Mortalidade materna: a covid como pretexto e o “abandono” das mulheres (entrevista)

Em 2020 a taxa de mortalidade materna foi a mais elevada desde 1982. Carla Santos fala com o ZAP sobre os números recentes.

A taxa de mortalidade materna em Portugal atingiu em 2020 o número mais elevado desde 1982.

A contabilidade divulgada na semana passada indica que, ao longo de 2020, morreram 17 mulheres devido a complicações da gravidez, parto e puerpério.

Uma 20,1 óbitos por 100 mil nascimentos, que nas últimas décadas só foi pior em 1982, quando houve 22,5 óbitos por 100 mil nados-vivos.

A Direcção-Geral da Saúde, que está a investigar estes números, esclareceu que oito mortes aconteceram durante a gravidez, uma durante o parto e oito no puerpério (até 42 dias após o parto).

“Sentimos que estamos a retroceder”, começa por reagir Carla Santos, do Observatório da Violência Obstétrica em Portugal.

Em entrevista ao ZAP, Carla começa a sublinhar que a pandemia “trouxe à superfície” problemas já existiam há muito tempo.

Em 2018, por exemplo, “já tinha sido muito mau”: das 10,4 mortes por 100 mil nascimentos em 2017, a contabilidade passou para 19,5 óbitos por 100 mil nascimentos no ano seguinte.

“Foi a manifestação de uma série de coisas que estão erradas. Esta desorganização mostra que a desorganização já vinha de trás”, alertou.

Três problemas

Carla vê três problemas essenciais relacionados com esta contabilidade: os protocolos nos hospitais, o investimento no sector privado e a falta de dados.

Os protocolos hospitalares “colocam-se acima da lei”, segundo Carla Santos. As mulheres ficam sozinhas, isoladas, “com medo” de ir ao hospital, e não tiveram o acompanhamento devido durante a gravidez.

Tem havido uma rotina – acentuada durante a pandemia – de deixar as mulheres sozinhas e de haver uma “coacção para coisas que as mulheres nem compreendem o que é”.

O investimento “brutal” do Governo no sector privado (metade do orçamento) foi “surreal. Não tenho os números concretos mas creio que foi uma subida de 900%, foi surreal”.

“Privado é sinónimo de mais intervenção médica: mais cesarianas e mais partos induzidos. Ao mesmo tempo, quem não tem poder económico acaba por ficar para trás. E a pandemia destapou estes problemas de desigualdade”, explicou.

Os casos de coacção e de protocolos errados também decorrem nos hospitais privados mas “num privado, as pessoas são mais tratadas como clientes, a quem querem agradar; tentam trazer conforto, acaba por ser mais suave”.

A terceira questão é a falta de dados. Os números recordados no início deste artigo só espelham o que acontece nas seis primeiras semanas após o nascimento do bebé.

Falta saber o que acontece depois: “Não sabemos o que acontece no primeiro ano de vida do bebé. Não sabemos nada em concreto porque Portugal não tem dados claros e transparentes, como a União Europeia obriga”.

“Tudo é muito sombrio. Nem sabemos se os números para trás estão certos. Há países que fazem essa contagem, do primeiro ano de vida do bebé. Em Portugal, não”, lamentou.

“Hoje, em Portugal, ninguém consegue fazer uma escolha informada sobre o local que vai parir”, atirou Carla Santos.

Pretexto vs. fragilidade

A COVID-19 fez com que o número de cesarianas e de partos induzidos aumentasse “exponencialmente”.

“Na minha opinião pessoal, o vírus foi um pretexto. No Observatório da Violência Obstétrica, verificamos que o coronavírus evidenciou a fragilidade dos recursos humanos no Serviço Nacional de Saúde – porque o desgaste não pode ser argumento no momento de tratar uma mulher, nem pode colocar a sua vida em risco”, analisou.

O observatório tem a noção de que muitos hospitais funcionam à base de internos – que, quando acabam as suas formações, seguem para o sector privado.

Numa altura em que muitas mulheres estão a ficar novamente sozinhas à espera do resultado de um teste à COVID-19 (tal como acontecia no início da pandemia), Carla lembra o exemplo do Reino Unido, onde foram criadas rapidamente casas isoladas para grávidas, onde tinham direito a acompanhantes

Por cá, muitas grávidas ficaram isoladas, sem qualquer pessoa de família por perto, durante o parto. Por causa do coronavírus.

E a violência obstétrica (sobretudo direitos retirados, procedimentos sem autorização ou consentimento) “acontece mais” quando a mulher está sozinha. “E agora está a acontecer novamente”, avisou.

Precisamente a solidão deixou muitas mães afectadas. Ainda hoje, há um “impacto muito grande” nessas mulheres, por não ter estado mais ninguém na sala de parto (namorado ou marido, quase sempre).

“Ficou uma sensação de abandono, mesmo sabendo que foi involuntário. As mulheres ficaram muito isoladas, muito desacompanhadas, mesmo nas consultas, que eram rápidas, indiferentes e muitas delas online. Predomina a sensação de abandono”, lamentou Carla Santos.

  Nuno Teixeira da Silva, ZAP //

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