Mitos e verdades sobre a Momo (uma lenda urbana fictícia com perigos bem reais)

(dr)

Quem tem filhos já terá ouvido quase certamente falar da Momo, uma personagem com ar assustador que tem sido alvo de várias notícias e de alertas da polícia. Diz-se que é “o novo desafio viral da Internet”. Na verdade, não passa de uma lenda urbana inventada que está a tomar proporções perigosas.

A Momo é, basicamente, a imagem de uma mulher com olhos grandes esbugalhados, cabelos pretos, boca rasgada até às orelhas e uma expressão assustadora, que está a ser usada para assustar crianças em aplicações de troca de mensagens como o WhatsApp.

Baseada numa escultura intitulada “Mãe Pássaro”, que foi criada por uma empresa de efeitos especiais, a Link Factory, para uma exposição de arte no Japão, ninguém sabe quem criou a versão que se espalhou pela Internet. Os primeiros rumores começaram em 2016, com diversas histórias, indo ao encontro daquele ditado popular de que quem conta um conto, acrescenta um ponto.

Foi disseminada a ideia de que seria uma figura sobrenatural que aparecia de noite, no quarto das crianças, para as aterrorizar, ou que surgia subitamente no telemóvel. Também se fala de um suposto “Momo Challenge”, na onda do famoso “Ice Bucket Challenge”, que levará crianças a executarem actos violentos, incluindo auto-mutilação, e que terá culminado no suicídio de algumas, com ameaças de morte à família e amigos das vítimas, caso não cumpram os desafios determinados.

Em 2018, surgiu a notícia de que uma jovem argentina de 12 anos se suicidou por causa da Momo, algo que nunca foi confirmado oficialmente.

Já neste ano, vários meios de comunicação social anunciaram que 130 jovens se tinham suicidado na Rússia por causa deste fenómeno. E também neste caso não há registos oficiais que o comprovem.

Em 2017, tinha surgido a notícia de que precisamente 130 jovens se tinham suicidado na Rússia por causa do “Baleia Azul”, um anterior fenómeno que se espalhou pela Internet e que provocou muita preocupação entre pais por todo o mundo.

Até agora, não há registo oficial de mortes relacionadas directamente com a Momo, apesar de várias forças de autoridade, por todo o mundo, terem emitido alertas.

Em Portugal, a PSP também lançou um alerta, no ano passado, a sublinhar que alguém, fazendo-se passar pela Momo, estabelece através do Whatsapp, deixando “respostas de cariz ameaçador e perturbador“. “Estas ameaças levam à extorsão de informação pessoal, incitam ao suicídio e a actos arriscados, pelo que se trata de um isco utilizado por criminosos para manipular as vítimas (jovens), roubar dados e extorquir“, apontava a força policial.

A PSP não tem registo de casos de crimes relacionados com a Momo, mas o Comissário João Moura assumiu na SIC Notícias que a força policial encontrou a imagem assustadora associada a vários números de telefone nacionais e estrangeiros no WhatsApp.

O agente fala de um “efeito bola de neve”, sublinhando que estes perfis proliferam motivados pela disseminação de notícias sobre o assunto. Os média contribuem, deste modo, para espalhar os efeitos assustadores da Momo.

YouTube desmente Momo em vídeos

Nestes dias, o tema voltou à baila na comunicação social depois de relatos de pessoas que garantem ter visto a Momo em vídeos do YouTube Kids com personagens infantis como a Porquinha Pepa ou em jogos como o Fortnite e o Minecraft.

O YouTube já veio desmentir, assegurando que não tem “evidências recentes de vídeos a promoverem o “Momo Challenge”” e reforçando que os “vídeos que encorajam desafios perigosos e lesivos são contra” as suas políticas.

No Reino Unido, onde surgiram nos últimos dias várias notícias sobre a Momo, a organização UK Safer Internet Centre fala em “fake news” e em “pânico moral” espalhado por adultos, conforme declarações divulgadas pelo The Guardian.

“Ao serem altamente publicitadas e começarem a causar pânico, estas histórias significam que pessoas vulneráveis passam a conhecer [a Momo]” e isso “aumenta os riscos de danos”, reforça uma fonte dos Samaritanos citada pelo jornal britânico.

“É um mito que é perpetuado como sendo algum tipo de realidade“, acrescenta esta fonte.

Esta disseminação pode ser aproveitada tanto para brincadeiras de mau gosto, nomeadamente para pregar partidas aos amigos, como por pessoas mal intencionadas, para actos de bullying, ou por cibercriminosos em tentativas de fraude, roubo de identidade e de dados, ou até para obtenção de fotografias pornográficas de menores.

Assim, se é um facto que a Momo não existe, o que a Internet pode fazer com ela é mesmo real e perigoso – sobretudo porque, aos olhos das crianças, a Momo é bem real.

O fenómeno deve servir como um alerta aos pais para a importância de supervisionarem o que os filhos vêem online, para bloquearem ou prevenirem o acesso a plataformas com conteúdos adultos e para falarem com eles sobre as ameaças da Internet, ensinando-os a não divulgarem dados pessoais.

O Comissário João Moura recomenda que se deve “apostar em software de controlo parental” e aconselha a que, “em caso de emergência ou de crime” se contacte a PSP através do 112.

Susana Valente SV, ZAP //

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