Plano Marshall à europeia vai acentuar desigualdades e “fragilizar” países como Portugal

cv ARTV

Antigo vice-governador do Banco de Portugal, João Costa Pinto.

A União Europeia (UE) falhou, mais uma vez, na resposta que acordou para fazer face à pandemia de Covid-19, considera o antigo vice-governador do Banco de Portugal, João Costa Pinto, que considera que o acordo alcançado, na semana passada, entre os estados-membro da Zona Euro vai agravar “as desigualdades” e complicar ainda mais a vida aos países endividados como Portugal.

Em entrevista ao jornal Público, João Costa Pinto diz-se “desapontado”, mas “não surpreendido” com a forma como a UE resolveu fazer face à pandemia de Covid-19. “Uma vez mais, a Europa teve uma intervenção minimalista, com a qual procura evitar a fragmentação da Zona Euro, mas que responde de forma inadequada à crise”, considera, frisando que, “a prazo, irá cavar ainda mais o fosso entre as economias devedoras e as credoras”.

“Os apoios previstos assentam em dívida directamente assumida por cada uma das economias, embora em condições de taxas de juro favoráveis”, nota, salientando que “as economias que já se debatiam com endividamento excessivo, como é o caso da nossa, vão ter que combater uma situação de gravidade sem precedentes com base em dívida”.

“Dado que se vai verificar uma contracção muito substancial no PIB, o aumento do endividamento vai reflectir-se na relação da dívida com o produto, deteriorando ainda mais a capacidade do país para se continuar a financiar através de dívida. Deste modo a solução vai, a prazo, criar dificuldades acrescidas aos países mais endividados para apoiarem o relançamento da sua actividade económica”, alerta o antigo vice-governador.

“As economias mais endividadas vão ficar ainda mais fragilizadas e dependentes e as desigualdades no interior da Zona Euro vão acentuar-se”, conclui.

Sobre o papel de Mário Centeno no processo, João Costa Pinto sublinha que “fez o que era possível” como presidente do Eurogrupo, “num contexto em que a Alemanha continua a recusar soluções que passem por qualquer forma de partilha e de mutualização de risco”.

Banca portuguesa não está a fazer o que deve

O antigo vice-governador, ex-presidente da Comissão de Auditoria e ex-membro do Conselho Consultivo do Banco de Portugal também pede mais apoio aos Bancos nacionais, considerando que “deveriam disponibilizar imediatamente verbas para apoiar o tecido produtivo”, com apoio do Estado e juros perto de zero.

“A banca portuguesa, tal como a restante banca europeia, pode e deve desempenhar um papel”, salienta, frisando que deve contribuir para “garantir o relançamento da actividade económica no pós-quarentena”.

“É necessário disponibilizar um volume de recursos sem precedentes com uma dupla finalidade: financiar o Serviço Nacional de Saúde e a Segurança Social; disponibilizar imediatamente fundos e apoios dirigidos aos pequenos e médios negócios e PMES (que representam 95% do tecido produtivo), a única via para absorver os trabalhadores em situação de layoff e no desemprego”, analisa João Costa Pinto.

Dando o exemplo da Suíça, onde os Bancos se disponibilizaram para libertar “imediatamente” fundos até 500 mil francos suíços, “com garantia total do Estado e sem juros” e notando que “acabaram por partilhar o risco, na segunda linha de apoio”, João Costa Pinto deixa um aviso para dentro de portas. “Não é possível apoiar o tecido produtivo português em tempo útil, sem o apoio imediato da banca nacional”, aponta.

O antigo vice-governador considera ainda que o Governo deveria mandatar a CGD “a liderar o processo, tomando iniciativas adequadas a combater os efeitos da crise e que, acabariam, por ser seguidas pelos outros bancos”.

“Esta é uma crise em que economia mundial parou e não é equiparável a nenhuma outra da história do FMI, com 75 anos”, afiança ainda, sublinhando que há também um “aspecto moral” que reforça a necessidade de intervenção da Banca, depois de “na última década” ter “havido uma mobilização maciça de fundos públicos para apoiar o sector“.

ZAP //

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1 COMENTÁRIO

  1. Se isto fosse uma verdadeira união(que nunca foi) todos deviam ter o mesmo peso na sua opinião e não um único país a poder ditar o que se faz e não se faz de acordo com o que lhe dá jeito e assim claro facilmente se torna no motor da europa!

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