Na ausência de Biles, Sunisa Lee coroou-se rainha da ginástica. É a primeira hmong a ganhar ouro

How Hwee Young / EPA

A ginasta norte-americana Sunisa Lee

Sunisa Lee chegou a Tóquio com a missão de ajudar os Estados Unidos a garantir o ouro e de garantir a presença em finais individuais de aparelhos. Com o abandono de Biles, tornou-se a estrela do conjunto norte-americano.

Quando Sunisa Lee chegou a Tóquio, o seu guião na competição de ginástica artística feminina era claro: deveria ajudar a equipa norte-americana a assegurar o ouro na final por equipas, que já pende para os EUA desde Londres 2012, tentar qualificar-se para a final individual e algumas finais de aparelhos — especialmente as barras paralelas, onde é uma das melhores do mundo.

Chegados ao segundo dia de competição, depois da qualificação de domingo (25 de julho), o guião e papel de Lee mudou consideravelmente. Perante o abandono de Simone Biles, por motivos de saúde mental, na final por equipas, a jovem de 18 anos natural do estado do Minnesota foi chamada a ocupar o centro do palco e não desiludiu.

Numa prova que esteve em aberto até ao último minuto, Sunisa Lee fez valer o seu domínio nas paralelas, de um exercício de trave sano, apesar da queda iminente, e de um solo seguro — que muitos consideraram inferior ao da brasileira Rebeca Andrade, segunda classificada.

Com a prestação, Sunisa Lee tornou-se a primeira atleta da minoria hmong — um grupo étnico oriundo do sul da China, que se deslocou para o Vietnam, Tailândia e Myanmar na buscar por mais liberdade — a vencer uma medalha de ouro em Jogos Olímpicos — na que foi também a primeira participação de sempre de um atleta hmong-americano.

No entanto, e como lembra o The Guradian, o caminho de Lee até ao ouro é digno de um filme de Hollywood. Durante a Guerra do Vietnam, inúmeros membros da comunidade hmong foram recrutados pela CIA para manter vietnamitas do norte do país e simpatizantes do regime comunista longe de Laos, para depois da queda da cidade, em 1975, serem deslocados com frequência — uma vez que as forças pretendiam puni-los pela colaboração com os americanos.

No caso dos pais da atleta, John Lee e Yeev Thoj, eram apenas crianças quando foram levados para campos de refugiados na Tailândia, tendo, anos mais tarde, emigrado para os Estados Unidos da América, onde se fixaram — outros indivíduos hmong emigraram para França, Austrália, entre outros países.

Ainda assim, a sua história de sucesso não é representativa dos membros comunidade, já que 60% dos hmong americanos vivem com baixos rendimentos e mais de três quartos na pobreza.

Os censos norte-americanos também indicam que a comunidade hmong constituía 0.001% da população total dos EUA — com a Califórnia e o Minnesota a representarem os estados com mais indivíduos e St. Paul (onde Sunisa Lee nasceu), em Minneapolis, a cidade mais representativa.

Alguns deles reuniram-se num centro comunitário, juntamente com a família de Lee, para a ver competir na final do all-around. Depois da vitória, Sunisa dedicou-lhes algumas palavras. “A comunidade é fantástica. Estavam todos a assistir. Tiveram a a oportunidade de me ver ganhar uma medalha de ouro e eu adorava que pudessem estar aqui“, disse.

Nas declarações, a ginasta não deixou de abordar as condições em que muitos dos que a apoiaram no caminho até à glória. “A comunidade hmong são as pessoas que mais apoiam e sinto que muitos não alcançam os seus sonhos“, apontou. “Mas quero que saibam que nunca se sabe o que vai acontecer no final, por isso não desistam dos vossos sonhos.”

Sunisa nunca o fez, apesar das múltiplas lesões, de ter visto o pai ficar paralisado do pescoço para baixo após um acidente com um trator e do adiamento de um ano das olimpíadas devido à pandemia da Covid-19, que lhe roubou uma tia e um tio.

Após a consagração como vencedora da final, contou aos jornalistas o teor da conversa que teve com o pai — responsável por identificar o talento da filha e de convencer a esposa a inscrevê-la na ginástica — antes da competição. “Ele disse-me para fazer o que normalmente faço, para entrar nos aparelhos e fazer o meu melhor, e que no coração dele eu já era uma vencedora“, contou.

E é. Sunisa Lee prepara-se para sair de Tóquio, no mínimo, com três medalhas. À medalha de ouro conseguida a título individual no all around, junta ainda uma de prata, relativa à final por equipas e uma de bronze, resultante da sua participação na final de barras paralelas.

Sunisa está ainda na calha para um outro título, desta feita na final da trave, onde competirá ao lado de Simone Biles, que já anunciou o seu regresso à competição, na que será também a sua despedida da modalidade.

ARM, ZAP //

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