Mais uma noite de violência na Irlanda do Norte. Políticos apelam à calma

Enric Fontcuberta / EPA

Manifestantes em Belfast colocaram fogo num autocarro e atacaram a polícia, esta quarta-feira à noite, no quarto dia de violência numa semana na Irlanda do Norte.

Os jovens atacaram a polícia com bombas feitas com gasolina esta quarta-feira à noite, na área protestante de Shankill Road, enquanto outros manifestantes atiravam objetos nas duas direções sobre o “muro da paz”, que separa Shankill Road de uma área nacionalista irlandesa vizinha.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, condenou os distúrbios, e o Governo da Irlanda do Norte, com sede em Belfast, vai realizar esta quinta-feira uma reunião de emergência sobre os distúrbios.

Johnson pediu calma, dizendo que “a maneira de resolver as diferenças é através do diálogo, não da violência ou da criminalidade”.

A primeira-ministra da Irlanda do Norte, Arlene Foster, do Partido Unionista Democrático pró-britânico (unionistas), e a vice-primeira-ministra, Michelle O’Neill, dos nacionalistas do Sinn Fein, condenaram a desordem e os ataques à polícia.

A violência recente, em grande parte em áreas pró-britânicas, aumentou devido a tensões crescentes sobre as regras comerciais pós-Brexit para a Irlanda do Norte e piorou as relações entre os partidos no Governo de Belfast, compartilhado entre católicos e protestantes.

Estas manifestações de violência na quarta-feira à noite seguiram-se aos distúrbios ocorridos durante o fim-de-semana da Páscoa em áreas dentro e ao redor de Belfast e Londonderry, com carros incendiados e ataques contra polícias. As autoridades acusaram grupos paramilitares ilegais de incitar os jovens a causar confusão.

O novo acordo comercial entre Londres e o bloco comunitário impôs controlos aduaneiros e fronteiriços a algumas mercadorias que circulam entre a Irlanda do Norte e o resto do Reino Unido.

O acordo foi elaborado para evitar controlos entre a Irlanda do Norte e a Irlanda, um membro da UE, uma vez que uma fronteira irlandesa aberta ajudou a sustentar o processo de paz construído pelo Acordo de Sexta-Feira Santa em 1998, que terminou na altura com três décadas de violência que provocaram mais de trêss mil mortes.

Mas os unionistas têm argumentado que estes novos controlos equivalem a uma nova fronteira no mar da Irlanda entre a Irlanda do Norte e o resto do Reino Unido, defendendo o abandono do acordo.

Os unionistas também estão revoltados com a decisão das autoridades policiais de não processaram os políticos do Sinn Féin que marcaram presença no funeral de um ex-comandante do exército republicano irlandês, em junho passado.

O funeral de Bobby Storey atraiu uma grande multidão, apesar das medidas restritivas aplicadas no âmbito da pandemia e que proibiam grandes aglomerações de pessoas.

Os principais partidos unionistas exigiram a demissão do chefe da polícia da Irlanda do Norte por causa da controvérsia, argumentando que o responsável tinha perdido a confiança da comunidade.

Irlanda pede empenho ativo de Londres no acordo de paz

“O protocolo ajuda-nos a manter a relação norte-sul” na Irlanda, afirmou Thomas Byrne, ministro dos Assuntos Europeus irlandês, em entrevista à agência Lusa, referindo-se à disposição do Acordo de Saída do Reino Unido da União Europeia que mantém o território britânico alinhado com as regras do mercado único.

“Mas precisamos que a Grã-Bretanha se empenhe ativamente na manutenção do Acordo de Sexta-feira Santa, connosco e com a União Europeia”, frisou também o ministro.

Na entrevista, realizada à margem de uma visita a Lisboa, Byrne explicou que o Brexit “causou um enorme problema à ilha da Irlanda” e que foi precisamente “para tentar resolver alguns dos problemas” criados pela saída do Reino Unido da UE que foi negociado o Protocolo, que “contribui muito para garantir a livre circulação de pessoas e de mercadorias na ilha da Irlanda”.

O ministro salienta que “ações unilaterais causam problemas”, o que ficou “demonstrado” com a decisão de Londres de prolongar por seis meses, até 1 de outubro, o período de carência de certos controlos alfandegários nos portos da Irlanda do Norte, para frisar que a Grã-Bretanha “tem de implementar o protocolo”.

“Todos temos de implementar o protocolo, mas os britânicos estão em falta neste aspeto particular”, aponta, sublinhando que a UE iniciou um processo por infração, mas também conversações.

“Quero ver essas conversações prosseguir, porque na Irlanda do Norte os problemas nunca se resolvem através de ações legais, resolvem-se conversando e trabalhando juntos”, insiste.

Thomas Byrne admite que o anúncio pela Comissão Europeia, no final de janeiro, da ativação do artigo 16.º do protocolo, que permite a suspensão daquele capítulo do Acordo de Saída, para travar a chegada de vacinas contra a covid-19 ao Reino Unido via Irlanda do Norte, “foi um erro”, mas sublinha que Bruxelas “reconheceu muito rapidamente que foi um erro”.

“Penso que isso aconteceu porque técnicos fizeram o que tecnicamente era suposto fazerem. Mas não foi feita referência a essa situação particular na Irlanda do Norte, o que infelizmente deu às pessoas, particularmente nas comunidades unionistas mais extremas, uma desculpa para dizer, ‘bem, a Europa não se preocupa connosco, tenta fazer-nos isto’”, considerou.

Pequenas coisas causam problemas. Mas isso resolve-se quando se reconhece que houve um problema, se corrige o problema e as duas partes trabalham para que não volte a acontecer”, insistiu, reiterando o apelo a Londres “para continuar a trabalhar com a UE para resolver o problema de forma pragmática”.

  ZAP // Lusa

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