O monge “mais letrado do mundo” criou a base da computação há mais de 1200 anos

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Carlos Magno e seu professor, Alcuíno de Iorque, pintados por Jean-Victor Schnetz (1830)

A Idade Média, que começou com a queda do Império Romano, é frequentemente descrita como uma época de obscurantismo e declínio intelectual – os livros eram raros e a maioria das pessoas não sabia ler.

No entanto, esse período histórico foi muito mais vibrante intelectualmente do que se pode imaginar.

Nele surgiram uma série de problemas de lógica para “afiar a mente dos jovens”, incluindo o clássico desafio da barca ensinado até hoje – sobre o homem que precisa de passar um rio com um lobo, uma cabra e uma cesta de couves, sem deixar o lobo comer a cabra, nem a cabra comer as couves. E na barca só cabe o homem e mais um elemento.

O autor desse e de diversos outros enigmas foi o monge Alcuíno de York – no seu tempo, conhecido como o “homem mais letrado do mundo”.

Alcuíno escreveu um livro só com este tipo de problemas. Os seus desafios consolidaram na Europa as bases para um ramo da matemática chamado análise combinatória – tipo de cálculo que está por trás da programação de computadores e da criptografia moderna.

O colecionador

A sua história de vida ajuda a desafiar o estereótipo sobre a Idade Média. Quando Alcuíno nasceu, por volta do ano 732, a Inglaterra era uma manta de retalhos de pequenos reinos saxões e cristãos – uma herança da ocupação romana região.

Alcuíno estudou numa pequena escola ao lado da catedral de York, da qual mais tarde se tornou director. Sob a sua administração, o colégio tornou-se dos mais prestigiados da Europa. O monge defendia o ensino da matemática e lógica pelo valor do conhecimento, não como forma de encontrar a salvação religiosa, como era comum na época.

Alcuíno coloccionava livros escritos à mão numa conceituada biblioteca. Além de obras dos primeiros pensadores cristãos, conservava fragmentos escritos por filósofos gregos e romanos.

Professor de Carlos Magno

No século VIII, os francos – que governavam a região que hoje é a França – expandiram o seu reino sob a liderança do rei Carlos Magno. O império carolíngio foi crescendo até incluir grande parte da Europa, com o objectivo de expandir as fronteiras da cristandade.

Além de líder militar poderoso, Carlos Magno era um estudioso. Ao contrário de muitos outros governantes da época, sabia ler, e fazia-o com frequência – especialmente os livros de pensadores clássicos. Em 780, criou uma corte de intelectuais e decidiu chamar o melhor professor que houvesse na altura. Todos sabiam quem era.

Foi assim que Alcuíno saiu de York para a capital do império, Aachen, hoje na Alemanha, onde se tornou professor do imperador. A partir de então, ajudou a estabelecer escolas em muitas das catedrais do império, até se tornar abade, cerca de 15 anos depois.

O monge foi responsável por um ressurgimento intelectual tão significativo que por vezes o período é chamado de renascimento carolíngio.

Ainda que todos os governantes da época venerassem os livros mais por considerá-los bens valiosos do que pela sabedoria quem continham, a sua mera manutenção ajudou a preservar parte dos conhecimentos antigos e a fomentar a crença de que valia a pena fazer perguntas sobre a natureza do mundo – e ter respostas sem incluir Deus na equação.

As bases

Embora a ciência não fosse como a de hoje, o conhecimento desenvolvido e preservado na época – como a aritmética e a geometria – criou a plataforma intelectual que tornou possível o desenvolvimento da ciência no futuro.

Muitos historiadores consideram a vida de Alcuíno de York como um ponto de inflexão importante da história intelectual ocidental. Ao contrário dos livros complexos escritos pelos gregos, o trabalho de Alcuíno trazia elementos da vida das pessoas – a cabra, o rio – e incentivava os estudantes a pensarem por si próprios.

A resposta para o desafio da balsa, aliás, é levar primeiro a cabra, voltar, levar o lobo, para o outro lado e deixá-lo lá. No regresso, trazer a cabra para que não fique sozinha com o lobo, deixá-la do primeiro lado, pegar nas couves, levá-las para o outro lado e voltar novamente para apanhar a cabra.

Os enigmas de Alcuíno de York podem ser resolvidos por tentativa e erro, mas, como explica à BBC a matemática Hannah Fry, “há uma forma de ordenar claramente as possíveis soluções: a análise combinatória“.

“Esse tipo de desafio é a gênese da ideia de análise combinatória: analisar todas as possibilidades e contá-las de forma ordenada, lógica e sistemática”, diz a professora da University College London, em Londres.

“Se estiver a escolher um caminho, tem que analisar todas as rotas possíveis e escolher a mais rápida. Se enviar uma mensagem secreta, o que os criptografistas fazem é ordenar as diferentes possibilidades e encontrar a resposta. Na computação, muitas das experiências e cálculos feitos pelos cientistas usam a análise combinatória”, explica Fry.

Segundo a cientista, o programa educativo de Alcuíno tem uma mensagem importante: além de útil, encontrar soluções para problemas de lógica pode ser divertido. Isto, numa época em que a curiosidade era vista com receio, foi uma ideia revolucionária.

// BBC

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