A procura pelo novo Cristiano Ronaldo está a alimentar um comércio de escravos moderno

O sonho de jovens jogadores africanos em vingar no futebol europeu leva a que agentes sem escrúpulos façam promessas que não conseguem cumprir, criando uma verdadeira rede de comércio de escravos.

Estima-se que mais de 15.000 crianças são traficadas para a Europa todos os anos com falsas esperanças de se tornarem jogadores profissionais de futebol. Só em Inglaterra, há mais de 2.000 menores que foram traficados para jogar futebol, embora o número real provavelmente seja ainda maior.

Fraudes que se apresentam como agentes de futebol têm como alvo jovens jogadores estrangeiros e atraem-nos para outros países com falsas promessas de testes nos principais clubes de futebol europeus. Esses jovens deixam para trás os seus amigos e familiares e gastam grandes quantias de dinheiro em vistos, passaportes e bilhetes de avião para perseguirem os seus sonhos.

Na realidade, muitas vezes não há nenhum clube à espera do jogador e eles são abandonados à chegada ou submetidos à escravidão, prostituição e tráfico de drogas.

Isto é tráfico humano, mas não é a única maneira de o tráfico acontecer no futebol. Uma forma mais “legítima” é quando um clube contrata um jogador através do agente, mas este controla a mobilidade do jogador e ganha dinheiro com um contrato de exploração. Os contratos são vinculativos e difíceis de escapar, desviando grandes proporções dos vencimentos de um jogador para o agente.

A caça ao talento

A maioria das vítimas vem de África e da América do Sul e vários clubes europeus (muitas vezes através de agentes sem escrúpulos) traficam e empregam menores africanos, pagando-lhes uma ninharia para jogar profissionalmente.

Os jogadores africanos têm uma grande demanda graças à sua “genética superior e mentalidade”, explica o jornalista da BBC, Piers Edwards. No entanto, o mundo do futebol oferece proteção limitada contra a contínua exploração deste jogadores

Devido à sua crescente vulnerabilidade, causada pela falta de emprego, e às suas esperanças de conseguir sucesso financeiro através do futebol, os jogadores africanos continuam a ser alvos fáceis.

Em 2009, um estudo levado a cabo pela Comissão Europeia descreveu como o aumento do uso dos mercados de transferência de África e da América do Sul criou uma espécie de “comércio de escravos moderno“.

Isto deve-se às estratégias de recrutamento usadas pelos clubes europeus que permitiram que “agentes” sem escrúpulos explorassem repetidamente jogadores de futebol.

Em 1995, foi abolido o pagamento de transferência por cidadãos europeus, que jogassem dentro da UE, e que se transferissem para outra equipa europeia no fim do seu contrato de trabalho. As regras mudaram porque os regulamentos anteriores foram considerados restritivos para os direitos de liberdade de circulação dos cidadãos da UE.

Para vários clubes da União Europeia, esta alteração resultou numa perda de rendimento com as transferência que anteriormente recebiam por jogadores sem contrato, que agora podiam circular livremente para outros clubes da zona euro.

Os clubes começaram então a olhar para o mercado de transferências como o melhor meio de recuperar investimentos em jogadores. Especialmente se eles puderem comprar jogadores em desconto e vendê-los para lucrar antes que o contrato expire.

A alteração das regras contribuiu para o aumento das receitas de transferências para os jogadores que ainda estão sob contrato. Este aumento significou que os clubes da UE tinham duas opções para obter lucros a longo prazo.

Podiam implementar um programa de formação de jovens mais avançado para desenvolver jogadores talentosos para a primeira equipa ou procurar novos talentos de clubes fora da Europa, com menos recursos económicos do que eles — a maioria escolheu o último.

Tratamento (des)igual

Outra questão é a exploração continua causada por uma lacuna na regulamentação. Quando um clube está a transferir um menor da União Europeia, há obrigações regulatórias adicionais em relação à educação de futebol, provisões académicas e padrões de vida. Estas são impostas à equipa que compra o jogador e estão de acordo com os regulamentos da FIFA sobre transferência de jogadores.

