Igreja e oposição angolanas denunciam “massacre” de manifestantes na Lunda Norte

David Stanley / wikimedia

Assembleia Nacional de Angola, em Luanda

A Igreja Católica, a oposição angolana e várias organizações de defesa dos direitos humanos estão a denunciar aquilo que consideram ter sido um “grave massacre” de manifestantes em Cafunfo, na província de Lunda Norte.

Em causa está a morte de um número ainda não determinado de manifestantes, que no sábado terão tentado invadir uma esquadra policial em Cafunfo, na província de Lunda Norte, afetos ao Movimento do Protetorado Português da Lunda Tchokwe (MPPLT).

Um vídeo que circula nas redes sociais, filmado no passado dia 30 de janeiro e divulgado pela SIC Notícias, mostra vários corpos no chão, enquanto um polícia pontapeia e pisa a cabeça de uma vítima gravemente ferida. As imagens ainda não foram desmentidas pelas autoridades angolanas.

Para já, o balanço oficial do Comando Provincial da Polícia Nacional da Lunda Norte aponta para seis mortos e cinco feridos durante esta tentativa de invasão a que chama de “rebelião armada”, lembrando ainda que o protesto não tinha sido autorizado.

Num comunicado divulgado no domingo, o MPPLT recusou essa acusação de “rebelião armada”, condenou “o ato bárbaro perpetrado por agentes das forças de defesa e segurança contra populações indefesas” e lembrou que o protesto pacífico estava marcado há pelo menos um mês.

A versão da polícia também já foi contrariada não só pela Igreja Católica e oposição angolanas, como também por várias organizações de defesa dos direitos humanos. Todas afirmam que as forças de segurança dispararam de forma indiscriminada contra cidadãos desarmados, tendo provocado pelo menos 15 mortos e dez feridos.

Segundo o jornal Público, as duas principais formações da oposição, UNITA e CASA-CE, referiram-se a este episódio como “um ato bárbaro” e uma “selvajaria” e pedem justificações ao Presidente de Angola, João Lourenço.

O Partido de Renovação Social (PRS), terceira maior força política da oposição e com forte representação nas províncias das Lundas Norte e Sul, também exigiu às autoridades explicações concretas sobre “tamanha brutalidade”.

Vários bispos católicos angolanos que integram a Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST) também já condenaram estas mortes às mãos da polícia, considerando que se tratou de um “massacre” e defendendo investigações independentes que levem à responsabilização dos culpados.

Esta terça-feira, a Amnistia Internacional (AI) confirmou a morte de pelo menos 10 pessoas e alertou que “as autoridades continuam a perseguir manifestantes pacíficos cujo único ‘crime’ tem sido contestar as condições de vida deploráveis” na província. A ONG angolana OMUNGA reforça, por sua vez, que o número de mortos pode ser muito superior, pois muitos manifestantes continuam desaparecidos.

O comandante-geral da polícia nacional angolana, Paulo de Almeida, visitou, no domingo, a região, e garantiu um inquérito para se apurar responsabilidades.

Ministro do Interior angolano elogia ação da polícia

Ontem, numa conferência de imprensa para prestar esclarecimentos sobre o ocorrido, o ministro do Interior de Angola, Eugénio Laborinho, louvou a ação das forças de segurança.

O governante angolano disse que cerca de 300 pessoas, divididos em três grupos, atacaram a esquadra da polícia, às 04h00, munidos de “armas de guerra, objetos contundentes, meios artesanais e instrumentos cortantes”, usando “indumentária de rituais tradicionais e supersticiosos”, causado ferimentos a dois agentes.

“Não é possível estar num posto a fazer a guarnição e aparecer um grupo armado e atacar o posto. Eu sou o garante da ordem, o que é que vou fazer? Tenho que responder. Se estão a atirar contra mim, com catanas e armas, a resposta é igual e a proporção diferente”, disse.

“A autoridade do Estado tem que ser mantida a todo o custo. Nós apelamos mais uma vez que entendam, compreendam, que a atitude de resposta da polícia foi de acordo à situação surgida no momento”, sublinhou.

Segundo o ministro, “o grupo de rebeldes” não está autorizado por lei a fazer qualquer manifestação, admitindo que no dia 16 de janeiro, num dia de semana, os mesmos pretenderam realizar uma manifestação contra o governo provincial, mas foram impedidos.

O ministro repetiu que atacar uma esquadra policial “é um ato de rebeldia”. “E a razão da nossa força é a força da nossa razão. Não tivemos outra hipótese se não nos defendermos. E temos de facto que louvar o esforço e o desempenho das forças de segurança e ordem interna, que tudo fizeram para não haver de facto demasiado luto naquela localidade de Cafunfo”, exprimiu.

De acordo com o governante, esta não é a primeira vez que tentativas de ataque ocorrem na zona do Cafunfo, “esta é a terceira, quarta ou quinta vez que ocorre”, acrescentou.

O MPPLT luta pela autonomia da região das Lundas (Lunda Norte e Lunda Sul), no Leste-Norte de Angola, área rica em diamantes mas onde a população vive em pobreza extrema. O movimento baseia-se num Acordo de Protetorado celebrado entre nativos Lunda-Tchokwe e Portugal, nos anos 1885 e 1894, que daria ao território um estatuto internacionalmente reconhecido.

ZAP // Lusa

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1 COMENTÁRIO

  1. Onde param os I can’t breathe? Ah! É só quando um afro americano é assassinado por polícias brancos norte americanos nos Estados Unidos da América. Não se aplica a negros angolanos assassinados por polícias negros angolanos em Angola, nem a europeus brancos assassinados por polícias brancos portugueses em Portugal.

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