O roubo que catapultou Mona Lisa para a fama faz 100 anos

Louis Béroud (1852-1930)

Mona Lisa no Louvre em 1911, antes do roubo de Vincenzo Peruggia

Mona Lisa no Louvre em 1911, antes do roubo de Vincenzo Peruggia

Este mês de dezembro completa-se um século desde que a Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci, voltou ao seu lugar no Museu do Louvre em Paris, depois de uma ausência de dois anos. O roubo da obra-prima italiana solidificou o seu estatuto como a pintura mais famosa do mundo.

Mas o homem que a roubou, Vincenzo Peruggia, não era o ladrão engenhoso que aparece em inúmeros filmes de Hollywood.

Vincenzo Peruggia conseguiu entrar no Louvre e sair com a pintura de Da Vinci apenas com um mínimo de planeamento. Mas a proeza causou sensação e criou um ícone.

wikimedia

Foto de Vincenzo Peruggia tirada pela polícia italiana em 1909

Foto de Vincenzo Peruggia tirada pela polícia italiana em 1909

O roubo aconteceu numa segunda-feira, no dia 21 de agosto de 1911, um dia em que o museu estava fechado.

A ausência do quadro só foi notada na terça-feira. A polícia começou uma investigação e o centro permaneceu fechado durante uma semana, no meio do escândalo.

“La Joconde”, ou A Gioconda, como os franceses chamam a Mona Lisa, desapareceu durante mais de dois anos e apenas foi recuperada a 10 de dezembro de 1913, dia em que Peruggia foi capturado ao entregar a obra a Alfredo Geri, um vendedor de antiguidades de Florença, em Itália.

Segundo o historiador de arte americano Noah Charney, autor do livro Os roubos da Mona Lisa, este foi o mais famoso roubo de arte em tempo de paz de sempre.

 

Celebridade

É fácil assumir que o incidente causou tal sensação porque a Mona Lisa era “a pintura mais famosa do mundo”, mas naquele momento, não o era. O que realmente a catapultou para a fama foi o roubo.

A cobertura mediática que a Mona Lisa teve durante o tempo em que esteve perdida foi o principal motivo de sua fama mundial. Antes disso, muita gente nunca a tinha visto.

“A imagem começou a aparecer em noticiários cinematográficos, caixas de chocolate, postais e anúncios publicitários. De repente, ela transformou-se numa celebridade como as estrelas de cinema e cantoras”, escreveu o escritor britânico Darian Leader, autor do livro Roubando a Mona Lisa: o que a arte não nos deixa ver.

autor desconhecido, 1910 / wikimedia

Lugar vazio de Mona Lisa no Louvre, depois do roubo da obra

Lugar vazio de Mona Lisa no Louvre, depois do roubo da obra

Multidões passaram a ir ao Louvre só para ver o espaço vazio onde o pequeno retrato da mulher do século 16 costumava estar.

Antes disso, o Louvre já tinha muitas obras de destaque, como a estátua Vénus de Milo, a pintura “Liberdade Guiando o Povo”, de Eugène Delacroix, e o quadro “A balsa de Medusa”, de Théodore Géricault. Mas após o roubo, a Mona Lisa conquistou uma fama única.

O furto tornou-se assunto de Estado e despertou discussões apaixonadas na imprensa francesa.

Segundo o jornalista francês Jerome Coignard, autor do livro Uma mulher desaparece, depois de os jornais franceses descreverem tudo sobre as circunstâncias do roubo, não tinham mais nada que dizer. Por isso, começaram a inventar histórias sobre o quadro, como a de que Leonardo Da Vinci se teria apaixonado pela modelo.

A polícia seguiu muitas pistas sem sucesso. O poeta vanguardista Guillaume Apollinaire chegou a ser preso por uma semana. Até o pintor espanhol Pablo Picasso foi suspeito do roubo. Ambos eram inocentes.

 

Mona Lisa detalhe dos olhosNão foi assim tão difícil

Apesar da fama, a verdade é que o acto aparentemente espectacular do ladrão não necessitou de nenhum plano grandioso.

O museu tinha um sistema de segurança duvidoso e poucos guardas. De facto, estavam a ser efectuados trabalhos para melhorar a segurança das obras de arte, o que inspirou Peruggia.

O italiano tinha trabalhado no Louvre em 1910 e instalado pessoalmente a porta de vidro que protegia a obra-prima. Peruggia ainda tinha o uniforme branco que os empregados do museu usavam e sabia como a pintura estava presa.

“Todos estes conhecimentos juntaram-se quando ele teve uma oportunidade”, diz Charney.

Após a sua captura, Peruggia alegou que sua motivação era patriótica, que Napoleão tinha roubado a pintura da Itália e que sua missão era levá-la de volta para casa.

MMona Lisa detalhe da bocaas Peruggia estava enganado. O quadro tinha sido comprado pelo rei francês Francisco 1º no século 16, por uma considerável quantia de dinheiro.

Como imigrante italiano, Peruggia também argumentou que tinha sido vítima de racismo por parte de seus colegas franceses.

Mas segundo Noah Charney, Peruggia tinha feito uma lista de coleccionadores de arte americanos, o que indicava que na realidade o seu plano era apenas vender a obra.

 

Esquecimento

Há outras hipóteses sobre os motivos do ladrão, mas até hoje a verdadeira razão permanece um mistério.

Peruggia não era um conhecedor de arte. Parte do motivo pelo qual ele escolheu a Mona Lisa era o seu tamanho pequeno: o quadro mede 53 por 77 centímetros.

Desde o regresso do quadro ao Louvre, pessoas de todas as partes do mundo vão visitar a Mona Lisa. Mas segundo Coignard, este pequeno retrato íntimo requer calma e tempo para ser realmente apreciado.

É por isso que poucos realmente “vêem” a pintura; o que importa é estar ali e poder dizer que a viram, avalia o escritor francês.

Werner Willmann / Wikimedia

A Mona Lisa no Louvre em 2005

A Mona Lisa no Louvre em 2005

Apesar do mito, o ladrão foi rapidamente esquecido depois de capturado, especialmente por causa da Primeira Guerra Mundial, que começaria no ano seguinte, 1914.

“As pessoas pensam nele apenas como alguém extravagante e adorável, que se apaixonou por uma obra de arte e que felizmente não a danificou”, diz Charney.

ZAP / BBC

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