Perdeu-se há 176 anos. Identificado o primeiro membro da expedição de Franklin ao Ártico

Diana Trepkov / University of Waterloo

Pela primeira vez, a identidade dos restos mortais de um membro da expedição Franklin de 1845 foi confirmada com ADN e análises genealógicas por uma equipa de investigadores.

A última notícia que a família de John Gregory teve foi uma carta que o engenheiro do HMS Erebus escreveu para a sua esposa Hannah, da Gronelândia, em 9 de julho de 1845, antes de o seu navio e o HMS Terror navegarem para o Ártico canadiano.

Dois meses antes, Sir John Franklin e 129 marinheiros haviam partido da Inglaterra em busca da lendária Passagem do Noroeste, uma rota marítima que contornaria o continente americano e chegaria ao Pacífico.

A família não teve notícias dele novamente – a expedição Franklin ficou presa no gelo do Estreito de Victoria.

O ADN extraído de amostras de dentes e ossos recuperadas em 2013 corresponde a uma amostra genética obtida de um descendente direto do oficial britânico.

“Agora sabemos que John Gregory foi um dos três membros da expedição que morreram neste local específico, localizado na Baía de Erebus, na costa sudoeste da Ilha King William”, disse Douglas Stenton, professor adjunto de Antropologia na Universidade de Waterloo, citado pelo jornal espanhol ABC.

Em 22 de abril de 1848, os 105 sobreviventes do Erebus e do Terror abandonaram os navios, onde estavam presos por causa do gelo, numa tentativa desesperada de escapar da morte. Pretendiam caminhar 400 quilómetros ao longo das costas geladas da Ilha King William e da Península de Adelaide até o Rio Back. Nenhum chegou ao destino.

Desde o século XIX, os restos mortais de dezenas de membros da expedição foram encontrados em diferentes locais da rota de fuga. Porém, até agora, nenhum tinha sido identificado.

Para Jonathan Gregory, o tetraneto do subtenente britânico que reside em Port Elizabeth, na África do Sul, o facto de “os restos mortais de John Gregory serem os primeiros a serem identificados por análise genética é incrível para a nossa família e para todos os interessados ​​na infeliz expedição de Franklin”.

“Toda a família Gregory está extremamente grata a toda a equipa de investigação pela sua dedicação e trabalho árduo, que é fundamental para desvendar pedaços da história que foram congelados durante tanto tempo”, acrescentou.

Os registos genealógicos indicaram uma relação paterna direta de cinco gerações entre o descendente vivo e John Gregory. “Foi uma sorte que as amostras colhidas continham material genético bem preservado”, disse Stephen Fratpietro, do laboratório Lakehead Paleo-DNA.

A identificação “prova que Gregory sobreviveu três anos envolto em gelo a bordo do HMS Erebus, mas morreu 75 quilómetros a sul na baía de Erebus.”

Gregory não estava sozinho. Os seus restos mortais foram encontrados juntamente com os de dois companheiros, em 1859. Mais de um século depois, o túmulo foi redescoberto e, após ser escavado em 2013, os ossos foram analisados ​​e devolvidos ao local, em 2014.

Até o momento, foi extraído ADN de outros 26 membros da expedição Franklin, cujos restos mortais foram encontrados em nove sítios arqueológicos ao longo do caminho que percorreram, em 1848.

“A análise destes vestígios também rendeu outras informações importantes sobre estes indivíduos, incluindo as suas estimativas de idade na altura da morte, altura e saúde“, disse Anne Keenleyside, professora de antropologia na Universidade de Trent.

Douglas Stenton agradeceu à família de Gregory por partilhar a sua história familiar com a equipa e por fornecer amostras de ADN para apoiar a investigação. “Gostaríamos de encorajar outros descendentes de membros da expedição Franklin a entrar em contacto com a nossa equipa para ver se o seu ADN pode ser usado para identificar as outras 26 pessoas”, acrescentou.

A identificação deste marinheiro foi publicada em abril na revista científica Polar Record.

O HMS Erebus, foi encontrado em 2014. Já o HMS Terror foi encontrado em 2016, a uma profundidade de 24 metros da Ilha King William, na Passagem Noroeste, a leste da Baía de Cambridge, na província de Nunavut.

Em agosto, a Parks Canada divulgou imagens inéditas do HMS Terror, o navio irmão da Erebus.

As localizações dos dois navios foram designadas como Sítio Histórico Nacional, geridas em conjunto pelos líderes do Parks Canada e Inuítes. Não é aberto ao público e é necessária uma permissão para entrar nas áreas protegidas.

Maria Campos, ZAP //

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