Ordem dos Médicos contra consultas por telemóvel

Miguel Guimarães / Facebook

Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos

O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, afirma ter reservas em relação a consultas por telemóvel, a começar pelo facto de lhe chamarem consultas.

Esta terça-feira, arrancou em Lisboa a maior cimeira nacional de tecnologia e saúde. Henrique Martins, presidente dos SPMS, explicou que a telemedicina ou telesaúde será um dos pontos fortes deste encontro.

Ter uma consulta do Serviço Nacional de Saúde (SNS) através de uma aplicação no telemóvel que faz uma videochamada será possível ainda este ano. Os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS) garantem que se tornará numa realidade em breve caso os médicos e os hospitais ou centros de saúde adiram à ideia.

Porém, apesar de aberto à inovação tecnológica na área da saúde, Miguel Guimarães está reticente, conta o Expresso. “O termo consulta é incorreto. Consulta pressupõe a presença do médico e do doente, auscultação, apalpação, verificar se o paciente está a esconder alguma coisa, etc”, garante o bastonário da Ordem dos Médicos. E avança que, por exemplo, por telemóvel é impossível verificar se um sinal é rugoso e se pode ou não ser cancro.

“Quem irá ser responsável por um diagnóstico errado à distância?” é outra das interrogações de Miguel Guimarães, que sublinha que nem o Estatuto Médico nem o Código Deontológico da Ordem preveem o recurso a consultas na medicina à distância, nem há regras ou legislação que as enquadrem.

“Quando muito, numa chamada-vídeo por telemóvel o médico poderá dar um parecer. Um doente crónico, diabético, pode enviar os valores da sua glicemia, ou um paciente enviar, até por e-mail, as suas tensões arteriais. A isso chama-se monitorização à distância — e isso já existe”.

A reação de Miguel Guimarães surge na sequência do anúncio de uma nova app dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS), que permitirá aos doentes inscritos no Serviço Nacional de Saúde contactar o seu médico de família ou um especialista regular através de uma aplicação no telemóvel, sem encargos suplementares.

Miguel Guimarães diz ser estranho que o SPMS, que desenvolveu a app, persista em investir em novas aplicações em vez de se preocupar com “as principais disfunções” tecnológicas de base na área da saúde, lembrando que são muitas as unidades de saúde, principalmente fora dos grandes centros urbanos, em que os médicos “não conseguem sequer aceder aos dados dos doentes”.

Outro dos problemas que antecipa é “a desigualdade de acesso” dos doentes, estimando que dois milhões de pessoas em Portugal não tenham telemóveis de última geração. “Muitos até poderão ter, mas não sabem usar as suas funcionalidades”, conclui.

Ana Rita Cavaco, bastonária da Ordem dos Enfermeiros, também coloca reservas, embora veja vantagens num sistema que funcione à semelhança da Saúde 24. “Se a base tecnológica for um sistema de algoritmo que faz o despiste baseado em sintomas, como dor de cabeça, dores abdominais, vómitos ou diarreia, e no final o médico prescreva um medicamento e diga ao doente para ficar em casa ou para ser visto de imediato na urgência, ou pessoalmente pelo seu médico, acho bem”, disse ao Expresso.

Mais do que isso, a bastonária refere ser um risco para o doente e para o médico que dá assistência à distância.

As vídeochamadas ficarão registadas na plataforma Mysnscarteira, disponível desde 2017 e já utilizada por mais de 330 mil pessoas. “Este tipo de registo via skype será outro dos sistemas inovadores da sofisticada aplicação”, afirma Henrique Martins, garantindo que a segunda fase da nova app estará disponível nas unidades de saúde a nível nacional até ao final de 2019.

A grande diferença em relação à telemedicina via Internet é a de permitir aos pacientes que através da nova app possam consultar diretamente o seu médico de família ou especialista, sem a intermediação de um clínico ou enfermeiro, como já acontece em algumas zonas do país mais isoladas

De fora das consultas via app irão ficar a primeira consulta do utente, bem como doentes do foro psiquiátrico ou pacientes com incapacidades de comunicação. “Terá de haver bom senso, até porque em certos casos será sempre aconselhável o contacto pessoal, o toque”, adianta Henrique Martins, frisando que a consulta à distância ou presencial será uma opção entre médico e paciente.

A inovação, “além de permitir um maior conforto aos doentes e rapidez de resposta médica”, será particularmente útil no acompanhamento de utentes com doenças crónicas e nas consultas de pediatria.

A SPMS assegura a proteção de dados clínicos dos utilizadores da app, cuja plataforma poderá no futuro migrar para o SNS24. A consulta pela app permitirá ainda a prescrição imediata de receita de medicamentos e tratamentos.

ZAP //

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2 COMENTÁRIOS

  1. Fico de facto espantado com a clara falta de abertura de espírito, conservadorismo, e até falta de visão, de certos responsáveis como este e como o presidente da associação de Medicina Geral e Familiar, que também fez declaraações a meu ver absurdas.
    Em primeiro lugar é completamente sem sentido discutir se se chama consulta ou outra coisa qualquer. Uma consulta é a emissão de uma opinião, ou um diagnóstico, ou mesmo apresentar uma solução ou um tratamento.
    No passado a Ordem dos Médicos inviabilizou consultas por videoconferência com o mesmo argumento absurdo e primário que médico e doente têm de estar fisicamente ao lado um do outro. A consequência disto é que doentes não receberam tratamento adequado apenas pelo facto de estarem longe dum especialista.
    Se o médico achar que a distância é um obstáculo a poder emitir um diagnóstico, ou uma opinião fundamentada, apenas tem que dizer que este método, nesse caso concreto, não serve e o doente deverá dirigir-se ao local X ou ao Dr. Y.
    Igualmente as opiniões já emitidas por pessoas responsáveis que o recurso a tecnologias pode aumentar ainda mais o fosso entre “favorecidos” e “desfavorecidos” é completamente absurda. Se não pode, não sabe, ou não quer usar um smartphone, não usa esta tecnologia! Se não pode, não sabe, ou não quer usar um veículo motorizado,pois tem de ir de carroça, mas isto não é fundamento para “boicotar” veículos motorizados.
    De facto espanta-me sempre a ignorância, falta de inteligência e de visão das pessoas responsáveis. Se o senhor bastonário se preocupasse mais com o monopólio da SPMS na informática do SNS faria muito melhor figura!

  2. Totalmente de acordo com o Sr. Nuno, quantas vezes vamos a um médico no posto de SNS e ele diz, passe lá por casa “consultório privado”, e lá vão os menos abonados para serem consultados, e depois ainda tem a lata de dizer passe ao posto para passar a receita. Quanto isto não custa ao utente em tempo e dinheiro porque em casa, cobra-se e bem, muitas das vezes há-de ter para comer ou pagar ao medico do SNS, mas em casa.
    Sei muito bem do que escrevo e posso apresentar muitos casos concretos, com isto estamos todos de acordo, srs bastonários!!!

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