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Marilyn Monroe: 60 anos depois da sua morte, por que é que continuamos obcecados?

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Foi a 4 de Agosto de 1962 que Marilyn Monroe morreu. A atriz continua a inspirar a cultura nos dias de hoje e é um ícone da era dourada de Hollywood nos anos 50. O que explica a nossa obsessão infindável?

Para alguns, morrer pode beneficiar a carreira. Com o 60.º aniversário da morte de Marilyn Monroe, podemos aprender algumas lições sobre a arte e as implicações de morrer enquanto uma figura pública.

Tal como com qualquer outro ícone, a marca de Marilyn Monroe ultrapassa Marilyn Monroe a pessoa, e mais Norma Jeane Mortenson, o seu nome até 1946. A página da Wikipédia “Marilyn Monroe na cultura pop” tem entradas para quase todos os anos desde a sua morte, com uma carreira póstuma que se estende à maioria dos meios de media.

Já foi referida em anúncios para queijo, carros, whiskey e em vários videoclipes. Emprestou o seu nome a uma banda de metal cristã, uma coleção de jóias e um par de arranha-céus em Ontario. É a musa de inúmeras peças de arte visual, incluindo caricaturas, colagens e pinturas.

A sua imagem visual tem sido um tema recorrente para artistas, notoriamente Andy Warhol, que produziu várias peças com o seu rosto e que canalizou Marilyn ele próprio em fotografias de Christopher Makos.

Por sua vez, as representações de Warhol tornaram-se a inspiração de artefactos seguintes, incluindo um figuro de plástico de 70 centímetros, uns sapatos AirMax da Nike e uma reprodução e 3 mil Legos.

E agora é a inspiração de um filme da Netlfix, Blonde, com Ana de Armas, baseado na história fictícia da sua vida de Joyce Carol Oates, publicada em 2000. Por que é que este fascínio continua tantas décadas depois da sua morte?

 

Tempestade perfeita

Monroe tornou-se famosa como uma “bombshell loira“, uma modelo glamourosa do estilo pin-up e cantora e atriz de Hollywood que era o foco favorito do olhar masculino nos meados do século.

E não foi a primeira, seguindo as pegadas de Mae West e Jean Harlow. Também não foi a última: Anita Ekberg, Jayne Mansfield, Kim Novak e Doris Day todas lhe seguiram. Então o que eleva Monroe acima de uma mera celebridade e lhe dá o estatuto de ícone?

Durante a sua vida, Monroe foi exaltada como uma das estrelas mais rentáveis, com uma audiência garantida em qualquer evento. Notoriamente, ela usou a sua própria fama para ajudar a carreira de Ella Fitzgerald, subornando os donos hesitantes do clube de jazz Mocambo para que estes dessem uma oportunidade à talentosa cantora negra em troca de uma aparição sua na fila da frente todas as noites.

Monroe conseguiu tanta popularidade devido a uma tempestade perfeita de contexto biográfico e cultural, um potencial que ela conseguiu capitalizar com uma gestão de imagem astuta.

Foi a reinvenção radical da sua imagem que ajuda a explicar o seu apelo. Na transformação de Norma Jeane para Marilyn, de uma morena do lado para uma loira, de gaga para uma sedutora vocal, também se mudou de vítima para dona de si.

Norma Jean cresceu em lares adotivos e orfanatos, um tempo onde foi abusada sexualmente, a sua mãe foi hospitalizada com esquizofrenia paranóica. Enquanto Marilyn Monroe, assumiu o controlo da sua marca, usou o seu sex appeal para construir a sua carreira e fundou a sua própria produtora — uma coisa rara para uma mulher na altura.

Esta transformação é um traço clássico dos ícones, incluindo Elvis Presley, Maria Callas, Aretha Franklin e Dolly Parton. Para Monroe, assim como para outros, a capacidade de superar as adversidades era inspiradora.

A querida da América

O pico da popularidade de Monroe coincidiu com a intensificação do movimento dos direitos civis dos negros nos EUA, com a decisão histórica Brown v Board of Education em 1954 (que declarou inconstitucional a segregação racial de crianças nas escolas), a que se seguiu a famosa recusa de Rosa Parks de ceder o seu lugar no autocarro em 1955.

Num momento de tensões raciais, a brancura de Monroe aparentemente parecia ser um símbolo inequivocamente americano, confortando aqueles que resistiam aos avanços da igualdade racial.

O outro grande teste à identidade americana foi a Guerra Fria, onde Monroe era uma celebração de tudo o que a narrativa americana insistia que os soviéticos queriam destruir. Marilyn era um símbolo da idade dourada do capitalismo no boom do pós-guerra.

Um ícone na morte

Mas podem ter sido as circunstâncias da sua morte aos 36 anos que asseguraram que Monroe tivesse um lugar no panteão dos ícones do século XX. A surpresa e a sua idade jovem quando morreu são cruciais, o que torna a sua fama diferente de outros ícones como Aretha Franklin, Dolly Parton ou Madonna.

Crucialmente, foi uma morte trágica que falou dos seus demónios internos, não uma resultante de um “ato de Deus”. A história de Monroe alinha-se com a de Amy Winehouse, Judy Garland e Whitney Houston mais do que a de Patsy Cline (que morreu num acidente de avião), Jean Harlow (doença nos rins) ou Jayne Mansfield (acidente de carro). Porque se há uma coisa mais apelativa do que uma história de superação, é uma história da queda de um pedestal.

O consumo mediático de Monroe em vida foi reconfigurado como uma história de ser comida pelo seu público, tal como a Princesa Diana. E a obsessão da era McCarthy com a descoberta de segredos ficou clara com as manchetes cheias de interrogações sobre a sua morte, que alimentaram imensas teorias da conspiração.

Marilyn Monroe pode ter morrido em 1962, mas nesse mesmo momento nasceu uma lenda. E enquanto a sua vida criou a base para o estatuto de lenda, foi a sua morte que a catapultou para a imortalidade do ícone.

  ZAP // The Conversation

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