No dia da revolução dos cinco dois, levantam-se três dedos em protesto contra o golpe militar em Myanmar

Jeon Heon-Kyun / EPA

22/02/2021. Esta segunda-feira é o dia da “revolução dos cinco dois” em Myanmar e levantam-se os três dedos como sinal de resistência e solidariedade aos movimentos democráticos.

Para muitos ativistas pró-democracia, esta segunda-feira não é mais um dia de protestos normal, como tem sido desde que um golpe de Estado depôs Aung San Suu Kyi. Hoje é dia 22/02/2021, ou o dia em que o número dois aparece cinco vezes e cria “a revolução dos cinco dois” (“five twos revolution“).

De acordo com o Expresso, esta referência remete para o dia 8 de agosto de 1988 (uma data com repetições do número 8), quando as forças militares responderam com violência aos protestos pró-democracia no país, num protesto que culminou em centenas de mortos e feridos.

Quase 33 anos depois, os manifestantes voltaram a sair à rua em prol da reposição da normalidade democrática. Tal como em 1988, os militares que tomaram o poder não recusam a violência. Nas últimas semanas, três manifestantes acabaram mortos.

Mas as ameaças não parecem travar os protestantes que, quando tomam as ruas, levantam três dedos.

De acordo com o semanário, trata-se de uma saudação com origem na saga Hunger Games, que em 2014 foi adotada por ativistas tailandeses e que agora se torna um sinal de resistência e solidariedade aos movimentos democráticos em todo o sudeste asiático.

E a verdade é que nada detém os ativistas. O bloqueio da Internet, o corte de estradas e as ameaças dos militares de que haverá mais mortes não impediram os cidadãos de sair em massa para se manifestarem, na sequência de uma convocatória para paralisar o país.

Os protestos inundaram as principais artérias de Rangum, a cidade mais populosa do país, de Naipyidó – a capital – e de Mandalay, palco da repressão sangrenta do fim de semana.

Os manifestantes exigiram o restabelecimento da democracia e a libertação dos presos políticos, que já ultrapassam os 600, incluindo Suu Kyi, apelos que têm sido repetidos diariamente há mais de duas semanas em resposta ao golpe militar de 1 de fevereiro.

Embora os protestos tenham estado a ser realizados de forma pacífica, foram registadas hoje em Naipyidó várias altercações, de acordo com vídeos divulgados por ativistas nas redes sociais, que mostram a polícia a perseguir os manifestantes e a fazer várias detenções.

“Não quero saber das suas leis e normas, não são o nosso Governo, por isso não temos de lhes obedecer. Nem aos toques de recolhimento nem a nada. Vamos sair para a rua todos os dias até já não podermos andar”, assegurou um estudante de 18 anos à agência EFE, durante o protesto em Rangun.

Antes da convocação desta segunda-feira, a junta militar deixou, mais uma vez, o país sem Internet durante a noite e restringiu o uso de dados durante a manhã, além de cortar várias artérias de Rangum e Naipyidó para impedir o acesso a locais especialmente concorridos durante os protestos.

UE disposta a impor sanções contra responsáveis

Os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia (UE) afirmaram “estar dispostos” a adotar medidas restritivas contra as pessoas “diretamente responsáveis” pelo golpe militar que ocorreu no Myanmar a 1 de fevereiro.

“Em resposta ao golpe militar, a União Europeia está disposta a adotar medidas restritivas que visam aqueles diretamente responsáveis. Todas as outras ferramentas à disposição da UE e dos seus Estados-membros serão mantidas sob revisão”, lê-se nas conclusões relativas ao Myanmar do Conselho de Negócios Estrangeiros.

Nesse âmbito, e ainda que ressalvando que irão “evitar medidas que possam afetar adversamente a população do Myanmar, em especial os mais vulneráveis”, os chefes da diplomacia europeia convidam a Comissão Europeia e o Alto Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, Josep Borrell, a “desenvolverem propostas apropriadas” para esse efeito.

Nas conclusões, os chefes da diplomacia europeia “condenam” ainda o golpe militar que ocorreu no Myanmar “nos termos mais fortes possíveis” e frisam que a “UE apoia o povo birmanês”.

“A UE apela ao desanuviamento da atual crise através do fim imediato do estado de emergência, do restabelecimento do governo civil legítimo e à inauguração do Parlamento recém-eleito. Os resultados das eleições democráticas que tiveram lugar em 8 de novembro de 2020 têm de ser respeitados“, referem as conclusões.

Os chefes da diplomacia europeia pedem ainda que as “autoridades militares” e, “em particular”, o chefe do exército birmanês, Min Aung Hlaing, libertem “imediatamente e incondicionalmente” o Presidente do Myanmar, U Win Myint, a conselheira de Estado, Aung San Suu Kiy, e “todos os outros que foram detidos ou presos em ligação com o golpe”.

“A UE condena a repressão policial e militar contra manifestantes pacíficos, apela a que seja exercida a máxima contenção pelas autoridades, e que todas as partes se abstenham da violência, em consonância com a lei internacional”, apontam os ministros.

Salientando ainda que estão “prontos para apoiar o diálogo com todos os parceiros sociais relevantes, que desejam “resolver a situação em boa fé”, os chefes da diplomacia reiteram que irão “continuar a trabalhar em conjunto com todos aqueles dispostos a apoiar a democracia, o Estado de direito e a boa governação, e a assegurar o respeito pelos direitos humanos e as liberdades fundamentais no Myanmar”.

“A UE tem sido uma defensora constante da transição civil e democrática no Myanmar, assim como do seu processo de paz, reconciliação nacional, e desenvolvimento socioeconómico inclusivo”, lembram os ministros.

Assim, os responsáveis referem que a UE “continuará a prestar assistência humanitária” aos “refugiados e pessoas deslocadas no Myanmar”, em linha com os “princípios de humanidade, neutralidade, imparcialidade e independência”.

“O Conselho concordou que irá manter as relações com Myanmar em constante revisão e poderá considerar outras medidas conforme apropriado“, informa o documento. Os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE encontram-se reunidos para discutirem, além do Myanmar, a situação na Rússia, em Hong Kong e ter uma conversa com o recém-empossado secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken.

Liliana Malainho Liliana Malainho, ZAP // Lusa

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2 COMENTÁRIOS

  1. Caríssimos:
    “De acordo com o Expresso, esta referência remete para o dia dos “cinco oito” – 8 de agosto de 1988 -, quando as forças militares responderam com violência aos protestos pró-democracia no país, num protesto que culminou em centenas de mortos e feridos.”
    Lá por o Expresso não saber contar quantos 8 existem em 8/8/1988, não significa que aqui o Zap tenha de alinhar pela mesma bitola. E não vai de certeza, com a ajuda dos seus leitores.
    São quatro oitos, certo?
    Saudinha e boa continuação.

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