A maldição do faraó terá sido libertada quando se abriu o túmulo de Tutankhamun

Al Jazeera / Twitter

A 26 de novembro de 1922, a expedição do arqueólogo Howard Carter, financiada pelo aristocrata Lord Carnarvon, fez uma descoberta excecional: o túmulo do faraó Tutankhamun, rei do Egito entre 1332 e 1323 a.C, num estado de incrível conservação.

Ao lado da múmia, numa câmara pequena para alguém da sua categoria, foram encontrados 5.398 objetos, incluindo um caixão dourado, uma máscara funerária dourada, tronos, arcos, trombetas, baús, jóias, vinho, comida, sandálias, roupa íntima de linho e um punhal. Carter passou uma década a catalogar os objetos com os quais o faraó tinha que viajar para o Além.

O faraó, que reinou dos nove aos 18 anos, é muito famoso – e não porque era um grande rei – mas porque o seu túmulo está entre os mais bem preservados. O escritor Jon Manchip escreveu: “O faraó que em vida foi um dos menos apreciados no Egito, na morte tornou-o mais famoso”.



A sua fama também contribuiu para o facto de que, após a descoberta do túmulo, alguns dos exploradores começaram a morrer em circunstâncias estranhas. Em pouco tempo, a maldição de Tutankhamon começou a ser falada: foi o faraó vingar-se do Além daqueles homens que ousaram perturbar o seu descanso?

Tal como escreve o microbiólogo Raúl Rivas, citado pela ABC, a explicação pode passar por seres minúsculos, efetivamente “adormecidos” durante milénios: os micróbios.

“Poucos meses após a abertura da câmara real, ocorreu uma série de mortes em circunstâncias inexplicáveis de pessoas ligadas à exumação do túmulo”, escreve Rivas. “Esses eventos alimentaram a imaginação da imprensa, que transmitiu a ideia de que as mortes estranhas foram uma consequência da profanação do túmulo.”

O boato espalhou-se como fogo. Personalidades como Sir Arthur Conan Doyle contribuíram para a propagação da crença de que, de facto, uma terrível maldição da vida após a morte estava a matar os investigadores.

Os jornais ingleses chegaram a atribuir até 30 mortes à maldição do faraó. Entre eles, destaca o próprio Lord Carnarvon, patrono da expedição. O aristocrata morreu de pneumonia no hotel Savoy Continental no Cairo a 5 de abril de 1923, quatro meses depois de abrir o túmulo.

Depois veio a morte de outras pessoas que “profanaram” o túmulo ou que participaram no movimento dos utensílios ou restos mortais do faraó. Em setembro de 1923, o irmão de Carnarvon, Aubrey Herbert, morreu e, mais tarde, Sir Archibald Douglas Reid, encarregado de radiografar a múmia.

Pouco depois morreu Arthur Mace, um dos que abriram a câmara real com Howard Carter, em circunstâncias não esclarecidas. Mais tarde, o magnata ferroviário George Jay Gould, também presente na abertura do túmulo, morreu de pneumonia.

Richar Bethell, secretário de Carter, morreu em 1929. O pai e a esposa de Bethell cometeram suicídio. Alby Lythgoe, do Museu Metropolitano de Nova York, morreu de ataque cardíaco e o egiptólogo George Bennedite morreu numa queda no Vale dos Reis. Para fechar o círculo de mortes, os diretores do Departamento de Antiguidades do Museu do Cairo, que intervieram nas exposições dos restos mortais do faraó em Paris e Londres, morreram de duas hemorragias cerebrais.

Apesar de tudo, como lembra Raúl Rivas, “Howard Carter sempre rejeitou a teoria da maldição. Para todos que a insinuaram, respondeu: “Todo espírito de compreensão inteligente está ausente dessas ideias estúpidas”.

Estudos posteriores revelaram que das 58 pessoas que estavam presentes durante a abertura do túmulo e do sarcófago, apenas oito morreram dentro de 12 anos.

O que matou o Lord Carnarvon?

Além disso, outros que estavam no túmulo não morreram até muitas décadas depois. O principal arqueólogo, Howard Carter, não morreu até 1939, sofrendo de um linfoma, com 64 anos. Os últimos a morrer foram Lady Evelyn Herbert, filha de Lord Carnarvon, que morreu em 1980, e o arqueólogo J.O. Kinnaman, em 1961.

