“Erro grosseiro”. José Alberto de Carvalho abriu “Jornal das 8” da TVI a pedir desculpas ao norte

Foi com um pedido de desculpas que o jornalista José Alberto de Carvalho abriu o “Jornal das 8” da TVI, nesta terça-feira à noite, assumindo que a frase de rodapé que caracterizava a população do norte como “menos educada” e “mais pobre”, numa reportagem sobre os casos de Covid-19, foi “errada e infeliz e nunca devia ter sido exibida”.

A TVI já tinha pedido desculpas pela peça televisiva, exibida na segunda-feira, cujo rodapé referia que a população do Norte de Portugal é “menos educada, mais pobre, envelhecida e concentrada em lares”.

Num comunicado, o canal tinha considerado que foi um “erro grosseiro” que não tinha sido “previamente detectado” nas “difíceis condições” em que os jornalistas têm trabalhado por causa da pandemia de Covid-19.

José Alberto de Carvalho reforçou o pedido de desculpas, com uma mensagem a abrir o “Jornal das 8” desta terça-feira, onde destacou que a “frase errada e infeliz” despoletou “uma enorme onda de protestos” e que “nunca devia ter sido escrita, nem exibida”. “Foi um erro e peço desculpa”, referiu o jornalista, realçando que este lamento surge “por convicção” e “não por obrigação ou porque fica bem”.

“Quando falam de Portugal sem respeito, nós importamos-nos todos e é isso que nunca pode estar em causa porque nunca esteve. A reacção nas redes sociais só pode ser de indignação. É totalmente legítimo. Se isso não tivesse acontecido é que teria sido dramático”, referiu ainda José Alberto de Carvalho.



O jornalista fez questão de contextualizar a peça que gerou os protestos, salientando que o objectivo era o contrário do que acabou por acontecer.

“A nossa preocupação era, precisamente, a oposta àquela que foi disseminada e era apenas o ponto de partida para desenvolver um debate sobre a resposta das autoridades de saúde portuguesas às aparentes assimetrias regionais” no âmbito da pandemia do coronavírus, como referiu.

José Alberto Carvalho notou o facto de o norte de Portugal ser a região com mais infectados de Covid-19, com 10.302 casos confirmados, o que constitui 60% do total do país.

Rui Moreira acusou TVI de “Portofobia”

A frase de rodapé que acompanhou a reportagem emitida pela TVI, onde se podia ler que a população do Norte é “menos educada”, causou muita indignação nas redes sociais e mereceu críticas também do presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira.

O autarca foi particularmente contundente, acusando a TVI de “Portofobia” numa publicação no Facebook.

“A peça da TVI conclui, sem base científica, que os nortenhos são menos educados e mais pobres e que é por isso que têm mais Covid-19“, escreveu Rui Moreira, lamentando que o canal está a “desinformar”, contribuindo para a “criação de estigmas e mitos que, no limite, prejudicam o combate à doença”.

“O “Norte”, esse ponto cardeal que a TVI confunde com o Porto e vice-versa, e que imagina Viana do Castelo como uma freguesia da cidade Invicta e Braga como a sua periferia, não está provado que tenha gente mais mal-educada ou mais bem-educada do que Lisboa, da mesma forma que não se provou ainda que Lisboa tenha mais ou menos estúpidos que a Amadora, como na mesma lógica da TVI, seria apropriado dizer-se”, escreveu também Rui Moreira, referindo-se ao facto de haver menos casos de infectados na Amadora.

O vice-presidente da bancada socialista no Parlamento, João Paulo Correia, já apresentou uma queixa na Entidade Reguladora para a Comunicação Social contra a estação televisiva, considerando que aquela “peça jornalística é um ataque à reputação da região Norte de Portugal, das suas instituições e das suas gentes”.

Director de Informação da TVI justifica “erro” com falta de pessoal

Num comunicado assinado pelo director de Informação da TVI, Sérgio Figueiredo, o canal salienta que “falou com quem sabe e produziu uma reportagem com uma intenção genuinamente construtiva e socialmente” pertinente. “Isto não justifica, porém, a construção de uma frase infeliz no ecrã, nem a parte do texto que a suportava. Nomeadamente aquela que, entre as razões demográficas e sociológicas indagadas, sugeria níveis de educação abaixo da média nacional”, frisa o mea culpa da TVI.

