A pensar em ganhar votos, Benjamin Netanyahu promete anexar partes da Cisjordânia

World Economic Forum / Flickr

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu

A poucos dias das eleições legislativas, que decorrem na terça-feira, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, prometeu que irá anexar os colonatos nos territórios ocupados na Palestina, caso venha a manter-se na chefia do Governo. Este movimento pode ser a sentença para a solução dos dois Estados.

De acordo com o Público, as declarações foram feitas durante uma entrevista televisiva, no sábado, em que, a certa altura, o jornalista perguntou por que não tinha sido alargada a soberania aos colonatos na Cisjordânia, à semelhança do que acontece com Jerusalém Oriental e os Montes Golã – todos territórios considerados ocupados ilegalmente por Israel. “Quem disse que não o iremos fazer?”, ripostou o primeiro-ministro.

“Está a perguntar-me se vamos avançar para a próxima fase, a resposta é sim. Vou estender a soberania e não irei distinguir entre blocos de colonatos e colonatos isolados“, acrescentou.

Estas declarações foram imediatamente interpretadas como um gesto de última hora, a apenas dois dias das eleições legislativas de terça-feira, com o objetivo de captar o apoio de pequenos partidos ultraconservadores, de forma a garantir uma coligação de Governo.

As eleições são cruciais para Benjamin Netanyahu, acossado por acusações de corrupção e a enfrentar um forte desafio da parte do antigo chefe do Exército, Benny Gantz.

As sondagens mais recentes apontam para um empate entre o Likud do atual primeiro-ministro e a aliança Azul e Branca de Benny Gantz e, nesse contexto, o apoio de formações mais pequenas será decisivo.

A anexação dos territórios ocupados na Cisjordânia era uma reivindicação antiga dos setores mais nacionalistas da política israelita, que têm ganho cada vez mais protagonismo nos governos liderados por Benjamin Netanyahu.

Os colonatos tornaram-se o grande símbolo físico da ocupação israelita da Cisjordânia. Calcula-se que quase meio milhão de israelitas vivam nestas comunidades que variam radicalmente entre si, havendo desde pequenos ajuntamentos de casas até grandes cidades e, inclusive, uma universidade.

A comunidade internacional considera os colonatos ilegais e o Conselho de Segurança das Nações Unidos tem condenado frequentemente a sua propagação e o apoio dado pelo Estado israelita. Na Cisjordânia convivem dois sistemas legais paralelos: enquanto os palestinianos estão sujeitos à lei militar, os colonos israelitas obedecem à lei civil israelita.

Mas a extrema-direita exige que a soberania israelita seja estendida completamente à Cisjordânia, como se de uma região normal se tratasse. Uma das principais defensoras desta ideia é a ministra da Justiça, Ayelet Shaked, líder do partido Nova Direita.

Os colonatos são vistos como um dos principais obstáculos à solução dos dois Estados, encarada pela generalidade dos observadores internacionais como a mais viável para resolver o conflito israelo-palestiniano, uma vez que foram construídos em território que pertence ao futuro Estado palestiniano.

Segundo avançou o Deutsche Welle, o primeiro-ministro mostrou-se claramente contra uma futura criação de um Estado palestino.

“Um Estado palestino colocaria em perigo a nossa existência. Aguentei uma enorme pressão nos últimos oito anos. Nenhum primeiro-ministro aguentou tanta pressão. Temos que controlar o nosso destino”, declarou, numa provável referência ao consenso internacional sobre a solução de dois Estados.

O colunista do jornal Haaretz, Victor Kattan, citado pelo Público, considera que “a anexação sobre qualquer forma iria provavelmente acabar com qualquer hipótese de criar um Estado palestiniano”. “Poderá haver desestabilização na Cisjordânia e em Gaza, que poderia levar ao colapso da Autoridade Palestiniana, com Israel a voltar a ocupar a Cisjordânia”, indicou.

A recente oficialização da soberania israelita sobre os Montes Golã, anexados à Síria, pelo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é um dos fatores que vem fortalecer as pretensões de Telavive sobre outros territórios considerados ocupados.

No domingo, também foi divulgado que o Alto Conselho de Planeamento da Administração Civil Israelita na Cisjordânia aprovou a construção de 3.659 novas casas em diversos colonatos, segundo a ONG Shalom Achshav (Paz Agora). Quase 90% dessas casas serão construídas em colonatos isolados e não nos grandes blocos que Israel reteria numa troca de terras caso existisse um acordo de paz com os palestinianos.

Críticas ao primeiro-ministro

A promessa de Benjamin Netanyahu foi criticada pelas organizações palestinianas, que a consideram uma machadada no processo de paz. “A declaração dele [Benjamin Netanyahu] não foi feita apenas no calor da campanha eleitoral, isto é o fim de qualquer hipótese de paz”, afirmou o dirigente da Organização de Libertação da Palestina, Hana Ashrawi.

Um porta-voz do Hamas garantiu que “a resposta aos crimes e às imbecilidades [de Israel] será feira pela resistência popular e pela resistência armada”, informou o Público.

Já o Deutsche Welle revelou que, depois das declarações polémicas, Benny Gantz questionou por que o primeiro-ministro “não anexou a Cisjordânia durante os 13 anos em que esteve no poder, se essa era sua intenção”, afirmando que as suas declarações foram “irresponsáveis”.

Questionado sobre sua própria posição, Benny Gantz disse que se opunha a qualquer decisão “unilateral”. “Faremos todo o possível para alcançar um acordo de paz regional e global, mantendo-nos fiéis aos nossos princípios”, explicou.

Saëb Erakat, dirigente da Organização pela Libertação da Palestina (OLP), afirmou que as declarações de Benjamin Netanyahu não foram “surpreendentes”.

“Israel continuará a violar cinicamente a lei internacional, desde que a comunidade internacional permita que o Estado judeu ignore as suas obrigações com total impunidade, particularmente com o apoio do governo Trump”, declarou no Twitter.

Na mesma rede social, o chefe da diplomacia turca, Mevlut Cavusoglu, escreveu: “A Cisjordânia é território palestiniano ocupado por Israel em violação do direito internacional. As afirmações irresponsáveis de primeiro-ministro [Benjamin] Netanyahu visam garantir alguns votos antes de uma eleição geral”.

“As democracias ocidentais vão reagir ou permanecer quietas? Vergonha!”, afirmou no Twitter Ibrahim Kalin, porta-voz do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

Taísa Pagno TP, ZAP //

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1 COMENTÁRIO

  1. Cada vez mais louco este Benjamin!…
    Roubar território agora dá votos…
    E assim se comprova que quanto mais religioso, mais radical e mais perigoso!!

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