“Se morrerem, largue-os na floresta”. A história dos imigrantes asfixiados num camião

Roland Schlager / EPA

Mais de 70 refugiados foram encontrados mortos dentro de um camião numa autoestrada na Áustria

Mais de 70 refugiados foram encontrados mortos dentro de um camião numa autoestrada na Áustria

“Continue a conduzir. E, se eles morrerem, largue-os na floresta”. Foi esta a ordem recebida pelo motorista de um camião frigorífico onde 71 imigrantes morreram asfixiados, enquanto eram transportados ilegalmente entre a Hungria e a Áustria.

Começou nesta quarta-feira, na Hungria, o julgamento dos envolvidos no caso que está prestes a completar dois anos e que gerou indignação internacional, sendo um dos principais marcos da crise de refugiados na Europa.

Os mortos, 59 homens, oito mulheres e quatro crianças vindos de Iraque, Síria e Afeganistão, tinham embarcado no camião na fronteira entre a Sérvia e a Hungria.

Pouco depois de partirem, rumo à Alemanha, começaram a gritar porque estavam a ficar sem ar. O motorista ligou então para o seu chefe, o responsável pelo tráfico de pessoas, identificado como Samsoor L., que o orientou a continuar a conduzir e a não abrir a porta do camião em nenhuma circunstância. Também recomendou ao motorista que abandonasse os eventuais mortos numa área florestal alemã.

As transcrições dessas conversas telefónicas foram reveladas pela imprensa alemã numa altura em que Samsoor L., cidadão afegão, e outras onze pessoas de nacionalidades búlgara e libanesa começaram a ser julgadas, sendo acusadas de homicídio, tráfico humano e tortura. Arriscam uma condenação a prisão perpétua.

Os 71 imigrantes foram encontrados mortos dentro do camião frigorífico abandonado à beira da estrada, na Áustria, a 27 de Agosto de 2015. As autópsias realizadas revelaram que as pessoas morreram “asfixiadas em condições horríveis”.

Tráfico humano

O grupo de traficantes humanos é acusado de ter transportado mais de 1,1 mil pessoas pelo Leste Europeu durante o pico da crise migratória, há dois anos.

Acredita-se que Samsoor L., de 30 anos, cobrasse até 1.500 euros por cada migrante desesperado por entrar na Europa, fugindo de países em guerra.

Segundo os documentos apresentados pelos promotores do caso na Justiça húngara, obtidos pela agência de notícias AFP, esta rede de tráfico de pessoas carregava, frequentemente, os migrantes em camiões “escuros, fechados e não ventilados”, em “condições torturantes”, mas que despertavam menos atenção das autoridades.

O Ministério Público húngaro também compilou 59 mil páginas de evidências em que detalha a descoberta do camião abandonado na estrada austríaca A4, perto da fronteira com a Hungria.

A polícia notou que um líquido vertia do interior do veículo – eram fluidos dos corpos, que já estavam em decomposição.

Lá dentro, as autoridades encontraram dezenas de pessoas amontoadas, inclusive um bebé com menos de um ano de idade, num espaço de 14 metros quadrados.

Acredita-se que já estavam mortas há dois dias, quando o camião ainda estava em território húngaro (motivo pelo qual os acusados estão a ser julgados neste país).

Com excepção de uma pessoa, os 71 imigrantes asfixiados foram identificados. A maioria dos corpos foi repatriada para os seus países de origem; uma dezena deles acabou por ser enterrada num cemitério muçulmano em Viena, na Áustria.

Política europeia

A comoção gerada pelo caso repercutiu na política europeia. Em Agosto de 2015, as fronteiras entre países do Leste Europeu foram abertas para permitir a passagem das dezenas de milhares de imigrantes que tentavam ir da Hungria para a Alemanha, fugindo da guerra e da pobreza em países do Médio Oriente e do norte de África.

Mas essa rota acabou por ser fechada pelas autoridades europeias no ano seguinte, à medida que a causa dos migrantes perdeu o apoio de parte da opinião pública.

Actualmente, muitos migrantes continuam a correr riscos nas mãos de traficantes na Europa Oriental ou nas perigosas travessias pelo mar Mediterrâneo.

No dia seguinte à descoberta dos 71 corpos no camião, acredita-se que a mesma rede de Samsoor L. tenha lotado outro veículo refrigerado com mais 67 imigrantes, também em estradas austríacas. O desfecho só foi diferente porque os passageiros conseguiram abrir a porta do camião à força, evitando a morte por asfixia.

ZAP // BBC

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1 COMENTÁRIO

  1. Sem comentários. Voltamos a assistir na Europa a “tiques” nazis. Este senhores que lideram a Europa parece que convivem bem com estas atrocidades. Lamentável.

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