Portugueses são alvo principal de sequestradores na Venezuela

josesanchezm / Flickr

Caracas, Venezuela

Caracas, Venezuela

A comunidade portuguesa na Venezuela, na ordem de um milhão de pessoas, é a mais atingida pelo flagelo dos sequestros, disse à agência Lusa Anixo Sequeira, responsável pelo departamento de combate aos sequestros da Polícia Criminal.

As razões apontadas para esta “preferência” dos criminosos prendem-se essencialmente com o facto de ser uma comunidade bem sucedida.

O inspector Anixo Salaverría Sequeira não foge à questão: “a maioria dos portugueses são comerciantes, mexem com muito dinheiro”.

Mas a outra razão é menos lisonjeira, é que os portugueses normalmente não fazem queixa e pagam resgates e isso alimenta o interesse dos criminosos.

Um dos casos emblemáticos de sequestros envolvendo a comunidade portuguesa ocorreu em 2012, quando um português esteve desaparecido quase um ano: “dos Santos esteve 11 meses escondido num ‘bunker’ debaixo do chão, sem ver o sol”.

Dos Santos foi sequestrado numa estação de gasolina, a família pediu a ajuda da polícia, que conseguiu encontrá-lo e deteve os sequestradores, sem necessidade de resgate.

Os responsáveis da polícia criminal têm feito vários apelos junto da comunidade portuguesa para que denunciem os sequestros, mas estes alertas não têm tido grandes resultados.

Quando as famílias falam connosco, resolve-se sempre, sem necessidade de resgates”, explicou o inspector Anixo Sequeira.

O último caso envolvendo um português, diz Anixo Sequeira, teria ocorrido há 15 dias. Errado.

Anixo não dispunha de todos os dados, porque a maioria dos casos não são participados às autoridades.

Gil Andrade, presidente do Centro Português, contou à equipa de reportagem da Lusa um caso que ele mesmo vivera uns dias antes. Deste caso a polícia nem soube.

d.r. Adérito de Sousa

Adérito de Sousa, médico cirurgião português radicado na Venezuela, o primeiro médico no mundo a desenvolver uma técnica cirúrgica no cérebro a partir das fossas nasais.

Adérito de Sousa, médico cirurgião português radicado na Venezuela, o primeiro médico no mundo a desenvolver uma técnica cirúrgica no cérebro a partir das fossas nasais.

“Esta semana vivi um caso de um primo, teve a infelicidade de ser sequestrado. Vivemos essa angústia durante 24 horas”, explicou Gil Andrade. Este caso “resolveu-se a bem, pagando o resgate”.

Contam-se pormenores sórdidos sobre casos passados, em que os bandidos enviavam pelo correio partes do corpo do familiar sequestrado, dedos, orelhas…

“No final, acaba-se pagando o resgate porque sente-se que é mais seguro para voltar a ter o nosso familiar outra vez connosco”, concluiu Gil Andrade.

O responsável pela direcção do Centro Português tem um contacto privilegiado com quase toda a comunidade portuguesa em Caracas e afirmou que esta situação “está a acontecer semanalmente.

Não é todos os dias, mas, às vezes, sabemos de mais de um caso por semana”.

Um dos casos conhecidos em Caracas ocorreu com o famoso cirurgião Adérito de Sousa, o primeiro médico no mundo a desenvolver uma técnica cirúrgica no cérebro a partir das fossas nasais.

Adérito de Sousa chegou a casa, ao final do dia, no seu carro blindado, à prova de bala. Abriu a porta da garagem, da sua moderna vivenda num bairro rico de Caracas, e foi surpreendido por vários indivíduos armados.

Adérito ia manter-se fechado no seu carro blindado. Nada lhe aconteceria. Só que a mulher já estava no quintal, junto ao portão e os bandidos agarraram-na.

Adérito ficou em pânico. Não teve opção, saiu do carro e entregou-se nas mãos dos bandidos, que o levaram.

O médico acabou por passar uns dias nas mãos dos bandidos, sofrendo quatro tiros nas pernas e no abdómen. Foi devolvido à família e hoje, sete meses passados sobre o traumático sequestro, não tem dúvidas em dizer que, mesmo assim, vai “continuar a viver na Venezuela”, o país onde nasceu.

Em Caracas comenta-se um caso emblemático de um empresário de sucesso, que foi sequestrado três vezes.

Um dia, virou-se para os amigos e disse que não aguentava mais. Era hora de partir de regresso à pátria. Pegou nas malas e bagagens e voltou ao norte de Portugal. Tentou reconstruir o seu negócio de sucesso, investiu muito dinheiro.

Acabou deprimido, como a economia portuguesa…

Já está em Caracas de novo, a reconstruir o seu negócio, apesar de toda a insegurança.

Os portugueses são quase sempre vítimas.

“São raros os casos de crimes envolvendo portugueses”, explicou José Domingues, lusodescendente responsável de um departamento da Polícia Criminal.

Viver em Caracas é estar sempre atento a tudo o que nos rodeia. Tudo o que tem valor fica escondido, não se atende telemóveis na rua, não se usam máquinas fotográficas, muito menos câmaras de vídeo.

Um dos truques mais comuns é nunca fazer o mesmo caminho no regresso a casa. Evitar movimentos de rotina e estar sempre atento a possíveis perseguidores.

E, mesmo assim, os sequestros acontecem…

/Lusa

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