Estas obrigações educam o jogador e criam uma consciência que impede uma possível exploração. Também funcionam como um “Plano B”, que fornece uma carreira alternativa para o menor caso não seja bem sucedido como jogador de futebol profissional. Mas os regulamentos da FIFA não impõem obrigações semelhantes aos clubes quando transferem um menor africano ou outro menor estrangeiro.

Esta lacuna permite que clubes e agentes tratem menores africanos sem nenhum respeito pelo seu bem-estar ou proteção contra situações perigosas e exploradoras num país estrangeiro.

Como tal, devem ser tomadas medidas para melhorar a qualidade das ligas africanas, tornando os jogadores menos suscetíveis a estratagemas de agentes sem escrúpulos. É também necessário que haja melhores salvaguardas para menores fora da União Europeia.

PARTILHAR

RESPONDER

Consumo excessivo de álcool afeta o sistema nervoso (e aumenta a ansiedade)

Investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde concluíram que o consumo repetitivo de álcool afeta diretamente células imunes do sistema nervoso central, que eliminam parte da comunicação entre os neurónios, e provoca o …

Afinal, os tubarões-baleia macho não são os maiores peixes dos oceanos

Um novo estudo revela que, afinal, os tubarões-baleia machos não são os maiores peixes do oceano. As fêmeas crescem continuamente muito depois de os machos pararem, atingindo tamanhos maiores - ainda que demorem mais tempo …

Exército norte-americano usou fundos de emergência covid-19 para comprar armas

O exército dos Estados Unidos utilizou fundos de emergência aprovados pelo Congresso especificamente para combater a covid-19 para comprar armas, denuncia esta semana o jornal norte-americano The Washington Post. O caso remonta a março passado, …

Carpinteiros usam técnica medieval na reconstrução de Notre Dame

A reconstrução de Notre Dame - que se prevê estar concluída no prazo de cinco anos - continua a avançar e os carpinteiros usaram técnicas medievais para erguer uma estrutura na fachada do monumento. A Catedral …

Durante um ano e meio, uma aldeia inteira perdeu a Internet todos os dias à mesma hora (e já se sabe porquê)

Durante 18 meses, os residentes de uma vila no País de Gales perderam a Internet todos os dias à mesma hora. Agora, engenheiros identificaram o motivo: uma televisão em segunda mão que emitia um sinal …

Gado na UE produz 704 milhões de toneladas de CO2 (mais do que todos os transportes juntos)

De acordo com uma nova análise da Greenpeace, animais de criação como vacas, porcos e outros, estão a emitir mais gases com efeito de estufa na Europa do que todos os transportes juntos. Na última década, …

É distraído e está sempre a perder a carteira? A Cashew Smart Wallet é para si

Uma simples carteira pode vir a melhorar os seus dias. A Cashew Smart Wallet é dotada de uma tecnologia de bluetooth que permite proteger os seus bens e ainda o ajuda caso a perca por …

Desportivo das Aves SAD desiste do Campeonato de Portugal

O Desportivo das Aves SAD vai abdicar da participação no Campeonato de Portugal (CdP), após ter falhado as negociações com o Perafita para utilizar as instalações do clube de Matosinhos. "As inscrições fechavam ontem [terça-feira] e …

Celebridades doam dinheiro para pagar dívidas a ex-presos impedidos de votar nos EUA

O bilionário Michael Bloomberg, o cantor John Legend e o basquetebolista LeBron James são algumas das celebridades que estão a doar dinheiro para pagar dívidas de ex-presidiários da Florida, impedidos de votar nas próximas eleições …

No debate sobre o Plano de Recuperação, evocou-se Sócrates e Passos

O líder do PSD questionou o primeiro-ministro se pretende "fomentar o desemprego" com o aumento do salário mínimo. O chefe do Governo manifestou-se "completamente perplexo". Na abertura do debate sobre o Plano de Recuperação e Resiliência, …