já que, no entender do próprio, “um homem é ele e as suas circunstâncias” e, perante a realidade do país, que se pauta por uma “situação de normalidade” há que ser “coerente”, reforçou.

Para já, Rio vê ainda como realista uma possível conquista da Câmara de Lisboa ao PS, preferindo desvalorizar as sondagens que dão, de forma sucessiva, Carlos Moedas longe de Fernando Medina. “Há uma sondagem para Lisboa que dá 20 pontos de diferenças, passados uns dias sai outra e dá sete pontos de diferença”, explicou Rio que evocou ainda a sua experiência como candidato à Câmara do Porto, quando as sondagens lhe atribuíam uma derrota quase certa.

A noite de 26 de setembro deverá, segundo Rio, trazer “grandes surpresas para todos nós”, já que vão a eleições 308 realidades “diferentes“.

Sobre o candidato do partido a Lisboa, o antigo comissário europeu Carlos Moedas, Rio reconhece-lhe “competência política” e destaca o percurso díspar realizado. “É governante nacional, dá o salto para cima, é comissário europeu e agora resolve ir à política local. Normalmente, o que se faz é ao contrário. Tinha uma vida profissional completamente estabilizada e bem remunerada e diz ‘ponho isto tudo de lado e venho agora servir a minha cidade’. Isto vale muito“, expôs Rio.

Em matéria de coligações, o antigo autarca do Porto explicou que em contexto local não faz sentido fazê-las. “Se quem ganhou a Câmara não tem a maioria dos vereadores, o que se está a falar é se o presidente da Câmara dá pelouros a vereadores de outros partidos. Portanto, não é uma coligação formal, é dizer que vou dar pelouros ao vereador do PS ou do CDS ou do PCP para conseguir uma maioria no executivo municipal.”.

Questionado se seria desejável para o PSD distribuir pelouros pelo Chega, a resposta foi clara. “Não. Se fosse desejável, tinha permitido coligações pré-eleitorais.” Para Rio, um cenário de entendimento entre as duas forças partidárias só seria possível caso o Chega se moderasse, algo que não está a acontecer, pelo contrário. “Em vez de se moderar está cada vez pior.” Como tal, “desta maneira”, é “impossível” haver conversas com o partido de André Ventura, afirmou Rio.

Durante a entrevista, foram vários os momentos em que Rio foi confrontado, direta ou indiretamente, pelos seus possíveis adversários internos e tentativa operadas por estes no sentido de condicionar a sua liderança. No entanto, o líder social-democrata escusou-se sempre a comentar, argumentando que os superiores interesses do partido, como a união dos seus eleitores, deve ser uma prioridade, principalmente em período eleitoral.

Questionado diretamente sobre as recentes admissões de Paulo Rangel sobre a sua vida privada — e até sobre a sua opinião relativamente à opção de alguns políticos em assumirem publicamente a sua orientação sexual —, Rio afirmou que “tinha imenso gosto em falar” sobre o assunto e dar a sua opinião, mas o facto de a pergunta remeter para a vida interna do partido levou-o a escolher não se pronunciar.

“Não quero dizer que está bem ou que está mal ou assim-assim porque isso tem implicações diretas na vida do partido. Dada a circunstância em que estamos, o dia em que vivemos, entendo que devo contribuir para a unidade do meu partido. Particularmente, em campanha eleitoral é obrigação de todos os militantes fazer isso e eu, em circunstância alguma vou contribuir para desestabilização, para prejudicar o partido. Mesmo respondendo em abstrato, teria uma leitura direta.”

Posteriormente, escusou-se novamente a responder a uma pergunta que incidia sobre a possível candidatura de Paulo Rangel a líder do PSD e a comentar as declarações de Francisco Pinto Balsemão que evocava, mais uma vez, nomes como Paulo Rangel, Carlos Moedas ou Miguel Poiares Maduro para a liderança do partido.

Escudado no comunicado da comissão permanente, emitido no início do período oficial de campanha eleitoral, no qual se apelava a que não se tirasse proveito da situação para benefício próprio, Rio afirmou que não se iria “meter” em “conversas da vida interna que fazem o contrário” daquilo que a sua própria comissão política pediu.

Não estaria a cumprir a minha função de presidente do partido se entrasse nesse tipo de conversas na praça política, quando neste momento temos mais de 64 mil pessoas a lutar por se elegerem pelo PSD. O futuro do partido, neste momento, é o dia 26 de setembro”, explicou.

Já sobre o Orçamento do Estado para 2022, Rui Rio parece ter alinhado na cantiga de António Costa, depois de o primeiro-ministro ter afirmado, há alguns meses, que quando o seu partido precisasse dos votos a favor do PSD para aprovar o documento o Governo atualmente em vigor cairia.”É uma pergunta que está respondida pelo primeiro-ministro. O PSD é completamente livre, com a liberdade de saber que não tem influência na estabilidade governativa.”

Nas negociações à esquerda, Rio é da opinião que António Costa vai ceder aos pedidos feitos por PCP e BE, dado o cariz de “negociador” do primeiro-ministro. “Mesmo que o PCP e o BE peçam tudo e mais alguma coisa, vai haver um momento em que o dr. António Costa lhes vai dar para conseguir o equilíbrio. A não ser que, de repente, lhe passe pela cabeça que era preferível para o PS criar uma crise política. Se o PCP e o BE quiserem, é uma questão de tempo e o Governo cede porque cede a tudo”.

Perspetivando as eleições legislativas de 2023 — e partindo do pressuposto de que se mantêm como líder do PSD —, Rio considera que seria mais fácil derrotar António Costa, dado o desgaste do Governo, mas também a memória cada vez mais distante dos tempos da troika, associada pelos cidadãos ao Executivo de Pedro Passos Coelho e ao PSD. “A probabilidade de ganhar as eleições ao dr. António Costa é muito superior ao que era em 2019″, constatou.

  ARM //

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