A história começou com a morte de Lord Carnarvon, semanas após a abertura do túmulo. Segundo Rivas, “a explicação mais aceite é que Carnarvon morreu de uma septicemia bacteriana derivada de uma erisipela”, segundo o autor. “A erisipela é uma doença infeciosa da pele, causada por estreptococos, principalmente Streptococcus pyogenes“. Aparentemente, a infecção originou-se e espalhou-se porque cortou, ao fazer a barba, uma picada de mosquito.

No entanto, outros investigadores estabeleceram outra causa para a morte de Lord Carnarvon: a morte por uma infeção fúngica. Especificamente, tem sido argumentado que alguns patógenos, como Aspergillus niger, Aspergillus terreus ou Aspergillus flavus podem permanecer milénios trancados na câmara de Tutankhamon.

“Esses fungos são capazes de formar esporos de resistência que podem permanecer viáveis por séculos”, escreve Rivas. “Segundo algumas teorias, foram inalados pelo aristocrata, penetrando no seu trato respiratório e causando um tipo invasivo de aspergilose pulmonar”.

Como escreve o microbiólogo, “esta doença é uma infeção grave, que continua a ser uma importante causa de morbidade e mortalidade em pacientes imunodeficientes graves”. No caso desta pessoa, “poderia ter levado à pneumonia, como resultado do enfraquecimento do sistema imunológico que se arrastou desde que sofreu um grave acidente de carro alguns anos antes e que teve repercussões no sofrimento de infeções pulmonares recorrentes”.

O facto de os esporos de Aspergillus permanecerem inativos por longos períodos de tempo nos pulmões explicaria por que Lord Carnarvon não apresentou sintomas de infecção durante os cinco meses após a entrada na sepultura.

Estas teorias sobre a origem fúngica da maldição de Tutankhamun receberam um impulso com estudos recentes que encontraram, regularmente, diferentes espécies destes fungos de Aspergillus que vivem em várias múmias na Croácia ou no Chile.

A famosa maldição de Tutankhamun reapareceu noutra tumba muito menos famosa. Em 13 de abril de 1973, a abertura de outro túmulo, o do grão-duque da Lituânia e do rei da Polónia, Casimiro IV, levou à morte dos 12 cientistas presentes na inauguração.

Anos depois, foi demonstrada a presença de fungos do tipo Aspergillus em objetos presentes na sala. Hoje sabe-se que podem ser muito abundantes em espaços fechados, escuros, com uma temperatura moderada e com condições estáveis, exatamente como esperado num túmulo esquecido.

O faraó adolescente

Tutankhamun reinou durante o período do Novo Império, perto da altura do Egito Antigo, e não se sabe por que morreu quando tinha apenas 19 anos ou quem eram os seus parentes.

O mandato foi caraterizado pela reversão de muitas das medidas adotadas pelo seu pai. Acima de tudo, pôs fim à veneração do deus Aton e restaurou Amon como o deus supremo, recuperando também os privilégios tradicionais dos sacerdotes.

Tutankhamun transferiu a capital para Tebas e deixou a cidade de Akhetaten. O faraó prestou especial atenção à melhoria das relações com os poderes vizinhos, embora acabasse por lutar contra os núbios e asiáticos. Por isso, provavelmente, terá sido enterrado com uma armadura de couro de escamas e com vários arcos, ainda que seja certo que provavelmente não chegou a lutar, devido à sua condição física.

Tutankhamun tinha cerca de 1,67 metros de altura, tinha escoliose, necrose no pé esquerdo e sofria de malária. Múltiplas investigações tentaram esclarecer a sua vida e a sua morte. Foi sugerido que terá morrido devido aos ferimentos do pé, em combinação com a malária, que foi morto ou que foi atropelado.

Outros apresentaram evidências de múltiplas doenças genéticas. É provável que Tutankhamun tenha sofrido defeitos genéticos que o enfraqueceram, uma vez que os pais terão sido primos.

É claro que a morte prematura do faraó foi imprevista, porque foi enterrado numa pequena sepultura para alguém do seu status. Atualmente, a múmia de Tutankhamun repousa no Vale dos Reis, num sarcófago de vidro selado e submetido a um ambiente controlado, sob o olhar atento de centenas de turistas.

Maria Campos MC, ZAP //

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