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Vox queria apagar pintura feminista em Madrid. “No mural não se toca”, responderam-lhe os moradores

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DLV / Wikimedia

Mural que retrata 15 feministas no bairro da Concepción, em Madrid

O partido de extrema-direita espanhol queria apagar um mural feminista pintado num dos bairros de Madrid. Os moradores fizeram-lhe frente e assim conseguiram salvar o projeto.

A ativista Rosa Parks, a cantora Nina Simone e a escritora Chimamanda Ngozi Adichie são três das 15 feministas que foram representadas neste mural, pintado em 2018, numa das paredes do polidesportivo do bairro da Concepción, em Madrid. “As tuas capacidades não dependem do teu género”, lê-se no mural com 60 metros.

Segundo o jornal espanhol La Vanguardia, para o partido de extrema-direita Vox, a pintura feminista contém uma “mensagem política” e, por isso, apresentou uma emenda à junta de distrito para que este fosse eliminado e substituído por um com um fim “unicamente desportivo”. A proposta, aprovada com os votos do Partido Popular e do Ciudadanos, sugeria que se pintasse antes um mural dedicado aos atletas paralímpicos.

Mas o bairro madrileno não se deixou ficar e, no passado fim-de-semana, várias centenas de moradores, acompanhados por políticos do PSOE, do Unidas Podemos e do Más Madrid, concentraram-se junto à pintura feminista para impedir a sua destruição. O grito de revolta era só um: “No mural não se toca”.

“Se quiserem tirá-lo, vão tirá-lo, porque têm todos os meios, inclusive a polícia, mas vão ter-nos à sua frente e vamos defender o mural com unhas e dentes. O que é do bairro, fica no bairro”, afirmou à agência EFE Aida, da associação de moradores de Quintana.

Para Julia, outra das vizinhas consultadas pela agência espanhola, o problema não está no novo mural sobre desportistas paralímpicos. Até acha que essa é uma ideia “maravilhosa”. O problema está, sim, em “gastar-se dinheiro para retirar arte, quando há milhares de outras paredes”. “Não faz sentido acabar com arte para criar arte“, declarou.

Jorge Nuño, do coletivo Unlogic Crew, que idealizou e executou o mural, recordou que o projeto envolveu a comunidade desde o início. “Fizemos dois esboços que foram colocados no site do Decide Madrid e os cidadãos votaram no que queriam.”

“A ideia que o distrito nos transmitiu desde o primeiro momento, quando tivemos as reuniões de bairro, é que queriam um muro que representasse a igualdade, queriam dar visibilidade ao papel das mulheres na História”, acrescentou.

“No meio de uma pandemia e depois de um nevão terrível, os grupos municipais estão a debater um mural que está há três anos num polidesportivo e que antes era uma parede cinzenta. A arte não cria problemas – o pensamento mesquinho, sim“, lamentou o artista ao elDiario.es.

A questão começou a ganhar cada vez mais visibilidade e, em poucos dias, uma petição para que não fosse permitida “a destruição das mulheres e da sua história” criada no site Change.org reuniu mais de 50 mil assinaturas.

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, também reagiu no Twitter. “Os vossos atos não respondem a razões, tampouco têm efeito. A luta feminista para alcançar a igualdade é uma marca inapagável na nossa história. É uma batalha que continuaremos a lutar em todas as esferas até conseguir que as mulheres possam viver livres e iguais”, escreveu.

Na terça-feira, o Más Madrid apresentou uma moção de urgência para preservar o mural. Graças à mudança de posição do Ciudadanos, a proposta foi bem-sucedida e a pintura vai manter-se no polidesportivo.

Begonã Villacís, do Ciudadanos e vice-autarca de Madrid, disse não gostar do mural, pois considera que só representa mulheres “que defendem o feminismo e que são de esquerda”, mas disse respeitar a decisão. O Vox, por sua vez, acusou-a de “falta de lealdade”.

  Filipa Mesquita, ZAP //

2 Comments

  1. “o que é do bairro, fica no bairro”… Muito bem. Uma expressão muito integradora… Depois dizem que há racismo e outras coisas do género… Essa gente auto exclui-se da sociedade. Eles não querem viver na lei e na ordem. Já dizia o filósofo Aristóteles ” fora da cidade, ou deuses ou bestas” Ora, quem não quer viver segundo as regras da sociedade, já que não são deuses, então são bestas, ou seja, animais!

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