“Essa frase foi por muitos interpretada como uma ofensa às gentes do Norte – o que não era evidentemente o nosso propósito”, garante ainda a TVI.

Sérgio Figueiredo reforçou o pedido de desculpas no “Jornal das 8” desta terça-feira, assumindo a “tristeza absoluta” por se ter “cometido esse erro voluntário“.

Pedindo desculpas “aos portugueses e às pessoas do Norte em especial que se sentiram visadas”, o director de Informação da TVI explicou que a situação só ocorreu devido aos constrangimentos profissionais relacionados com a pandemia. Sérgio Figueiredo disse que a redacção da TVI está “com metade da equipa para fazer o dobro” para preservar a saúde dos seus profissionais.

O director de informação da TVI também notou que o objectivo da reportagem foi, apenas, “questionar porquê no Norte”. “Foi com espírito construtivo, genuíno, de chamar a atenção, colocar na ordem do dia aquilo que me parece uma evidência. O facto é que 60% dos casos [de Covid-19] são lá”, apontou.

Por fim, Sérgio Figueiredo referiu que a TVI “não vai alimentar separações, nem divisões fúteis e fictícias entre regiões e os portugueses, porque a hora é de união“. “Estamos numa luta pela nossa sobrevivência colectiva e estar a transformar a TVI no centro das atenções é, no mínimo, curto”, constatou.

ZAP // Lusa

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18 COMENTÁRIOS

  1. Há 60% de casos no Norte pois é aqui que se concentra o tecido empresarial.
    Quantos empresários de Lisboa e Sul vão (foram) à MICAM?

    A desculpa da TVI não passa disso mesmo: uma desculpa. Mesmo sem pandemia, e com a equipa completa (de gente de Lisboa) fartam-se de dar gralhas. Não há um revisor do que passam nos rodapés?

  2. Pois, só se sentiu afetado e ofendido quem vê aquela espécie de canal decadente e ridículo, mais conhecido como TVI, que já foi o TV4, já foi da Igreja, e agora parece que é do diabo. Realmente, parece impossível como, após problemas internos e não só de vária ordem, aquilo ainda não faliu. Resta a consolação que já faltou mais.

  3. O problema desse canal decadente, não é ter falta de pessoal, é ter pessoal incompetente, ignorante, mal preparado, sem profissionalismo, e que no fundo, não presta. Quanto ao Sr. Rui Moreira, acusou a TVI de “Portofobia”. Muito bem, mas quando é que este senhor vai entender que o Norte não é o Porto e vice versa?

  4. Se porventura tivesse poder para tal, já tinha encerrado esse canal (que me recuso a ver), há muito tempo.
    Não compreendo sequer, como é que determinados profissionais de comprovado valor, por quem muitos de nós certamente nutríamos muita ou alguma consideração, puderam abandonar projetos em estações dignas, para abraçarem percursos de conteúdos rascas e em muitos casos feridos de amoralidade como essa estação se permite, um canal que como disse alguém antes, até já foi da igreja. Incompreensível, tendendo a acontecer, na minha opinião, apenas numa sociedade despudoradamente desprovida de valores.
    O Sr. Rui Moreira, mais uma vez permitiu que os seus irresponsáveis complexos viessem à tona, permitindo-nos pensar que continua a confundir a obra prima do mestre, com a prima do mestre de obras.

    • O Norte trabalha, o Sul colhe os louros.E é no Norte que está o tecido empresarial.Se Portugal tivesse tanto tecido empresarial no Sul como tem no norte poderíamos ser um país rivo.Sinceramente esperava isto da CMTV não da TVI mas enfim…

  5. Com certeza que chamar mal educado a alguém é ofensivo. A desculpa da falta de pessoal deve referir-se à falta de pessoal educado na TVI. Enfim, jornalistas a tentar entrar nas competências de sociólogos e epidemiologistas.

    • Ninguém disse que eram mal educados, referiam-se a escolaridade…
      Em todo o caso, nem é descabido ser mal educados, porque como bem sabemos, asneiras para o pessoal do norte são virgulas e para mim isso é falta de educação. Embora não fosse isso que a TVI se estava a referir.

