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Mercenários russos acusados de violar e matar civis em África. A sua função era protegê-los

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S. Phelps / UNHCR

Vários grupos armados, apoiados pelo Kremlin, estão a ser acusados de violar e assassinar civis na República Centro-Africana. Segundo organizações não-governamentais, estão ainda a contratar gangues para eliminar vítimas de tortura para que os seus crimes não sejam revelados.

Em março, o grupo de trabalho das Nações Unidas chamou a atenção da comunidade internacional para uma série de violações graves dos direitos humanos, ligados à atuação de mercenários, nomeadamente na Líbia e na República Centro-Africana.

Os mercenários russos fazem parte de um destacamento de várias centenas de militares privados contratados pelo governo da África Central para retirar o país das mãos dos rebeldes.

Na República Centro-Africana, os soldados russos em ação foram contratados por membros do Grupo Wagner, apoiado pelo Kremlin.

Desde que um movimento rebelde derrubou o governo em 2013, a FACA (Forças Armadas Centro-africanas) não foi capaz de extinguir os grupos rebeldes que surgiram do conflito e precisou de recorrer a ajuda externa.

Apesar da presença de tropas francesas e europeias, e de uma missão de manutenção da paz da ONU com aproximadamente 12.000 homens – conhecida como MINUSCA -, os esforços para treinar e reforçar as forças armadas nacionais foram pouco significativos.

Assim, a Rússia assinou um acordo para fornecer apoio militar à República Centro-Africana em 2017. Após o lobby russo, foi concedida uma flexibilização do embargo de armas do Conselho de Segurança da ONU à RCA, a fim de fornecer armas leves em 2017. A medida tem sido uma fonte de controvérsia e tensão entre a França e a Rússia.

À exceção das vendas de armas, os detalhes do acordo entre a Rússia e a RAC são pouco transparentes e o papel ativo dos “instrutores” de Wagner nas linhas da frente não foi oficialmente reconhecido por nenhum dos governos.

Segundo o VICE, os mercenários russos destacados para o local têm disseminado armas perigosas na luta contra os rebeldes. Além disso, várias vítimas e ativistas dos direitos humanos revelaram que estes estão envolvidos em ações de tortura, execuções extrajudiciais, violações e abusos sexuais de vários civis.

O Grupo de Trabalho da ONU escreveu ao governo da RAC e à Rússia, em abril, destacando as alegações de “graves abusos aos direitos humanos” e envolvimento em campo, que vai muito além do apoio militar e que viola, potencialmente, as leis internacionais de guerra.

Além de terem que lidar com sucessivos ataques de mercenários russos e paramilitares centro-africanos, os civis também estão a ser vítimas de abusos nas mãos dos rebeldes que tentam comandar as cidades e as estradas estratégicas.

Vários relatórios internos das Nações Unidas confirmam as acusações contra a população. Um deles identifica pelo menos uma centena de vítimas de violações dos direitos humanos e do direito internacional humanitário, cometidas tanto pelas Forças Armadas Centro-africanas, como pelos seus aliados russos, refere a RFI.

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O VICE tentou contactar diplomatas russos na RAC, mas não recebeu resposta aos vários pedidos de comentários.

No entanto, no Facebook, a embaixada russa já veio rejeitar as alegações de abuso com “indignação”, classificando-as de “acusações infundadas contra aqueles que estão a tentar restaurar a paz e a ordem”.

Já a ministra da Defesa da África Central, Marie Noelle Koyara, uma das principais arquitetas do acordo com os russos, afirmou que o governo ainda não recebeu nenhum relato direto de abusos cometidos por russos ou soldados da FACA.

  Ana Isabel Moura, ZAP //

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