      • Um erro muito comum é a generalização. Há regiões no norte do País em que os palavrões são vírgulas, como bem diz, há outras em que isso não acontece. O norte de Portugal não é só o Porto ou o Norte Litoral. A grande província de Trás os Montes é a maior parte do Norte, por exemplo, mas muitos portuenses acham-se no direito de se considerarem “o Norte”. Nada mais errado. Eu sou minhoto e ouvir palavrões no lugar de vírgulas fere-me os ouvidos. Não fui educado dessa maneira e em minha casa palavrões nunca foram ouvidos. São, além de rudeza evidente, uma manifestação de linguagem pobre, logo, de intelecto limitado.
        Quanto ao facto de, por educação, os jornalistas da TVI quererem dizer instrução, revela mau emprego de terminologia (quando existe um termo que não dá lugar a dúvidas, é esse que se deve usar) e análise deficiente dos factos pois que, se esse fosse um fator para a propagação do vírus, muito teriam esses senhores a dizer acerca do nível, ou qualidade, da instrução das populações dos países mais afetados (EUA, Espanha, Itália, RU, Alemanha, Bélgica, Países Baixos, …)

        • Finalmente alguém com bom senso e educação, no entanto seria interessante perceber o porquê de décadas se passarem e não consigo ver grandes melhorias no nível de educação e linguagem no Norte, independentemente de qual o Norte.Vivo no Minho desde tenra idade, com origens do Porto e Alcobaça , fui educado com o mínimo acho eu, e por muito que nos custe, ainda existe muita gente que não sabe nem pegar em um simples talher,falar é uma desgraça,”… não tenho palavras.”é o que mais se ouve quando abordados a dar opinião,enfim,acho que as escolas poderiam ter aqui um papel mais decisivo , porque em suas casas já se percebeu que não chega.Agora, se existe interesse em que as coisas se mantenham assim, porque muita da economia no Norte se sustenta com estas pessoas e quando muitas vezes o patrão não é melhor, tá tudo dito.

          • Victor Lemos, quando dizem “não tenho palavras” temos que aceitar, já que, afinal, é apenas uma assunção de falta de vocabulário. É pior quando a expressão usada é “não há palavras” como se o facto de as desconhecerem implique a sua inexistência. Se bem me lembro, estas expressões começaram a ser muito difundidadas num desses programas “Big Brother” que tiveram muito sucesso na TV há anos. Julgo que, quando o Victor escreve “Norte”, se está a referir às regiões entre o Douro Litoral e o Baixo Minho, principamente, aos territórios periféricos dos centros urbanos com os quais muitas vezes se confundem devido à continuidade proporcionada pelo povoamento disperso. É neste tipo de povoamento, aliado a uma forte presença da indústria têxtil, que se pode encontrar as razões de uma maior propagação da pandemia. O povoamento disperso e uma grande mobilidade das populações não oferecem grandes dúvidas. A indústria têxtil é um setor da economia que mantém contactos intensos com as regiões da Europa importadoras dos têxteis portugueses e onde se realizam as grandes feiras. É aqui que o Norte de Itália adquire um papel de relevo.
            Um abraço e muita saúde!

  6. A propia TVI pede desculpa.
    Mas atira areia aos olhos da gente do Porto com o argumento de terem falta de pessoal, uma mentira ridicula para sulista acreditar pois a falta de gente poderia provocar a ausencia de legendas, nunca a forma como sao proferidas ofensivamente.
    Sulistas, vao-se tratar e levem convosco os nortenhos sem Norte pois só aqui neste comentarios encontram-se alguns.

  7. Caros compatriotas do Norte, há que desculpar certo tipo de jornaleiros pois terão a massa acefálica no intestino grosso, é isso que faz a diferença, talvez efeitos de algum Big Brother.

  8. O impacto da doença é maior nas regiões dos países com mais contacto com o exterior. Só e apenas isso. Tudo o resto é mitologia e falta de respeito gratuita.

  9. Mais uma vez mostra a pouca qualidade da informação dos canais televisivos ao qual vem merecendo criticas à algum tempo,se nos canais privados pouco ou nada os governos podem fazer, já quanto aos canais públicos não deveria ser assim.

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